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domingo, 7 de janeiro de 2018

"A Igreja é menos Igreja, se as mulheres não participam na tomada de decisões". Entrevista com Alessandra Smerilli"

Resultado de imagem para igrejas romanasReligiosa das Filhas de Maria Auxiliadora, Irmã Alessandra Smerilli tem 43 anos e é originária de Vasto (Chieti). Ensina economia política e elementos de estatísticas na Pontifícia Faculdade de Ciências da Educação "Auxilium" de Roma. Em 2014, doutorou-se em Economia pela Faculdade de Economia da Universidade de East Anglia (Norwich, Reino Unido), e, em junho de 2006, recebeu um PhD em Economia pela Faculdade de Economia na "Sapienza" de Roma. Ela é membro fundador e professora da Escola de Economia Civil e membro da Comissão de ética da Etica SGR. Ela foi co-autora com Luigino Bruni de L’altra metà dell’economia (A outra metade da economia, Città Nuova, Roma 2015) e está publicando o volume, Carismi, economia, profezia: la gestione delle opere e delle risorse (Carismas economia, profecia: a gestão das obras e dos recursos,com a editora Rogate). A revista Aggiornamenti Sociali, 04-01-2018, editada pelos jesuítas italianos de Milão, entrevistou Alessandra Smerilli, no contexto da discussão do sobre o empoderamento das mulheres, para um aprofundamento sobre o tema da liderança das mulheres no mundo da economia e finanças. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis a entrevista.
Como surgiu a sua paixão pelo ensino e pela economia?
Paixão pela educação, acho que eu sempre tive, inclusive por isso sou uma freira salesiana. Comecei desde jovem a cuidar de crianças, e vamos dizer que eu nunca mais parei. Com a economia foi bastante diferente: quando eu estava me perguntando sobre o que eu poderia estudar na universidade, e analisava as várias ofertas de formação, a economia era a única página que eu sempre pulava. Eu não estava nem um pouco interessada. Em 1993, quando comecei a minha formação para me tornar uma freira, meu sonho era estudar psicologia e ir trabalhar com jovens mais pobres e em dificuldade, talvez em abrigos. Em vez disso, minha superiora na época me pediu para estudar economia: sempre há necessidade uma freira preparada nesse campo; ela sempre olhava para frente, e disse que a economia iria se tornar cada vez mais importante, iria governar o mundo e a política, e nós, como educadores não poderíamos não nos interessar.
Qual foi sua reação?
Inútil dizer que, naquele momento, eu senti que estava morrendo: nunca havia pensado em me tornar uma freira e depois cuidar de economia! Eu me senti como em um sonho ruim, do qual só queria acordar. Mas eu confiei e comecei a estudar. À medida que continuava, percebi que o estudo das teorias econômicas era fascinante, embora nem tudo me agradasse; na verdade, eu tinha dificuldade para entrar nos raciocínios de maximização, nos princípios de não saciedade, em alguns modelos de crescimento, etc. E quanto mais eu estudava, mais percebia que era necessário aprofundar, porque as teorias econômicas só poderiam ser melhoradas a partir de dentro: não me parecia suficiente a proclamação de valores ditados como juízos moralizantes sobre um sistema do qual não são discutidos os fundamentos. É precisamente a substância que precisa ser melhorada. Vou dar um exemplo: quando construímos as curvas de indiferença, que estão na base da teoria da escolha dos consumidores, partimos de alguns axiomas, ou seja, princípios evidentes que não precisam ser demonstrados, incluindo o de não saciedade: o mais é sempre preferível ao menos, ter um bem a mais nunca vai trazer prejuízos. Mudar a teoria de dentro significa questionar-se sobre o que às vezes tomamos como certo. Por exemplo, Gandhi argumentava que é irracional ter mais bens, enquanto para viver bem seriam suficientes menos. Durante os estudos conheci professores que me mostraram outra economia (é o caso, por exemplo, da experiência da economia de comunhão), outras teorias, mudando minha vida. Graças a esses encontros, de fato, nasceu em mim o desejo de continuar meu aprendizado com um doutorado na Itália e um PhD na Inglaterra, estudando a "we-rationality", ou seja, a racionalidade do ‘nós’, uma tentativa de superar o individualismo metodológico na economia. E agora continuo, tentando fazer minha pequena parte. Às vezes me lembro de quando me pediram para estudar economia: eu tive muitas razões para dizer não, e quis muito fazer isso...mas, se eu o tivesse feito, então eu não teria visto o desdobramento de um projeto muito belo e original.
