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quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

"Brasil já desmatou "duas Alemanhas" de Floresta Amazônica"

Área desmatada na AmazôniaDados são monitorados pelo Inpe há 30 anos. Inicialmente, sistema media se desmatamento na Amazônia ocorria conforme os planos do regime militar. Com o tempo, pressão internacional e tecnologia levaram a maior controle. Numa região do Maranhão onde a Floresta Amazônica começa a dominar a paisagem, uma área de mata nativa acaba de ser destruída. O solo – agora exposto – aparece na tela de um dos computadores da equipe que monitora o desmatamento da maior floresta tropical do mundo, espalhada por nove estados brasileiros.
O dano ambiental é revelado nas imagens de satélite capturadas no dia anterior, interpretadas por profissionais que estão a mais de 2 mil quilômetros da mata recém-cortada. O trabalho de análise minucioso é feito em São José dos Campos, interior de São Paulo, de onde o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) acompanha há 30 anos a taxa anual de desmatamento da Amazônia.
Infográfico mostra área total de floresta desmatada na Amazônia por estado até 2018"De imediato, o sistema de monitoramento não parece correr riscos", responde Claudio Almeida, coordenador do programa no Inpe, quando questionado sobre as perspectivas para o governo do presidente eleito Jair Bolsonaro. Anualmente, 2,2 milhões de reais são repassados ao Inpe para custear os projetos que monitoram a degradação florestal no país.
Bolsonaro já deu provas de que temas ambientais terão pouco espaço na agenda. Um exemplo recente é a desistência do Brasil de sediar a Conferência do Clima da ONU, decisão influenciada pelo governo de transição, como admitiu o presidente eleito.
O sistema de monitoramento do Inpe revelou que o Brasil já desmatou um total de 783 mil quilômetros quadrados de Floresta Amazônica – área que equivale a mais de duas vezes o território da Alemanha. Desse total, 436 mil quilômetros quadrados foram desmatados após 1988, quando o Inpe passou a monitorar a floresta anualmente.
Em 2018, a taxa de desmatamento da Amazônia foi a mais alta da última década: 7,9 mil quilômetros quadrados, dos quais cerca de 95% correspondem a cortes ilegais.
A história da vigilância por satélites começou às avessas. No fim dos anos 1970, o governo militar queria fiscalizar se a floresta estava sendo destruída como o programado: havia incentivo para substituir a vegetação por fazendas, e o Inpe foi convidado a criar uma forma de verificar se as árvores nativas estavam dando lugar a pastos.
Anos mais tarde, o cenário mudou. "O país passou a sofrer uma grande pressão internacional por conta dos investimentos que estavam acabando com a Amazônia", contextualiza Dalton de Morisson Valeriano, pesquisador que ajudou a implementar o monitoramento.
Foi então que o país passou a medir as taxas anualmente. Em 1988, as imagens registradas por um satélite americano chegavam ao Inpe impressas em papel. Eram necessárias 229 fotos, cada uma com cerca de 90 cm x 120 cm, para analisar toda a Amazônia.A técnica era artesanal: pesquisadores passavam anos debruçados sobre as fotos, circulando os pontos identificados como desmatamento para, depois, estimar o tamanho da área atingida. O relatório referente a 1988 só foi divulgado três anos mais tarde.
"Tivemos que lidar com todas essas limitações e vencer a desconfiança internacional", pontua Thelma Krug, uma das criadoras do sistema e atual vice-presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). "Temos hoje um programa consolidado. Governo nenhum ousaria mais duvidar dos dados", afirma.
Atualmente, dados de três satélites são usados pelos pesquisadores: Landsat8, dos Estados Unidos; Liss3, da Índia; e Cbers4, resultado de uma parceria entre Brasil e China. Desde 2003, o trabalho foi digitalizado, e dois programas monitoram a Amazônia simultaneamente. O Prodes calcula as taxas anuais de desmatamento, e o Deter B, que "enxerga" a floresta com melhor resolução, aponta onde o corte está sendo realizado no momento em que ele acontece.
Monitoramento em tempo real
O avanço da ciência permitiu mudanças na fiscalização. "De início, equipes iam a campo de carro e faziam percursos nas estradas tentando identificar visualmente o desmatamento", diz Jair Schmitt, diretor do Departamento de Florestas e de Combate ao Desmatamento do Ministério do Meio Ambiente.
Três décadas depois, fiscais acompanham em tempo real – de Brasília – os alertas detectados pelo sistema do Inpe. "Observamos as áreas que estão em evolução e mandamos uma equipe para evitar que a floresta caia", detalha Renê Luis de Oliveira, coordenador de fiscalização do Instituto Brasileiros do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
Os desmatadores também se adaptaram à evolução do sistema. O corte de árvores em grande escala foi substituído por áreas menores para dificultar que os satélites consigam "enxergá-los".
"Antes, trabalhávamos com seis áreas mais críticas, agora são 13. O desmatamento está mais pulverizado e em novos locais", diz Oliveira. "A gente precisa de mais equipes para combater por meio da fiscalização", adiciona.
No cenário político, o principal impacto do sistema surtiu efeito a partir de 2004. Foi o ano em que o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm) entrou em vigor e as taxas começaram a cair.
"Quando se olha para o histórico, reduzimos em 72% o desmatamento da Amazônia. A fiscalização foi instrumento para induzir essa redução", afirma Schmitt.
Nos últimos quatro anos, por outro lado, os números voltaram a subir. Além da fiscalização, Schmitt acredita na força do mercado para barrar essa tendência.
"Vemos o mercado rejeitando cada vez mais produtos que vêm de áreas de desmatamento, forçando a legalidade. Também precisamos trabalhar mais em incentivos econômicos para quem conserva e punições severas para quem desmata", opina.
Além da Amazônia, o sistema agora se estende até o Cerrado – até o fim do ano, o Inpe deve divulgar a taxa de desmatamento desse bioma. O plano é monitorar todo o território brasileiro até 2020, segundo Schmitt.
De olho nas análises em tempo real feitas por sua equipe, Cláudio Almeida demonstra preocupação com o que os satélites mostram. "Ainda não estamos vendo uma queda", comenta sobre os dados observados na Floresta Amazônica que farão parte das próximas estatísticas.
Nádia Pontes (de São José dos Campos)Caminho Político

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