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sexta-feira, 27 de abril de 2018

'A dúvida da esquerda é se a renovação será dentro ou fora do PT'

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A esquerda brasileira precisa se renovar, mas terá de fazê-lo ao levar em conta que Luiz Inácio Lula da Silva continuará a ser seu principal nome. E sua prisão contribuiu para essa realidade se consolidar. A avaliação é de Lincoln Secco, historiador e professor da Universidade de São Paulo (USP). Na entrevista, ele afirma que a dúvida que se coloca para a esquerda é se essa renovação se dará dentro ou fora do Partido dos Trabalhadores: "pode ser que no interior do PT haja uma renovação, isso é mais fácil, porque já tem uma base constituída, é um partido que está enraizado num setor da população e que é o preferido nas pesquisas". Além disso, afirma que, com a 'ajuda' do governo de Michel Temer, de baixíssima popularidade, o partido se tornou de novo a liderança da oposição.
Eis a entrevista.
O que a prisão do Lula significa para a história do PT?
Atualmente, o principal objetivo tanto do partido da toga quanto do partido da mídia é fazer com que a esquerda considere que não houve um golpe no Brasil e que a prisão do Lula é justa. O PT não aceita essas duas afirmações, o que é óbvio, então, do ponto de vista da esquerda, o PT fazer uma campanha Lula Livre e mantê-lo candidato, faz todo o sentido. É uma questão de sobrevivência política de curto e médio prazo.
E para a esquerda, como ela pode se organizar ou não a partir disso?
Acredito que a importância da campanha Lula livre é mantê-lo politicamente ativo para a própria história do símbolo do partido, a sobrevivência de médio prazo do PT. A esquerda, o campo popular da política brasileira dificilmente vai ganhar as eleições, porque o golpe não foi dado para devolver o poder à esquerda. Claro que sempre há o acaso, mas a campanha pelo Lula tem um significado para a eleição de uma boa bancada parlamentar, de governadores. É o que vai manter a esquerda preparada para se reconstruir no próximo período.
De um modo geral, os dirigentes de esquerda envelheceram em cargos burocráticos, operacionalizando políticas sociais muito importantes, mas que não foram nada mobilizadores, porque os caminhos foram da conciliação, do republicanismo, de uma forte convicção democrática, mas não de pressão popular para mudar a natureza das instituições.
Faz sentido, então, o PT não ter indicado quem seria um candidato substituto ao Lula logo após sua prisão?
Do ponto de vista eleitoral, faz mais sentido não indicar um candidato imediatamente. Esse é o desejo do partido da mídia. Se o PT indicar outro candidato nesse momento, estará assumindo que Lula é um preso comum e que as instituições funcionam plenamente. Independente de como julguemos a situação, não se pode aceitar agora depois de sustentar um discurso sobre o golpe e sobre a prisão política, que o PT simplesmente vai se dedicar às eleições e esquecer o Lula.
Lula também conseguiu fazer da sua prisão um espetáculo político que é simbólico para a manutenção da sua memória no curto e no médio prazo na sua base social. Isso também modificou a forma pelas quais o PT pode agir. Lula não aceitou ser um preso comum. Ele se entregou numa imagem de braços do povo.
Lembro que Lula manteve seu discurso de crença na Justiça até a missa de São Bernardo. Ali ele abandonou o direito e abraçou a história. Ele se tornou o fator de unidade mínima da esquerda. Embora não signifique uma candidatura única, isso não é pouco, porque a esquerda não se une desde a batalha da Praça da Sé contra os integralistas em 1934.
Em entrevista recente, você afirmou ser possível que juízes tenham contribuído para fortalecer o mito do Lula, e por isso é possível que se consolide um lulismo mais radical sem Lula. Poderia falar a respeito?