O que têm a dizer hoje as mulheres em uma disciplina como a econômica, por décadas campo exclusivo dos homens?
A palavra economia vem do grego oikos nomos, que significa gestão e cuidados da casa, onde por "casa" podemos entender todo o planeta, a casa comum. E a casa, por razões históricas e culturais, sempre foi associada às mulheres. As mulheres, então, têm uma tarefa fundamental: se concentrar em cuidar da nossa casa comum. É significativo que a primeira mulher a ganhar o Prêmio Nobel de Economia, em 2009, tenha sido a estadunidense Elinor Ostrom (1933 a 2012), que se ocupou justamente sobre os bens comuns. Da mesma forma, eu acho que não foi por acaso que os primeiros trabalhos teóricos em economia sobre os bens relacionais tenham surgido das mentes das mulheres, particularmente da cientista política Carol J. Uhlaner e da filósofa Martha Nussbaum. De vozes das mulheres está emergindo também uma tentativa de olhar para todo o sistema econômico de uma forma mais conectada com o respeito pelo meio ambiente e os direitos humanos fundamentais. Um exemplo é o recente livro de Kate Raworth, The Doughnut Economics: uma revisão dos modelos econômicos visando não tanto o objetivo do crescimento, mas a garantia, tanto quanto possível, de respeito para todos pelos direitos fundamentais, não menos importantes, sem descuidar dos limites na exploração do planeta. As mulheres têm, portanto, muito a dizer para a economia de hoje e do amanhã, mas para isso devem ser profundamente competentes, porque se trata de ultrapassar algumas lógicas profundamente radicadas nos modelos econômicos, e isso deve ser feito superando preconceitos e estereótipos.
Enquanto cresce a função de gestão feminina na Itália, considera que as mulheres devem ser portadores de um determinado modelo de liderança?
Hoje estamos percebendo, mesmo em grandes empresas de consultoria, que algumas características femininas são importantes para a administração das empresas. Por exemplo, as organizações que veem dentro de seus Conselhos de Administração um bom número de mulheres são mais resistentes a crises e mais inovadoras. A partir de alguns experimentos sobre comportamentos econômicos parece emergir que as mulheres geralmente sejam mais avessas aos riscos do que os homens, menos propensas à competição (isso também explicaria por que as mulheres que chegam para ocupar cargos de liderança não são muitas: não porque elas não são capazes, mas porque não gostam da competição), menos sensíveis a incentivos extrínsecos, mais hábeis em resolver dilemas em grupos. Se estas e outras características hoje fossem mais consideradas, prestando mais atenção às questões de gênero, as empresas teriam várias vantagens do ponto de vista da eficiência ou equidade, mas, ao contrário, as ferramentas utilizadas para a valorização do pessoal são normalmente orientadas aos incentivos e competição. Finalmente, hoje nas empresas a organização hierárquica está dando lugar a modelos mais adequados aos tempos e à cultura em que vivemos, como o da rede. As novas formas de organização exigem uma liderança flexível, inclusiva, que promove a cooperação e a criatividade e nisso, creio que as mulheres tenham melhor propensão. Além dos compromissos acadêmicos, você é uma convidada frequente de conferências abertas ao público. Que expectativas existem, por parte dos círculos profissionais que frequenta, em relação ao fato de ser religiosa? Não me parece que existam grandes expectativas, mais frequentemente, percebo surpresa. Especialmente em alguns ambientes, de fato, associa-se ser uma freira, uma religiosa, com o fazer o bem para a caridade, porém, de forma redutiva: como freira espera-se que eu fale de valores, talvez de espiritualidade, e muitas vezes me chamam justamente para isso. Por essa razão quase nunca me apresento com o hábito religioso em uma conferência. Lembro-me que uma vez, em uma grande convenção de um grupo de bancos, um diretor geral me passou a palavra dizendo que iríamos voar alto, para depois retornar, com as outras intervenções, ao mundo dos números, que só pode ir em frente com determinadas lógicas. Normalmente, no entanto, à medida com que falo com as pessoas, elas ficam surpresas, entendem com surpresa que também é possível voar alto falando de números, finanças, economia, trabalho, e fazer isso a partir de dentro, tentando transformar as lógicas, dando uma leitura diferente a alguns fenômenos. O apreço e estima que recebo quando participo de conferências e reuniões me faz compreender que há uma grande sede de um olhar positivo sobre os problemas e os desafios de hoje, mas deve ser um olhar concreto, de vivência, de testemunho e não de mestres.
