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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

"CPMI das Fake News: depoente diz que houve uso não autorizado de dados pessoais nas eleições de 2018"

Parlamentares destacaram "inconsistências" em alguns trechos da fala de Hans River do Nascimento, ex-funcionário da Yacows, empresa acusada de fraude eleitoral.O ex-funcionário da empresa de marketing digital Yacows Hans River do Nascimento afirmou que as ações desse tipo de estratégia de comunicação utilizadas nas eleições de 2018 incluíam o uso não autorizado de dados pessoais. Ele prestou depoimento nesta terça-feira (11) à Comissão Parlamentar Mista de inquérito (CPMI) das Fake News. A Yacows é uma das empresas acusadas de operar disparos em massa em favor de campanhas políticas durante as eleições de 2018. Hans River trabalhou na corporação durante aquele ano e depois iniciou um processo trabalhista contra ela, reivindicando o pagamento de salários e horas-extras.
Segundo explicou a parlamentares, ele foi contratado pela Yacows para fazer marketing comercial por meio do WhatsApp, mas logo de início os representantes da empresa orientavam os funcionários a trabalharem, também, com material político. Vários candidatos e partidos, acrescentou o depoente, usavam os serviços, inclusive fora do período eleitoral.
De acordo com Hans River, para enviar as mensagens em massa, a empresa mantinha um cadastro de nomes e CPFs, lista que era usada para registrar chips de celular. Ele afirmou não saber como esses dados eram obtidos, mas disse acreditar que os indivíduos listados não haviam concedido autorização para esse uso.

Os chips, após serem testados, eram instalados em celulares e sincronizados a contas de WhatsApp criadas para enviar mensagens de propaganda. Hans River ressaltou que cada CPF pode cadastrar mais de um chip, dependendo da operadora, o que multiplica o tamanho do cadastro.
Conforme o relato, os funcionários da empresa então recebiam dos seus supervisores o material a ser enviado em massa por meio das novas contas de WhatsApp. Nos casos dos conteúdos políticos, as mensagens consistiam apenas em versões digitais dos “santinhos” dos candidatos, com nome e número de campanha, segundo Hans River. Cada operador comandava uma estação com computador e cerca de cinco celulares, e trabalhava por oito horas diárias.
Os problemas trabalhistas do ex-funcionário têm relação com atraso em pagamentos. Segundo o depoente, os operadores eram incentivados a trabalhar além do horário padrão, e alguns chegavam a dormir nas dependências da empresa.
“Todo mundo estava iludido com o desejo de ter um salário alto. Combinavam com todos os funcionários de fazer hora-extra pagando o dobro. Era conveniente”, comentou.
Hans River não soube precisar o número de funcionários na companhia, mas explicou que havia três equipes que se revezavam em turnos, e que o grupo do seu turno — o da madrugada — continha cerca de 500 pessoas. O depoente também disse não saber a origem dos celulares e chips usados nas atividades da empresa.
Ele citou duas pessoas que se identificavam como responsáveis pela Yacows: Lindolfo Antônio Alves Neto e Flávia Alves. A CPI Mista das Fake News já havia aprovado a convocação desses dois nomes, mas o depoimento ainda não foi agendado.
Hans River contou que seu processo trabalhista foi resolvido em um acordo proposto pela Yacows. No dia da lavra do acordo, conforme o ex-funcionário, estavam presentes advogados de outras empresas de marketing digital, algumas das quais já estão no radar da CPMI, como a AM4 e a Kiplix. Perguntado se haveria relação entre as empresas, River não soube explicar.
Conflitos
Em um trecho de seu depoimento, Hans River afirmou que a Yacows possuía uma “forte ligação” com o PT, e que a empresa teria recebido uma soma de dinheiro logo após a prisão do ex-presidente Lula, em abril de 2018, para intensificar o envio de mensagens em favor do partido.
O deputado Rui Falcão (PT-SP), autor do requerimento de convocação de River, classificou a declaração como inverídica e disse que o partido não tinha contrato com a empresa. Ele também acusou River de “tergiversar” e de agir para “acobertar” as práticas criminosas da Yacows que ele inicialmente denunciou.
O senador Humberto Costa (PT-PE) afirmou enxergar uma contradição no depoimento de River: no seu processo trabalhista, a data de admissão na Yacows é no mês de agosto, o que significa que o operador de mensagens não estaria trabalhando na empresa na época da prisão de Lula. River respondeu que a empresa não agia corretamente no registro dos seus funcionários.
Os deputados Túlio Gadêlha (PDT-PE) e Natália Bonavides (PT-RN) também destacaram inconsistências no depoimento. Eles cogitaram que River poderia estar sendo ameaçado ou coagido a mentir para a CPMI.
Gadêlha quis saber quem seria responsável pelo pagamento do advogado que acompanhou River na audiência. O depoente afirmou que estava custeando os serviços do próprio bolso, mesmo enfrentando dificuldades financeiras por fazê-lo.
Requerimento aprovado
A CPI Mista das Fake News vai receber o congressista britânico Damian Collins para falar sobre investigação parlamentar que ele conduziu no Reino Unido. A data ainda será confirmada.

A relatora da CPMI, deputada Lídice da Mata (PSB-BA), fez o anúncio hoje. O convite havia sido feito em requerimento aprovado pela comissão em setembro.

Collins é membro da House of Commons (o equivalente à Câmara dos Deputados) desde 2010. Entre 2017 e 2019, ele comandou uma investigação parlamentar sobre o uso de campanhas virtuais no processo do referendo do Brexit, por meio do qual o Reino Unido iniciou o seu desligamento da União Europeia. O relatório final das atividades acusou grandes empresas de mídia, como o Facebook, de contribuir para a violação de dados pessoais de seus usuários.
“Vai ser muito importante para a nossa CPMI conhecer com mais detalhes a primeira experiência internacional de investigação a respeito do fenômeno das fake news”, frisou Lídice.
Da Redação/Caminho Político
Com informações da Agência Senado

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