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terça-feira, 10 de abril de 2018

"Exortação ''Gaudete et exsultate'': o diabo versus a classe média da santidade. Artigo de Massimo Faggioli"

10_04_exortacao_foto_daniel_ibanez_cna.pngGaudete et exsultate é uma meditação sobre a santidade comum, da porta ao lado, e dá uma visão realista e desromantizada da vida dos santos. A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor de teologia e estudos religiosos da Villanova University, nos Estados Unidos. Segundo Faggioli, "universalismos de todos os tipos estão em crise – na Igreja e no mundo –, e a articulação de Francisco do chamado universal à santidade é, em parte, uma tentativa de enfrentar essa crise".
Eis o texto. O chamado à santidade é universal e é incompatível com o individualismo, o dogmatismo e o sectarismo, afirma Francisco na Gaudete et exsultate
O chamado à santidade é universal e é incompatível com o individualismo, o dogmatismo e o sectarismo. Esse é o coração da exortação Gaudete et exsultate, o quarto maior documento pontifício publicado desde que Francisco se tornou papa (sem contar a encíclica Lumen fidei de junho de 2013, amplamente escrita por Bento XVI antes de sua renúncia).
A nova exortação é também o texto magisterial mais importante da Igreja Católica sobre a santidade desde a Lumen gentium do Vaticano II, que insistiu no “chamado universal à santidade”. Gaudete et exsultate encoraja os fiéis a viverem na santidade cotidiana, em termos que expressam o cristianismo místico e não ascético de Francisco (a palavra “ascetismo” está ausente do documento).
A exortação consiste em 177 parágrafos divididos em cinco capítulos: um sobre o chamado à santidade, um sobre gnosticismo e o pelagianismo, um sobre a santidade e as Bem-aventuranças, um sobre os sinais de santidade no mundo de hoje, e um último capítulo sobre a luta espiritual, a vigilância e o discernimento.
Gaudete et exsultate é uma meditação sobre a santidade comum, da porta ao lado. Francisco toma emprestada a frase “classe média da santidade” do romancista francês Joseph Malegue (1876-1940), que foi descrito como “o Proust católico”. O papa se refere à “classe média” não no sentido de uma classe medíocre – “[Deus] quer-nos santos e espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, superficial e indecisa” (§ 1) – mas sim no sentido de estar disponível a todos: “Esta é muitas vezes a santidade ‘ao pé da porta’, daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus, ou – por outras palavras – da ‘classe média da santidade’” (§ 7).
Nem tudo o que um santo diz é plenamente fiel ao Evangelho, nem tudo o que faz é autêntico ou perfeito. O que devemos contemplar é o conjunto da sua vida, o seu caminho inteiro de santificação, aquela figura que reflete algo de Jesus Cristo.
Gaudete et exsultate dá uma visão realista e desromantizada da vida dos santos: “Nem tudo o que um santo diz é plenamente fiel ao Evangelho, nem tudo o que faz é autêntico ou perfeito. O que devemos contemplar é o conjunto da sua vida, o seu caminho inteiro de santificação, aquela figura que reflete algo de Jesus Cristo e que sobressai quando se consegue compor o sentido da totalidade da sua pessoa” (§ 22).
O segundo capítulo é sobre dois inimigos da santidade, o gnosticismo e o pelagianismo. A maioria dos católicos provavelmente nunca ouviu falar dessas duas heresias antigas, mas serão capazes de reconhecê-las em sua experiência de Igreja.
Esse capítulo se baseia em uma carta emitida pela Congregação para a Doutrina da Fé em fevereiro, Placuit deo. Ela também se fundamenta em um importante discurso que Francisco proferiu no quinto congresso da Igreja italiana em Florença, em novembro de 2015.
De acordo com o papa, o gnosticismo é um inimigo da santidade porque ele pressupõe “uma fé fechada no subjetivismo, onde apenas interessa uma determinada experiência ou uma série de raciocínios e conhecimentos que supostamente confortam e iluminam, mas, em última instância, a pessoa fica enclausurada na imanência da sua própria razão ou dos seus sentimentos” (§ 36).
Francisco coloca o intelectualismo contra a santidade: “Os gnósticos (…) julgam os outros segundo conseguem, ou não, compreender a profundidade de certas doutrinas” (§ 37).
O pelagianismo cria outro obstáculo para a santidade: “O poder que os gnósticos atribuíam à inteligência, alguns começaram a atribuí-lo à vontade humana, ao esforço pessoal. Surgiram, assim, os pelagianos e os semipelagianos. Já não era a inteligência que ocupava o lugar do mistério e da graça, mas a vontade” (§ 48).
Na Gaudete et exsultate Francisco esclarece a implacável crítica à rigidez, ao legalismo, ao clericalismo, ao elitismo, ao conservadorismo e ao tradicionalismo.