Você é a única mulher presente no Comitê das Semanas Sociais e a última edição (Cagliari 26-29 outubro 2017) teve uma presença feminina exígua. Que expectativas e espaços de responsabilidade vislumbra para as mulheres na Igreja italiana hoje?
Estou profundamente convencida de que a Igreja é menos Igreja e o ser humano é menos humano se as mulheres não participam da tomada de decisões, se não exercem suas responsabilidades. Isso não quer dizer ocupar espaços ou cargos de gestão: isso é muito pouco feminino. Existem atenções, sensibilidades, formas de ver a realidade e cuidados com processos que têm dificuldade para emergir em contextos exclusivamente masculinos. Infelizmente, as estruturas eclesiásticas italianas são muito masculinas, e isso cria o que na economia é chamado de um processo de seleção adversa: as mulheres se sentem pouco atraídas para determinados ambientes. Por exemplo, vejo que as mulheres mais inteligentes que eu conheço, depois de tentar fazer alguma contribuição no âmbito das estruturas eclesiásticas, preferem oferecer seus conhecimentos em outros lugares, onde é preciso lutar menos para serem reconhecidas como iguais aos homens. Ao mesmo tempo, os homens, por não se sentirem encorajados a pensar e agir de forma diferente, talvez, mesmo sem perceber, continuam a perpetuar esquemas, formas de fazer as coisas e organizar-se que deixam as mulheres de fora. Acredito que seja preciso enfrentar a questão de forma serena e aberta, para realizar processos que tornem a todos nós mais conscientes da urgência da mudança. Não acho que o caminho seja o da abertura do sacerdócio às mulheres, mas, como defende o Papa Francisco, uma desclericalização das estruturas eclesiásticas.
Como é possível na atualidade conciliar vida profissional e pessoal? O que você recomendaria para as jovens mulheres que estão entrando no mundo do trabalho, ansiosas por uma realização profissional, sem abrir mão do tempo para si e para os outros?
A questão da harmonização da vida profissional e familiar é objeto de um mal-entendido: erroneamente, e principalmente na Itália, no passado tal conciliação era considerado um problema feminino, como se só a mulher devesse cuidar da família. A cultura corporativa não discriminatória deveria, ao contrário, deixar claro o fato de que homens e mulheres podem ter ajudas em conciliar os tempos de trabalho e da vida familiar. Dito isto, na Itália, hoje, é muito difícil realizar-se do ponto de vista profissional sem sacrificar relacionamentos, afetos e família. E, principalmente, para as mulheres, para quem a maternidade ainda é muito complicada para as perspectivas de carreira. Muitas ainda são obrigadas a escolher entre família e trabalho, mas essa escolha funciona, enquanto os filhos são pequenos e requerem cuidados em tempo integral, em seguida, leva à insatisfação com a vida e penaliza a expressão das próprias potencialidades e talentos. Para as mulheres jovens sugeriria compartilhar imediatamente com o seu parceiro de vida as expectativas profissionais e familiares, ou pelo menos acordar sobre subdivisão do trabalho em casa e fora: "Para educar uma criança é preciso uma aldeia inteira", afirma um provérbio africano. Uma criança nascida é um bem para todos, e, portanto, todos devem cuidar dela. Eu diria que devemos passar da ideia de que para poder trabalhar as mulheres precisam sacrificar alguma coisa, para uma nova maneira de pensar sobre a sociedade e a realização na vida.Hoje consideramos como plenamente realizada uma pessoa que trabalha 15 horas por dia, que não tem tempo para mais nada, que para desempenhar bem seu trabalho deve delegar a outros seus compromissos e obrigações, como cuidar da casa, dos outros, da família. Em vez disso, todos devemos entender que uma pessoa é menos pessoa se não participa do cuidado da família e dos relacionamentos. Um bom profissional não é uma excelente pessoa se não souber sequer passar sozinho sua camisa, se não tiver tempo para estar com um idoso ou uma criança. E as atividades de cuidados são bens de experiência, ou seja, que são percebidos como tal só quando são vivenciados. As mulheres, que por história e sensibilidade sempre foram mestres na arte dos cuidados, têm agora a tarefa de ensiná-la também aos homens, é uma tarefa educativa imprescindível, se quisermos que alguma coisa mude em nossa sociedade.
unisinos

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