Na década de 1980, houve uma grande crise econômica no Brasil. Em Mato Grosso onde a economia era mais simples, a construção civil foi quem sofreu o maior impacto, gerando imenso desemprego. Uma válvula de escape foram os garimpos de ouro em Nossa Senhora do Livramento, de Poconé e das periferias de Cuiabá. Imensas multidões de gente desempregada tentaram a sorte nos garimpos. Ainda hoje se vê imensas montanhas de cascalho e de rejeitos de terra esparramados em Livramento e profundas crateras em Poconé.
É claro que os garimpos mudaram a cara dessas cidades. Gente vinda de todos os lados e a natural indisciplina dos garimpeiros. Junto com eles vem muitos vícios típicos: prostituição, bebedeiras e violência entre si. O dinheiro vem e vai fácil. Recordo-me de bancos financiando equipamentos para garimpagem, tratores, pás carregadeiras, caminhos, etc. As cidades cresceram. Um dia o Ibama foi lá e fechou tudo. Criou mais problemas sociais do que resolveu os problemas ambientais da época. Claro que o meio ambiente estava sendo atacado, até porque em Poconé, por exemplo, é boca de entrada do Pantanal. Mas foi truculento o processo. Um dia as cidades amanheceram invadidas pela Polícia Federal e pelo Ibama.
Os municípios nunca mais se levantaram economicamente e hoje acumulam um passivo social imenso. Poconé transformou-se numa cidade-problema e Livramento decaiu demais. O empobrecimento de Poconé é assustador. O garimpo foi sua segunda derrota. A primeira veio na mesma década de 1980 com o empobrecimento da tradicional pecuária pantaneira que migrou os rebanhos para as pastagens de capim formadas nos cerrados .
O que a garimpagem atual e desenfreada em Pontes e Lacerda, a 500 km a oeste de Cuiabá, tem a ver com aquela citada? Tem a mesma onda de desemprego e crise econômica no país. Desta vez a Secretaria de Estado do Meio Ambiente está se movimentando e o Ministério Público Federal. Já se fala em uso da Polícia Federal contra os 5 mil garimpeiros que se aventuram por lá. Antes de usarem a força e de repetirem os erros de Poconé e Livramento, seria bom que os senhores procuradores descessem do trono e visitassem a região. Fora dos gabinetes existe vida e os garimpeiros não tem contracheque assegurado no fim do mês. Justiça social exige sensibilidade social.
Onofre Ribeiro é jornalista em Mato Grosso

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