A morte do ex-senador mato-grossense José Benedito Canellas merece ser registrada por uma série de razões. Independente até mesmo da sua figura na política, vale o registro pelo momento histórico em que se desenvolveu a sua carreira de vereador em Cáceres, deputado estadual, deputado federal e senador. De origem modesta, acabou por participar como técnico na colonização da região Oeste de Mato Grosso, por paulistas, mineiros, goianos e paranaenses nos anos 1960. Eram assentamentos irregulares e o governo de Mato Grosso decidiu assentar as chamadas “glebas de Cáceres” e legalizá-las. Com um capital político nascido aí elegeu-se vereador em Cáceres e terminou por eleger-se senador em 1978, na primeira eleição no novo Estado de Mato Grosso depois da divisão de 1977.
Foi deputado federal entre 1975 e 1979, na última legislatura do velho Estado de Mato Grosso antes de ser dividido. Por circunstâncias, acabou amigo do General João Baptista Figueiredo, que viria ser indicado presidente da República entre 1979 e 1985. Ainda na eleição de 1978, disputando contra o ex-governador José Garcia Neto em cuja gestão se deu a divisão do Estado, venceu-o por pequena margem de votos e teve o apoio forte de Figueiredo. Nos anos seguintes, por sua amizade histórica com o ex-governador Pedro Pedrossian (1966-1971), Canellas dividiu seu esforço parlamentar entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Pedrossian tornou-se grande líder político lá.
A amizade com o governo Figueiredo resultou em muitos recursos para os dois estados e na sua projeção pessoal dentro do governo.
Ao fim de seu mandato, prejudicado pelas atenções que deu a Mato Grosso do Sul, teve que abdicar da vida política. Bom lembrar que nos anos seguintes à divisão de Mato Grosso, a rivalidade entre os dois estados era enorme. Mato Grosso não o perdoou por aquela atenção. Sua vida política encerrou-se em 1987 no fim do único mandato de senador. De origem modesta, manteve essa postura ao longo da vida. Até a sua morte, ainda circulava próximo ao poder político anônimo e sem ostentar os títulos políticos.
Na sua eleição de senador em 1978, estivemos em lados diferentes. Apoiei Garcia Neto em cujo governo trabalhei e fui trazido de Brasília para Mato Grosso. Passado esse período nos aproximamos numa amizade desinteressada que passou pela simpatia da esposa Suelly Canellas, dos filhos e, principalmente, do Marcelo, que foi meu aluno em Jornalismo e morreu prematuramente. O senador Canellas levou consigo um pedaço importante da história política recente de Mato Grosso na qual teve valiosa participação.
Onofre Ribeiro é jornalista em Mato Grosso
ribeiro.onofre@gmail.com www.onofreribeiro.com.br

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