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quarta-feira, 11 de julho de 2018

"Papa Francisco telefona para Gianni Vattimo, o filósofo do ''pensamento fraco''

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O estudioso italiano enviou uma cópia de seu último livro a Francisco, que telefonou para agradecer-lhe. Uma conversa breve e agradável sobre a Igreja e a filosofia: “Com esse papa, não me envergonho de dizer que sou católico”. Uma conversa espontânea, breve, mas agradável. Assim foi o bate-papo entre o Papa Francisco e Gianni Vattimo, que ocorreu há alguns dias por telefone. O pontífice quis agradecer ao filósofo italiano, ex-político de esquerda e “pai” do chamado pensamento fraco, por um livro que lhe foi presenteado por um amigo em comum. “Esse papa me tira a ‘vergonha’ de me declarar católico”, diz o estudioso ao Vatican Insider, contando alguns detalhes da conversa com o papa, com quem ele também compartilha o ano de nascimento (1936).
“O fato de ele ter encontrado tempo para me telefonar tem um grande significado. Estou comovido e emocionado com isso, o que posso fazer...”, diz Vattimo. “O papa é sempre o papa, e, como sou fiel e acredito acima de tudo na Igreja, é claro que o fato de ter falado com ele me tocou profundamente.”
Quem serviu de elo para essa comunicação particular foi o argentino Luis Liberman, fundador e diretor geral da Cátedra de Diálogo e da Cultura do Encontro, que passou primeiro por Turim e depois pela Casa Santa Marta, no Vaticano. Vattimo aproveitou a oportunidade para enviar ao pontífice o seu trabalho mais recente: assim, uma cópia de Essere e dintorni (Ser e arredores, em tradução livre: Editora Nave di Teseo, 2018, 425pp) chegou às mãos de Bergoglio.
Francisco “pegou-o, folheou-o, falou a respeito com Luis, que me telefonou enquanto estava sentado ao lado dele e me passou-o ao telefone. Trocamos algumas palavras. Ele me disse que me agradecia pelo livro, eu tentei explicar que é um livro de filosofia sobre Heidegger. Estou muito feliz por ter despertado o interesse do papa”, conta o filósofo.
E ele ainda se diz mais convencido de que a teologia católica precisa de uma renovação. Ele já havia proposto, quase em termos controversos, o pensamento do filósofo alemão para guiar essa mudança, particularmente pelas suas críticas à metafísica. Essa crítica, diz, poderia ser útil hoje à teologia católica nos tempos de Francisco.
“Eu disse justamente isso ao telefone para o papa. Mas não sei se ele está convencido disso ou não. Ele estava bastante interessado, mas, naturalmente, é um interesse relativo que um papa pode ter por esse tipo de coisas, tendo muitos outros pensamentos na cabeça. Eu não acho que ainda haverá uma mudança na teologia católica”, explica o professor, lúcido e ágil, apesar de seus 82 anos e dos evidentes achaques da idade.Já retirado da vida pública e intelectual, o livro Essere e dintorni quer ser uma espécie de contribuição final. “Não sei se ele é perfeito, mas é a melhor contribuição que eu posso dar agora, considerando as minhas forças”, diz. No texto, Vattimo – ele mesmo ressalta – incita a “lutar para que a humanidade sobreviva ao poder nivelador da tecnologia e do capitalismo”.
Apesar de seu passado de convicta militância comunista e do seu compromisso com a liderança nacional pela “Coordenação Homossexual” na Itália, o estudioso assegura que nunca deixou de ser católico. Mesmo quando jornalistas e observadores o transformaram em um ícone agnóstico.
Mas Vattimo nunca se esqueceu do seu tempo na Juventude Estudantil da Ação Católica e da sua infância no oratório. Também não nega sua adesão no Partido Radical, aos Democratas de Esquerda e à Italia dei Valori, com a qual foi eleito deputado em 2009, sempre reivindicando sua filiação comunista.
Essa fase, no entanto, passou: o filósofo diz que se sente hoje mais católico do que nunca, porque, especifica, identifica-se no “catolicismo de Francisco”. Em vez disso, no passado, admite, ele não declarava abertamente sua filiação religiosa, porque a sentia “como um peso”. Agora está “contente” por pertencer à Igreja.
“De Francisco, tocam-me o seu modo de se apresentar ao mundo, as suas novidades, como o fato de me chamar ao telefone, por exemplo... Ele é um papa novo, sem faltar com o respeito para com aqueles que o antecederam. Eu sempre digo que ele é um papa que me tira a ‘vergonha’ de me declarar católico, onde se declarar católico é um problema. Às vezes me perguntam: ‘Mas como você pode crer em certas coisas?’. Com esse papa, eu não tenho nenhum constrangimento em dizer que acredito.”
“Eu espero – conclui Gianni Vattimo – que as coisas que ele está fazendo possam deixar um sinal importante na Igreja. O problema é que a Igreja não é só o papa. Eu tenho que admitir que não vejo uma grande transformação na Igreja em geral. Parece-me que ainda há uma grande inércia, uma espécie de preguiça no grande corpo da Igreja, que requer tempo para ser transformada. O papa precisa avançar ainda mais. Parece-me que ele é um pouco lento em ditar as novidades. Mas ele é o papa, e eu sou um simples fiel ‘periférico’.”
A reportagem é de Andrés Beltramo Álvarez, publicada em Vatican Insider e Caminho Político. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

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