Esse capítulo é importante porque esclarece a implacável crítica de Francisco à rigidez, ao legalismo, ao clericalismo, ao elitismo, ao conservadorismo e ao tradicionalismo: “Ainda há cristãos que insistem em seguir outro caminho: o da justificação pelas suas próprias forças, o da adoração da vontade humana e da própria capacidade, que se traduz numa autocomplacência egocêntrica e elitista, desprovida do verdadeiro amor. Manifesta-se em muitas atitudes aparentemente diferentes entre si: a obsessão pela lei, o fascínio de exibir conquistas sociais e políticas, a ostentação no cuidado da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja, a vanglória ligada à gestão de assuntos práticos, a atração pelas dinâmicas de autoajuda e realização autorreferencial. (...) Muitas vezes, contra o impulso do Espírito, a vida da Igreja transforma-se numa peça de museu ou numa propriedade de poucos. Verifica-se isto quando alguns grupos cristãos dão excessiva importância à observância de certas normas próprias, costumes ou estilos” (§ 57–58).
Gnosticismo e pelagianismo são inimigos da santidade porque cada um mina a saúde da comunidade eclesial, concentrando-se na experiência privada ou no esforço individual.
O capítulo três sobre as Bem-aventuranças explora o equilíbrio entre as dimensões mística e ativa do cristianismo. De um lado, há “o erro dos cristãos que separam estas exigências do Evangelho do seu relacionamento pessoal com o Senhor, da união interior com Ele, da graça. Assim transforma-se o cristianismo numa espécie de ONG” (§ 100). Por outro lado, há “o erro das pessoas que vivem suspeitando do compromisso social dos outros, considerando-o algo de superficial, mundano, secularizado, imanentista, comunista, populista” (§ 101).
Ouve-se dizer que seria um tema marginal a situação dos migrantes. Alguns católicos afirmam que é um tema secundário em relação aos temas sérios da bioética. Que fale assim um político preocupado com os seus sucessos; mas não um cristão.
Isso é relevante para o engajamento da Igreja com as questões da “vida”, como Francisco deixa claro: “A defesa do inocente nascituro, por exemplo, deve ser clara, firme e apaixonada, porque neste caso está em jogo a dignidade da vida humana, sempre sagrada, e exige-o o amor por toda a pessoa, independentemente do seu desenvolvimento. Mas igualmente sagrada é a vida dos pobres que já nasceram e se debatem na miséria, no abandono, na exclusão, no tráfico de pessoas, na eutanásia encoberta de doentes e idosos privados de cuidados, nas novas formas de escravatura, e em todas as formas de descarte. (...) Muitas vezes ouve-se dizer que, face ao relativismo e aos limites do mundo atual, seria um tema marginal, por exemplo, a situação dos migrantes. Alguns católicos afirmam que é um tema secundário relativamente aos temas ‘sérios’ da bioética. Que fale assim um político preocupado com os seus sucessos, talvez se possa chegar a compreender; mas não um cristão” (§ 101-102). [...]
O capítulo quatro sobre os sinais da santidade no mundo de hoje lista expressões de amor a Deus e ao próximo: perseverança, paciência e mansidão; alegria e senso de humor; ousadia e paixão; envolvimento na comunidade; e oração constante. Francisco insiste na necessidade da santidade em todas as partes de nossas vidas, inclusive no ambiente online: “Pode acontecer também que os cristãos façam parte de redes de violência verbal através da internet e vários fóruns ou espaços de intercâmbio digital. Mesmo nos media católicos, é possível ultrapassar os limites, tolerando-se a difamação e a calúnia e parecendo excluir qualquer ética e respeito pela fama alheia. Gera-se, assim, um dualismo perigoso, porque, nestas redes, dizem-se coisas que não seriam toleráveis na vida pública e procura-se compensar as próprias insatisfações descarregando furiosamente os desejos de vingança. É impressionante como, às vezes, pretendendo defender outros mandamentos, se ignora completamente o oitavo: ‘Não levantar falsos testemunhos’ e destrói-se sem piedade a imagem alheia. Nisto se manifesta como a língua descontrolada ‘é um mundo de iniquidade; (…) e, inflamada pelo Inferno, incendeia o curso da nossa existência’ (Tg 3, 6)” (§ 115).
O capítulo mais marcante é o último, que aborda a luta espiritual, a vigilância e o discernimento. O diabo, que é mencionado 15 vezes na Gaudete et exsultate, recebe uma atenção especial nesse capítulo. Francisco escreve que o diabo é “mais do que um mito”: “Não admitiremos a existência do demônio, se nos obstinarmos a olhar a vida apenas com critérios empíricos e sem uma perspectiva sobrenatural” (§ 160).
Para lutar contra o diabo, precisamos de discernimento: “A vida cristã é uma luta permanente. Requer-se força e coragem para resistir às tentações do demônio e anunciar o Evangelho. Esta luta é magnífica, porque nos permite cantar vitória todas as vezes que o Senhor triunfa na nossa vida. (...) É também uma luta constante contra o demônio, que é o príncipe do mal” (§ 158-159).
