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segunda-feira, 28 de outubro de 2019

“O Sínodo foi um passo, mas as discriminações não foram erradicadas”. Entrevista com Marinella Perroni"

A abertura dos bispos aos padres casados e o pedido de um ministério feminino ad hoc, o de “dirigente de comunidade”, são “passos” enormes. Mas, depois deste Sínodo, a Igreja não deve parar, mas sim continuar no caminho que leva à eliminação das discriminações – “ainda muito presentes” – contra as mulheres. Palavra de Marinella Perroni, biblista, fundadora da Coordenação de Teólogas Italianas.
Nota de IHU On-Line: O documento final do Sínodo para a Amazônia pode ser lido, em espanhol, aqui.
Eis a entrevista.
Os bispos se abrem aos padres casados: qual a sua opinião?
Os tempos da Igreja são sempre muito lentos. Ainda no Concílio Vaticano II essa reivindicação havia sido apresentada, e isso significa que está na vivência real da Igreja há muito tempo. Paulo VI a bloqueou, ele não estava pronto, mas, talvez, nem a Igreja estivesse pronta. Agora, uma petição semelhante passa por maioria de votos em um Sínodo local, mas ao qual foi reconhecido um peso considerável. Foram dados passos à frente.
Quais?
Podemos dizer isso com um pouco de ironia: se foram necessários mais de 1.100 anos para que, como diz o Segundo Concílio Lateranense (1139), a ordenação sacerdotal se tornasse definitivamente um impedimento ao matrimônio, também podemos aceitar que seja necessário mais de um século para o matrimônio não seja mais um impedimento à ordenação!
Sem celibato, podem diminuir os abusos e os desvios dos padres?
É claro que os desvios, mas não só os sexuais, também os ligados à comida ou ao dinheiro, são sempre expressão de um estado de desidentificação e de frustração. Eu, no entanto, nunca aceitei a equação segundo a qual os desvios sexuais dependeriam do estado celibatário. Testemunha disso são os abusos familiares ou o turismo sexual, que vê homens casados na linha de frente. Eventualmente, eu consideraria mais oportuno pensar na relação entre masculinidade e abusos. Sem, por isso, querer fazer das mulheres uma reserva humana de inocência, mas relacionando a questão dos abusos e dos desvios também com a das diferentes formas de poder.
O Papa Francisco anunciou que irá convocar novamente a “Comissão sobre o Diaconato das Mulheres”: qual a sua opinião?
Parece-me que o papa disse que outras/os estudiosas/os também farão parte dela. Se os bispos pediram isso, certamente significa que a exigência de que as mulheres na Igreja Católica assumam ministérios hierárquicos nasce a partir de baixo. Fiquei impressionada que, no documento final, no parágrafo dedicado ao serviço eclesial das mulheres, repete-se várias vezes o termo “liderazgo” (liderança). Na minha opinião, seria necessário ir na direção de que não se trata de instituir um diaconato feminino, porque o diaconato na Igreja é um só, e a questão autêntica é se ele pode ou até deve ser exercido também por mulheres.
O que a senhora acha da ordenação feminina?
As coisas são complexas de acordo com qual ordenação se trata. No documento final, postula-se que seja revista o motu proprio de Paulo VI, Ministeria quaedam, de 1972, que praticamente excluiu as mulheres de qualquer ordenação, e que elas possam ser ordenadas ao Leitorado e ao Acolitado, ou seja, a dois ministérios considerados menores, mas mesmo assim recebidos por ordenação. O pedido também foi feito em outros Sínodos e recusado. Agora foi aprovado por maioria. Confirma-se, assim, que a passagem dolorosa está precisamente na palavra “ordenação”, porque, de fato, as mulheres são leitoras e acólitas, e até muito mais, decisivamente, há muito tempo.
Qual é a novidade?
Será “instituído” um novo ministério ad hoc para as mulheres, o de “mulher dirigente de comunidade”, e isso significa reconhecer uma realidade de fato, mas, mais uma vez, à luz, senão de uma discriminação, de uma tendência ao apartheid: as lideranças de comunidade não deveriam ser homens e mulheres?
Essas aberturas representam bem as mudanças que estão ocorrendo dentro e ao redor da Igreja?
Dentro, talvez. Fora, um pouco menos. A história do mundo hoje certamente corre muito mais rápido do que a história da Igreja.
Quais são os seus pensamentos quando lê os fechamentos da galáxia tradicionalista sobre essas questões?
Todo mundo tem o direito de falar. Mas falar não significa necessariamente ter razão.
Agora, que medidas a Igreja deverá tomar?
O papa encerrou o seu discurso final desejando um caminho de sinodalidade para a Igreja. Talvez, quando os Sínodos voltarem a ser como no passado, Sínodos de Igrejas, e não de bispos, as mulheres também poderão decidir.
A reportagem é de Domenico Agasso Jr., publicada por La Stampa e Caminho Político. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

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