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domingo, 20 de maio de 2018

"Opinião: "Fahrenheit 451 nos tempos das redes sociais", por Marcelo Molnar"

Fahrenheit 451 é um romance distópico, escrito por Ray Bradbury, em 1953. A história apresenta um futuro onde todos os livros são proibidos, opiniões próprias são consideradas antissociais e hedonistas, e o pensamento crítico é suprimido. O personagem central, Guy Montag, trabalha como "bombeiro" (o que na história significa "queimador de livro"). O número 451 é a temperatura (em graus Fahrenheit) da queima do papel, que equivale a 233 graus Celsius. Ao longo dos anos, o romance foi submetido a várias interpretações e Bradbury declarou que Fahrenheit 451 não tratava de censura, mas de como a televisão destruía o interesse pela leitura.
Impossível não fazer um paralelo com as campanhas atuais contra as redes sociais. Da mesma forma que a televisão, na sua época, mudou o comportamento das famílias, das pessoas e da sociedade, a internet e as redes sociais são as bolas da vez. Lembro do tempo que culpavam a TV pelo fim do relacionamento familiar. As pessoas não conversavam mais entre si e ficavam todas fixas, olhando para a telinha, recebendo informações desnecessárias, acompanhando a vida de pessoas desconhecidas, e rindo de piadas sem graça. Sem contar que, ainda hoje, acredita-se que o uso excessivo da televisão é responsável por várias doenças, como: Distúrbio do déficit de atenção sem hiperatividade, Transtorno do déficit de atenção com hiperatividade, Alzheimer, puberdade precoce nas meninas, miopia, os dois tipos de diabetes, distúrbios do sono, câncer, depressão, entre muitas outras. Tudo isso depois de quase um século de existência.
Hoje acreditamos que as redes sociais são tão ou mais perigosas. Alguns estudos demonstram risco para os adolescentes que passam mais de duas horas por dia mergulhados neste ambiente, apresentando índices mais altos de ansiedade, depressão e pensamentos suicidas. Funcionários são demitidos por exageros na internet. O ciúme provocado pelos contatos na rede está destruindo relacionamentos. Um comentário publicado em momento de ânimos acalorados ou por simples “brincadeira” pode te levar ao tribunal. Assim como a “ostentação” em sites de relacionamentos pode complicar sua declaração de imposto de renda. A polarização e radicalização política destrói as amizades. Os pacientes acreditam saber mais do que os médicos. Tudo isso sem contar no enorme problema provocado pelas famosas “Fake News” que contribuem para a desinformação geral da população.
Quando foi escrito, Fahrenheit bem que podia projetar os dias atuais. Descrevia uma sociedade perdendo o controle. Recheada de ilegalidade nas ruas, com jovens quebrando vitrine das lojas apenas para demonstrar seu descontentamento. Motoristas alcoolizados colocando outras pessoas em risco. A polícia igualmente questionada como os bandidos. Alguns poucos com privilégios e aparentemente acima de qualquer lei. E a solução encontrada, apesar de absurda, foi queimar os livros. Qualquer um que fosse pego lendo livros seria, no mínimo, confinado em um hospício. Apesar de tudo, o romance é encerrado com leve tom otimista com uma nova sociedade nascendo de suas cinzas, mas com destino ainda desconhecido. Nesse novo mundo, as pessoas que liam livros de forma oculta começam a revelar-se, explicando a todos os demais que essa era apenas uma boa forma para se adquirir conhecimento e transformar a vida de todos de forma positiva.
Será que só existe este caminho? Construirmos cenários trágicos, com narrativas absurdas, para anular o que nos incomoda? Realmente não acredito nisso. Há de existir alternativas. Nos acostumamos nos últimos anos a dizer que o futuro não pode ser previsto devido a velocidade das mudanças. Porém ao invés de prever, vamos construí-lo. Estou convencido que não temos de “queimar” as redes sociais, ou de forma mais radical, tirá-las da nossa vida, assim como nós não acabamos com a televisão. Temos que aprender rapidamente a lidar com o novo. Do contrário ficaremos ancorados nos problemas decorrentes da utilização dos carros autônomos, da inteligência artificial, da internet das coisas, da quarta revolução industrial, da economia colaborativa, do uso dos telefones celulares e de como a comunicação entre pessoas e organizações mais fluída e interconectada altera a sociedade. Afinal, como diz um velho ditado: “A idade da pedra não acabou por falta de pedras!”
Sobre o autor: Marcelo Molnar é formado em Química Industrial, pela Faculdade Oswaldo Cruz, com pós graduação em Marketing e Publicidade, pela ESPM. Experiência de 18 anos no mercado da Tecnologia da Informação, atuando nas áreas comercial e marketing. Diretor de conteúdo em diversos projetos de transferência de conhecimento na área da publicidade. Consultor Estratégico de Marketing e Comunicação da BrasilConsult, Viscoplan, HAC, SDGroup e Nexial. Trabalhou como analista de Pesquisas de Mercado com institutos como Meta Group, Gartner Group, IDG e CVA, desenvolvendo projetos para o Bradesco, Itaú, Telefônica, Banco Santander, Banco Toyota, UOL, Pão de Açúcar, Editora Abril, Janssen entre outros. Ex-Vice-Presidente da Sart Dreamaker. Criador do processo ICHM (Índice de Conexão Humana das Marcas) para mensuração do valor das marcas a partir de sua relação emocional com seus consumidores. Sócio Fundador da Todo Ouvidos, empresa especializada em pesquisa e monitoramento de redes sociais. Sócio Diretor do grupo Boxnet (Maxpress, Boxnet e Todo Ouvidos).

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