O discernimento dos espíritos liberta-nos da rigidez, que não tem lugar no hoje perene do Ressuscitado. Somente o Espírito sabe penetrar nas dobras mais recônditas da realidade para que a novidade do Evangelho surja com outra luz
Francisco contrasta o discernimento com o legalismo: “É verdade que o discernimento espiritual não exclui as contribuições de sabedorias humanas, existenciais, psicológicas, sociológicas ou morais; mas transcende-as. Não bastam sequer as normas sábias da Igreja” (§ 170). O discernimento nos salva da complacência e nos impede de reduzir o Evangelho a uma longa lista de regras: “O discernimento dos espíritos liberta-nos da rigidez, que não tem lugar no ‘hoje’ perene do Ressuscitado. Somente o Espírito sabe penetrar nas dobras mais recônditas da realidade e ter em conta todas as suas nuances, para que a novidade do Evangelho surja com outra luz” (§ 173).
A partir do próprio subtítulo da exortação – “Chamado à santidade no mundo de hoje” – vemos que Francisco está desenvolvendo os temas das constituições conciliares Lumen gentium e Gaudium et spes, mas ele cita apenas um desses documentos (Lumen gentium), e somente três vezes. Em outras palavras, a Gaudete et exsultate não usa uma abordagem de texto-prova em relação ao magistério conciliar.
As fontes mais importantes da Gaudete et exsultate são a Evangelii gaudium e a carta Placuit deo da Congregação para a Doutrina da Fé. Notavelmente, Francisco frequentemente cita documentos recentes de conferências episcopais não europeias (Nova Zelândia, África Ocidental, Canadá, Índia e o Conselho Episcopal Latino-Americano).
Em contrapartida, a maioria das fontes não magisteriais são europeias (Hans Urs Von Balthasar, Carlo Maria Martini, SJ, o filósofo espanhol Xavier Zubiri, Santa Faustina Kowalska, São João da Cruz, Santa Teresa de Lisieux, Santa Teresa de Ávila, Santa Teresa de Calcutá, Charles de Foucauld).
Em um documento sobre santidade cotidiana, alguém poderia esperar mais exemplos das vidas dos santos leigos que viveram suas vidas no mundo secular. O curto parágrafo sobre a santidade e o “gênio feminino” mostra a fraqueza de Francisco na questão das mulheres na Igreja, embora reconheça “tantas mulheres desconhecidas ou esquecidas que sustentaram e transformaram, cada uma a seu modo, famílias e comunidades com a força do seu testemunho” (§ 12).
Para Francisco a santidade não diz respeito ao ascetismo heroico, mas sim a um equilíbrio sábio e às vezes difícil entre mística e fidelidade cotidiana; entre seguir normas e o discernimento; entre a devoção pessoal e o engajamento social
Como uma exortação aos fiéis, Gaudete et exsultate não é explicitamente ecumênica do mesmo modo que a Laudato si’, por exemplo, mas terá, no entanto, um amplo apelo junto a todas as pessoas religiosas. Sua concepção de santidade não diz respeito ao ascetismo heroico, mas sim a um equilíbrio sábio e às vezes difícil entre mística e fidelidade cotidiana; entre seguir normas e o discernimento; entre a devoção pessoal e o engajamento social.
Em um momento em que alguns estão dizendo aos cristãos para se separarem do mundo secular (por exemplo, a chamada “Opção Bento”), Gaudete et exsultate insiste que a santidade é possível em nossas circunstâncias comuns; não requer a criação de habitats especiais. Francisco nos chama a uma vida que rejeite o hedonismo e o consumismo, mas sem ceder ao apocalipticismo ou recuar para novas catacumbas.
Os católicos que têm um problema com a Amoris laetitia provavelmente também terão um problema com a Gaudete et exsultate. A Igreja não é apresentada aqui como uma ilha de graça para a pessoa conspicuamente santa cercada por um mar de pecado. Aqui a santidade é entendida em termos de comunidade: “Não há identidade plena, sem pertença a um povo. Por isso, ninguém se salva sozinho, como indivíduo isolado” (§ 6).
Francisco nos lembra de que a santidade é uma preocupação para todo membro da Igreja e de que ela nos chama a ir ao encontro, não a nos esconder. Universalismos de todos os tipos estão em crise – na Igreja e no mundo –, e a articulação de Francisco do chamado universal à santidade é, em parte, uma tentativa de enfrentar essa crise.
Nota de IHU On-Line: A íntegra do documento, em português, pode ser lida aqui.
Massimo Faggioli estará na Unisinos, campus Porto Alegre, participando do XVIII Simpósio Internacional IHU. A virada profética de Francisco. Possibilidades e limites para o futuro da Igreja no mundo contemporâneo, que ocorre de 21 a 24 de maio de 2018.
Na ocasião vai proferir as conferências O Papa Francisco na história papal do século passado e a periodização do seu pontificado e A universalidade e o (não)lugar político da Igreja no mundo de hoje, em 22 e 23 de maio, respectivamente.
O artigo foi publicado por Commonweal e Caminho Político. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

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