Deputado Dr. João José

Deputado Dr. João José
Mato Grosso no Coração

terça-feira, 9 de junho de 2026

O Brasil ainda é "a pátria em chuteiras"?

Especialistas divergem: para uns, o Brasil ainda é o "país do futebol". Outros apontam que há uma desconexão de muitos torcedores com a seleção e 46% dos brasileiros admitem que estão desanimados com a Copa de 2026.
Até hoje, o jornalista Marcelo Duarte, de 61 anos, não sabe dizer se o primeiro álbum de figurinhas que colecionou era dele ou do pai. A dúvida procede: afinal, quem comprava os envelopes, colava as figurinhas e folheava o álbum da Copa de 1970 era Seu Dermeval. "Ele tinha medo de que eu rasgasse as figurinhas, colasse torto ou amassasse as páginas", explica o autor do livro O Álbum dos Álbuns de Figurinhas das Copas (Panda Books), à época com cinco anos.
Desde então, Marcelo passou a colecionar figurinhas de futebol. Entre as Copas de 2014 e 2022, chegou a ter dois álbuns: o de brochura e o de capa dura. Este ano, por causa dos preços exorbitantes, é um só. "Herdei essa paixão do meu pai. E meus filhos herdaram essa paixão de mim. Quando a gente se reúne aos domingos, abrir envelope de figurinha faz parte do cardápio. É uma curtição", festeja o pai de Rodrigo, Beatriz e Antônio, de 34, 31 e 20 anos.
No caso do supervisor de projetos Celso Mendes, de 48 anos, a curtição é outra: enfeitar a rua onde mora, a Pereira Nunes, entre os bairros da Tijuca e Vila Isabel, no Rio de Janeiro. Desde 1994, ele convoca a vizinhança para pintar o asfalto, decorar os muros e pendurar as bandeirinhas. "Quero tirar a criançada da frente do celular", ambiciona o pai das adolescentes Ana Beatriz, de 15 anos, e Ana Rosa, de 11. "Ensinar para elas que a rua é do povo!"
Além de instalar telões, Celso pretende organizar de troca de figurinha a campeonato de pet. "Não é só futebol, é confraternização também", afirma. Como o número de ruas decoradas para a Copa vem caindo, a prefeitura do Rio instituiu prêmios em dinheiro para as mais bonitas. "De quatro em quatro anos, vestimos a camisa verde e amarela da seleção para mostrar ao mundo o que o brasileiro tem de melhor: alegria e diversão", gaba-se.
Coincidência ou não, os dois deram sorte à seleção. Em 1970, quando Marcelo Duarte começou a colecionar figurinhas de futebol, o Brasil tornou-se tricampeão no México. Vinte e quatro anos depois, quando Celso Mendes enfeitou pela primeira vez a Pereira Nunes, fomos tetra nos Estados Unidos. Este ano, pela sexta vez, tentaremos ser hexa. Será que, como diria o cronista Nelson Rodrigues, ainda somos "a pátria em chuteiras"? Há controvérsias.
Na marca do pênalti
Uns, como o historiador Ademir Takara, dizem que sim. "Ainda somos o país do futebol", orgulha-se o bibliotecário do Museu do Futebol. Isso não o impede de demonstrar preocupação com as decisões tomadas por alguns cartolas de reduzir o espaço reservado aos campeonatos estaduais no calendário nacional. "O futebol se tornou popular no Brasil pelo sentimento de pertencimento inerente aos times locais e às disputas regionais", diz.
Outros, como o jornalista Marcos Guterman, rebatem que não. Para ele, o brasileiro não depende mais da seleção para se posicionar em relação ao resto do mundo. "Há muito, a seleção não é ‘brasileira'. Muitos jogadores deixaram o país muito cedo e se desenvolveram no exterior", explica o autor do livro O Futebol Explica o Brasil (Contexto). "Sem essa identidade, fica difícil entender a seleção como uma expressão da pátria", argumenta.
Dos 26 atletas convocados pelo técnico Carlo Ancelotti, apenas sete jogam no Brasil. Em compensação, o clube que mais cedeu jogadores para a seleção é brasileiro: Flamengo. Dos sete convocados, quatro são rubro-negros: Alex Sandro, Danilo, Léo Pereira e Lucas Paquetá. Os demais são do Botafogo (Danilo Santos), Grêmio (Weverton) e Santos (Neymar). Os clubes ingleses Manchester United e Arsenal e o russo Zenit cederam dois cada um.
