A política brasileira atravessa uma mutação que transcende o mero debate de alternância de poder; trata-se de uma reconfiguração da própria economia moral que sustenta os laços sociais. Se, durante grande parte do século XX, as instituições — partidos, sindicatos e a grande imprensa — funcionavam como instâncias de mediação e “amortecedores” do conflito de classes, a ascensão do bolsonarismo marcou a ruptura definitiva desses diques. O que nasce desse vácuo não é apenas um novo projeto de governo, mas uma tecnologia de poder baseada na violência simbólica e na exploração do ódio como um ativo estratégico.
O estigma como capital: a luta pelo reconhecimento
Para sociólogo Pierre Bourdieu, o capital simbólico é o crédito e o reconhecimento conferidos àqueles que possuem as propriedades consideradas legítimas em um determinado campo. O bolsonarismo, em sua gênese, operou uma subversão radical dessa lógica. Ao confrontar a figura de Luiz Inácio Lula da Silva, o movimento não apenas atacou suas políticas, mas buscou converter o seu capital de autenticidade (a marca do trabalho, o sotaque retirante, a trajetória sindical) em um estigma biológico e moral.
A ofensa anatômica — a ridicularização da ausência de uma falange — é o exemplo máximo dessa tentativa de deslegitimação. Ao focar na “falta” biológica, o ódio bolsonarista tenta impor um habitus de elite que dita que o corpo do poder deve ser íntegro, higienizado e “instruído” (mesmo que essa instrução seja apenas performática). No entanto, como sugere Gastão Ponsi no excelente artigo publicado no portal Red.Org, ocorre uma inversão: a “amputação histórica” das elites, que possuem todos os dedos mas carecem de empatia, inteligência política e ética, revela que o capital simbólico do líder popular está guardado na memória coletiva do trabalho, algo imune ao escárnio digital.
A erosão das mediações e a banalidade do algoritmo
A sociologia de Bourdieu nos ensina que o campo político exige mediações para que a disputa não se converta em guerra direta. No entanto, o bolsonarismo se alimenta da desintermediação. Ao substituir o debate institucional pelo fluxo ininterrupto de narrativas em redes sociais, o movimento desmantela as hierarquias tradicionais de conhecimento e autoridade.
Neste contexto, o ódio deixa de ser um excesso para se tornar a própria linguagem do campo. A digitalização da esfera pública criou uma arquitetura cognitiva onde a “irreflexão sistemática” — o que Ponsi conecta à banalidade do mal de Arendt — é recompensada. O algoritmo não busca a verdade; ele busca a homologia entre o ressentimento do indivíduo e a agressão do líder. O fiel bolsonarista, ao replicar o insulto, não o faz por maldade puramente individual, mas por um habitus de grupo que encontra na agressividade a única forma de sentir-se pertencente a uma “elite moral” inventada (Deus, Pátria, Família).
A terceirização da moral e o pânico do controle
A convergência entre o discurso teocrático – onipresente nas redes de ódio – e a política rentista cria uma blindagem psicológica poderosa. A moralidade é terceirizada para o púlpito ou para o influenciador digital, eximindo o sujeito de refletir sobre as consequências materiais de suas escolhas (como o desmonte de direitos trabalhistas ou o impedimento de tributar as grandes fortunas).
A violência simbólica bolsonarista opera, portanto, um duplo movimento:
Desumaniza o oponente, transformando-o em um corpo a ser ridicularizado ou eliminado.
Anestesia o seguidor que, imerso em um estado de pânico moral contínuo, aceita a espoliação econômica desde que receba em troca a catarse da tribo e a dopamina do ódio.
A História contra a Biologia
O “ódio político” no bolsonarismo não é um erro de percurso, mas uma tecnologia de autorização. Ele autoriza a retirada de direitos sob o pretexto de uma surreal “cruzada purificadora”. Contudo, a análise sociológica revela a fragilidade dessa construção. Enquanto o ódio depende da ativação constante de algoritmos e do ressentimento volátil, o capital simbólico construído na dureza do chão de fábrica e na representação das massas, possui uma densidade histórica que a aritmética miserável do preconceito não consegue alcançar.
Ao final, a sociologia do ódio nos mostra que aqueles que insultam a falta de um dedo expõem, na verdade, o vazio de suas próprias mãos, incapazes de sustentar um projeto de nação que inclua a alteridade. A biologia de um líder é passageira; mas a violência simbólica exercida contra um povo deixa marcas que apenas a reconstrução das mediações democráticas e da reflexão crítica poderá curar.
Chico Cavalcante/revistaforum/Caminho Político
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