O lulismo é um sistema de conciliação de vários segmentos da sociedade. Isso se enraizou nos campos mais pobres. Se esse campo popular for impedido de ter uma expressão eleitoral e política viável, a médio prazo haverá certamente tanto lulistas saudosistas e pacifistas, quanto movimentos mais radiciais, assim como aconteceu com o peronismo na Argentina. O Lula é muito inteligente e ele mesmo disse que se tornou uma ideia. Mas não é uma ideia definida, é uma ideia que permite grande plasticidade.
Você pode interpretá-la de diversas maneiras, de acordo com o momento da história. A longo prazo, isso vai ser um terreno de disputa para a esquerda. Acredito que esquerda pode se renovar, ela precisa se renovar. Ela não tem ideia do que fazer com o Estado brasileiro, ela tem de fazer muitas coisas. Mas vai ter que continuar atuando por muito tempo nesse campo em que Lula é a personalidade principal. Porque se não será uma esquerda zona sul Rio de Janeiro, esquerda dos Jardins de São Paulo, não vai ser uma esquerda popular.
Parte da esquerda que era crítica ao PT se uniu em torno da campanha do Lula Livre. Há uma tendência de unidade, ela deve continuar ou vai se fragmentar?
A derrubada da Dilma e substituição por um governo que inverteu o programa pelo qual ela foi eleito e está fazendo uma verdadeira contra revolução de 1930, que está liderando o Brasil rumo ao atraso profundo, à Republica Velha, tudo isso fez com que camadas populares, as classes trabalhadoras, se voltassem para as instituições e personalidades que elas mais reconhecem.
Isso é totalmente normal e esperado. Todas as experiências inovadoras que a esquerda mais autônoma viveu, a partir de 2013 especialmente, elas refluíram. É natural que haja confluência em torno o de um acordo mínimo, que é a prisão política do Lula. Mas isso não significa unidade das organizações. A esquerda ela tem uma vocação inabalável para a separação, dispersão. Acho que essa unidade pode se dar no segundo turno, caso um candidato de esquerda chegue lá.
E se Lula for impedido judicialmente de concorrer, como ficaria?
O candidato que Lula indicar, eu não diria que tem grandes chances de ganhar as eleições, porque há um interdição oculta à esquerda nessas eleições. A própria antecipação do julgamento do Lula e a retirada dele da cena politica ditam isso. Mas certamente um candidato dele e do PT têm uma grande chance de chegar ao segundo turno. Mas acho que o mais importante para o PT é que com essa ajuda do governo Temer, de popularidade ínfima, o partido se tornou de novo a liderança da oposição e pode ter uma bancada parlamentar expressiva, eleger governadores, pode fazer com que o PT sobreviva.
Poderia ser um PT concretamente mais à esquerda?
A grande dúvida da esquerda é se a renovação se dará fora do PT ou dentro do PT. Nos Estados Unidos, houve grande movimento de esquerda dentro do partido democrata, porque o sistema de política não permite o surgimento de outro partido com expressão eleitoral, na Inglaterra uma liderança de esquerda até assumiu a direção do partido. Essa é a dúvida, pode ser que no interior do PT haja uma renovação, isso é mais fácil, já que tem uma base constituída, é um partido que está enraizado num setor da população, e é o preferido nas pesquisas. Seria mais fácil, mas a dificuldade é romper com os interesses estabelecidos.
Acho que no meio de tantos erros, a esquerda foi firme nesses dois pontos: de não aceitar a ideia de que Brasil vive situação normal, de que não houve ruptura, porque nas aparências e ritos das instituições foram mantidos e não aceitar o Lula como preso comum. Acredito que se ganhar o Nobel da Paz vai se tornar intolerável a prisão dele. Mas a esquerda não pode contar com o acaso.
Como vê a última pesquisa da Datafolha?
Não surpreende, porque a queda do Lula está vinculada à entrada do Joaquim Barbosa nas pesquisas pela primeira vez. O que mais me preocupa é a manutenção do Jair Bolsonaro como segundo colocado. A maior parte da grande mídia faz até campanha tímida contra ele e acha que ele vai se desgastar no processo eleitoral e vai desaparecer.
A entrevista é de Tatiana Merlino, publicada por CartaCapital e Caminho Político.

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