Outros, ainda, como o professor de Educação Física Sérgio Giglio, fazem ressalvas. "Continua a ser, mas não como antes", pondera um dos editores-chefes do site Ludopédio. Para ser a "pátria em chuteiras", os brasileiros precisam jogar bola, dar dribles e marcar gols. Nas grandes cidades, os campos de futebol estão desaparecendo sem deixar vestígios. "Onde havia um campo agora há um prédio. E tem sido assim há algum tempo", lamenta.
Bola fora
Para piorar, dois fantasmas parecem assombrar os brasileiros: a goleada de 7 a 1 para a Alemanha na Copa de 2014 e a apropriação da camisa da seleção por movimentos de direita. "A história de um país não se escreve nos gramados. Mas, ao levar quatro gols em apenas seis minutos numa semifinal disputada em casa, o orgulho nacional se transformou em vergonha", afirma o historiador Fábio Luís dos Santos, autor de Saudades do que Nunca Fomos (Elefante).
Na ditadura, o regime militar procurou transformar o amor à seleção em adesão ao autoritarismo. Enquanto isso, boa parte da sociedade civil aproveitava a Copa para discutir cidadania. "A camisa da seleção é um símbolo. Sempre que a democracia é ameaçada, esse símbolo se torna objeto de disputa política. Mas, como bem comum, pertence a todos e a ninguém", garante a historiadora Diana Machado, coautora de O Brasil e as Copas do Mundo (Zagodoni).
Com o bolsonarismo, a história se repetiu. A camisa da seleção deixou de representar apenas futebol e passou a sinalizar posicionamento político para parte da população. "Muitos passaram a sentir desconforto em vestir um dos símbolos do país", acrescenta o professor de Educação Física Marco Antônio Bettine de Almeida, vice-coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre Futebol e Modalidades Lúdicas (LUDENS), da USP.
O país do futebol?
Por essas e outras, 46% dos brasileiros admitem que estão desanimados com a Copa do Mundo de 2026, 42% afirmam que só pretendem assistir aos jogos da seleção e 49% acreditam que o Brasil tem poucas chances de ser campeão. Para 33% deles, o Brasil só chega às quartas de final. É o que diz o estudo Copa do Mundo, realizado pelos institutos Ipsos e Ipec, entre os dias 8 e 12 de abril, com 2 mil brasileiros, acima dos 16 anos, em 130 municípios.
Outro estudo revela que, no Mapa das Paixões Brasileiras, a Copa do Mundo ocupa a quarta colocação, com 8,2% dos votos. Está atrás de séries (10,9%), músicas (10,7%) e religiões (9%). "A relação do brasileiro com a seleção mudou. Hoje em dia, o futebol divide espaço com outras formas de lazer, como série e música, e de pertencimento, como religião", analisa Andréa Barbosa, diretora de Entendimento de Marca da Ipsos no Brasil.
À espera do hexa
Um dado que chamou a atenção de Andréa é que as novas gerações ainda não viram o Brasil levantar a taça de campeão do mundo. Em 2002, quando a seleção brasileira conquistou o pentacampeonato de futebol na Coreia do Sul e no Japão, muitos torcedores ainda não tinham sequer nascido. Por essa razão, alguns preferem torcer por clubes europeus, como Real Madrid e Paris Saint-Germain, a times brasileiros, como Flamengo e Corinthians.
É o caso de João e Benício, de 18 e 11 anos. Eles são filhos do casal Péricles e Andréa Mecenas. "Até tenho, como todo brasileiro, as minhas superstições. O problema é que, desde 2006, elas não estão funcionando muito bem", diverte-se o publicitário Péricles Mecenas, de 51 anos. "Copa do Mundo é uma das primeiras memórias afetivas do brasileiro. Vai muito além do esporte. Durante a Copa, o país inteiro torce pelo mesmo time", observa.
Na Copa de 2022, no Catar, Peck criou a fan fest Energia para Torcer, em Niterói, com shows de Zeca Pagodinho, Os Paralamas do Sucesso e Xande de Pilares, entre outros. Este ano, o torcedor assiste aos jogos do Brasil e, depois do apito final, ainda curte os shows de Ludmilla, Thiaguinho e Ferrugem. "A ideia é reproduzir aquela catarse que você sente ao assistir a um jogo da arquibancada. São milhares de pessoas vivendo a mesma emoção."
Assessoria/André Bernardo/Caminho Político
📢 Jornalismo profissional e de qualidade. Acompanhe as últimas notícias de Cuiabá, de Mato Grosso, de Brasil e do Mundo.
📲 📰 💻Siga o Caminho Político nas redes sociais 💻
🌐www.caminhopolitico.com.br
🌐www.debatepolitico.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário