Lutando há mais de três décadas contra a instalação de hidrelétricas no rio Tapajós, no Pará, o povo Munduruku lança nesta terça, dia 24, o “Mapa da Vida – Tapajós e Sawre Muybu: a visão do povo Munduruku sobre seu rio e seu território”. Resultado de um grande processo de mapeamento territorial e cultural feito pelos próprios indígenas em 2016 e 2017 na Terra Indígena Sawre Muybu, a publicação retrata o modo de vida Munduruku, os lugares e os recursos da floresta fundamentais para a sobrevivência do povo.
O mapa foi lançado durante o Acampamento Terra Livre 2018, em um ato em frente ao Palácio da Justiça, em Brasília, onde os Munduruku exigiam a demarcação de sua Terra Indígena Sawre Muybu. Eles instalaram placas no gramado do Palácio e distribuíram o Mapa da Vida para a população nas ruas da região. Na sequência, ao entregarem a publicação ao Ministério da Justiça, cobraram uma posição do órgão sobre o processo de demarcação.
O “Mapa da Vida” foi realizado a partir da percepção dos Munduruku de que, para garantir a preservação de seu território e sua sobrevivência, é fundamental envolver a sociedade e mostrar a importância de sua cultura e dos recursos naturais da região. “Assim, o mapa se torna um poderoso instrumento de diálogo com a sociedade sobre a política energética nacional, que insiste em expandir a construção de hidrelétricas na Amazônia, afetando o modo de vida dos povos indígenas e populações tradicionais”, declara Danicley de Aguiar, especialista em Amazônia, do Greenpeace Brasil. Demandado pelos Munduruku, o Greenpeace apoiou a realização do mapeamento.
A demarcação da Terra Indígena Sawre Muybu, de cerca de 178 mil hectares, se arrasta há anos na burocracia estatal e atualmente está completamente paralisada. Ela garante o direito originário deste povo ao seu território tradicional, evitando que sua sobrevivência vá por água abaixo com a implantação de grandes projetos de infraestrutura, como a construção da usina hidrelétrica de São Luiz do Tapajós. “Vamos esperar de braços cruzados, sentados, a água encher para alagar nossas terras? Não, nós temos que lutar. O mapeamento é uma arma que temos para nos defender”, declara Bruno Kaba, Chefe dos Guerreiros do povo Munduruku.
Após anos de luta dos Munduruku, o governo arquivou, em 2016, o licenciamento da usina hidrelétrica de São Luiz do Tapajós. Apesar da vitória, eles acreditam que a não demarcação da terra indígena Sawré Muybu é um claro sinal de que o governo ainda não desistiu totalmente dos planos de construção de hidrelétricas na região. Atualmente, há cerca de 40 hidrelétricas planejadas ou em construção para a bacia do rio Tapajós. “Nós não estamos fazendo caminho em terra alheia, não estamos invadindo a terra de outros. Nós estamos fazendo o nosso caminho", afirma Juarez Saw, cacique da aldeia Sawre Muybu.
Jéssika Oliveira/CP
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