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domingo, 9 de setembro de 2018

"Opinião: "Vai ter sim jornalismo voltado a periferias, população negra, mulheres e público LGBTQI", por Patrícia Paixão"

De tempos em tempos aparece alguém questionando o jornalismo que é voltado a um público específico. Os críticos argumentam que o conteúdo especializado e segmentado não é de interesse de toda a sociedade; que atende apenas a um público e não propriamente o “interesse público”. O fato é que diante da força que grupos historicamente alijados têm ganhado hoje, com a internet, e das falhas na cobertura da nossa grande imprensa, ainda muito voltada às demandas daqueles que sempre foram privilegiados nesse país, o jornalismo focado em determinados setores da população tem se mostrado fundamental. É notória a fragilidade dos textos que os grandes jornais produzem sobre as regiões periféricas do país, por exemplo. Comumente a periferia é notícia quando o assunto é violência. As ricas e múltiplas iniciativas culturais que acontecem nessas áreas costumam ser ignoradas. A forte repressão policial aos moradores de comunidades, comumente taxados como “bandidos”, também é pouco noticiada.
Muitos problemas também são observados no que se refere à cobertura de assuntos que envolvem à população negra. Conforme destaca o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Muniz Sodré, no livro “Claros e Escuros – Identidade, Povo e Mídia e Cotas no Brasil”, vemos uma cobertura midiática que reproduz o racismo estrutural e institucional que existe em nosso país. O racismo raramente é abordado na grande mídia como um projeto de séculos da elite brasileira, que continua oferecendo privilégios aos brancos em detrimento dos negros. Pelo contrário. Costuma ser retratado como algo anacrônico, superado em termos históricos. Só se transforma em notícia quando algum cidadão comete um ato de preconceito ou discriminação, como se isso fosse um ponto fora da curva. Além disso, a própria cobertura da grande imprensa muitas vezes é racista. Estereótipos sobre a população negra não raro são reforçados e dificilmente personalidades negras que deram grande contribuição ao país, nas mais diversas áreas, são destacadas nos textos jornalísticos. Isso sem contar o baixo número de profissionais negros nas nossas redações.
No que se refere às questões de diversidade sexual e gênero, ainda encontramos textos que usam o artigo "o" para se referir às travestis, por exemplo. Faltam reportagens sobre a quase ausência de políticas públicas para a população LGBTQI e sobre como o preconceito tem vitimado fatalmente essa população. E como se esquecer da recente reportagem da Folha de S.Paulo sobre o assassinato da policial militar Juliane dos Santos Duarte? Com o título, “PM Juliane teve últimos momentos livres com bebida, beijos e dança”, o texto, publicado no último dia 9 de agosto, narra os últimos momentos da PM sexualizando-a. Juliane é apontada como uma pessoa promíscua, que teve momentos de algazarra antes da morte. Afora a total falta de respeito pelo ser humano Juliane, a matéria é um prato cheio para reforçar preconceito e estereótipos sobre a população LGBTQI.
E os títulos e enfoques machistas que vemos em diferentes textos dos veículos tradicionais? Existem revistas “femininas” cujas capas trazem manchetes e chamadas nas quais oferece-se, quase sempre, um manual sobre como a mulher deve agir para manter seu parceiro.
Por que tantos problemas na cobertura da grande imprensa?
Além da falta de vontade de se debruçar sobre as demandas de públicos que há séculos são prejudicados (não vamos nos esquecer à que classe, cor e gênero pertencem os donos da mídia no Brasil), vale destacar que muitas vezes os textos são produzidos por pessoas que não vivem a realidade desses públicos. Não possuem lugar de voz para falar sobre o tema e não se esforçam para fazer entrevistas com fontes que têm o respaldo para falar. Claro que há honrosas exceções, mas é difícil encontrarmos acertos.
Portanto, veículos especializados como a Ponte Jornalismo (focada na cobertura de direitos humanos e justiça nas periferias do país), o Alma Preta (voltado às demandas da população negra) e a revista AzMina (veículo que defende as pautas feministas) são muito importantes.
E não. Eles não deixam de atender o interesse público ao fazerem uma cobertura especializada. Afinal, a quem interessa uma sociedade injustiça, racista, homofóbica e machista? A ninguém, não é mesmo? Pelo menos não deveria interessar, não em um ambiente sadio. O jornalismo é uma profissão de natureza social, tem a obrigação de lutar por uma sociedade mais justa e igualitária, onde todos realmente tenham as mesmas oportunidades e sejam tratados da mesma forma. Além disso, temos a obrigação de noticiar de forma correta, sem reproduzir preconceitos e estereótipos.
Que os estudantes de jornalismo possam se encantar com essas iniciativas e lançar suas próprias experiências. Sou grande entusiasta do jornalismo especializado em coberturas voltadas a setores historicamente prejudicados. Ele tem um potencial enorme para conscientizar as pessoas e ajudar a transformar esse país.
Patrícia Paixão é jornalista e professora do curso de Jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, da Universidade Anhembi Morumbi e da Universidade São Judas Tadeu. É organizadora dos livros "Jornalismo Policial: Histórias de Quem Faz" (In House, 2010) e "Mestres da Reportagem" (In House, 2012). Também é responsável pelo blog Formando Focas.

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