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segunda-feira, 23 de março de 2020

"A primeira guerra realmente mundial"

"De fato, é o inimigo que é mundial, é o vírus que faz do mundo inteiro uma única população atacada e indefesa, toda ameaçada pela mesma cremação, os mortos de toda a Terra queimados no fogo que é a vala comum. E esperamos que em breve chegue o dia em que seus nomes serão gravados nas colunas de mármore dos Monumentos aos Caídos", escreve Francesco Merlo, jornalista, em artigo publicado por La Repubblica e Caminho Político. A tradução é de Luisa Rabolini. Eis o artigo.: Mais uma vez, vendo os caixões carregados em caminhões militares em direção à cremação sem enterro civil, todos nos perguntamos se essa seria realmente "a terceira guerra mundial", que é a mais usada pelas metáforas. E vou logo dizendo que, talvez, seja a primeira vez do mundo inteiro em guerra, ninguém excluído, a primeira guerra realmente mundial. Melhor que global, que remete a mercadorias, finanças e comunicação, apenas a palavra mundial contém também o vento e o mar de Salinas, Bali e da Ilha de Páscoa, os locais mais inocentes de contágio. De fato, é o inimigo que é mundial, é o vírus que faz do mundo inteiro uma única população atacada e indefesa, toda ameaçada pela mesma cremação, os mortos de toda a Terra queimados no fogo que é a vala comum. E esperamos que em breve chegue o dia em que seus nomes serão gravados nas colunas de mármore dos Monumentos aos Caídos.
Essa guerra não admite mais a escolha neutra que Espanha, Portugal e Suíça fizeram. E, de fato, os assintomáticos, que não mostram os sinais da ameaça, não são os "Nem-Nem" do passado, mas são as reservas da Covid 19. E a guerra não poupa territórios como aconteceu não apenas nos Estados Unidos, mas também nas repúblicas da Ásia Central, Afeganistão e em parte do Irã. O vírus não tem centros, nem cidades-capitais nem fortalezas que possam ser expugnadas ou bombardeadas, não busca alianças, não admite rendições que não sejam incondicionais, é mortal no blitzkrieg e é estratégico na guerra a longo prazo, não negocia e sabe esperar.
E ataca a solidariedade, que é a força das horas mais sombrias, feitas de contatos físicos, de mãos que se buscam no escuro. Carinhos e abraços são o último recurso dos fracos, na guerra e na doença, que agora são a mesma coisa. Aninhar-se um no outro para ter coragem sob as bombas era instinto e razão, me contava a minha sogra, que tinha 14 anos quando, em Londres, viu a bomba cair sobre a sua casa um minuto depois que ela tinha saído. Ela se refugiou entre as pernas de seu pai, que imediatamente a pegou no colo.
Na outra noite, fui ao aeroporto de Fiumicino para buscar meu filho de 17 anos que estava voltando da Inglaterra e não o abracei. Eu "denunciei" seu retorno à autoridade sanitária, lavei sua roupa com a fúria de quem a queima, como se realmente houvesse um infiltrado. E preferimos evitar seu contato com o resto da família. Estou na casa de campo com ele e sua mãe fica com os outros, que ainda estão trabalhando em Roma. A guerra, como sempre, desmembra as famílias, mas desta vez porque deixa os irmãos desconfiados sobre os irmãos.
E, como em todas as primeiras vezes da história, o passado ensina, mas ao mesmo tempo confunde: não vale de nada reforçar os exércitos, porque os guerreiros do mundo são agora os médicos, com muitos heróis e muito poucos desertores que, no entanto, não são fuzilados, mesmo que não se apresentar-se nos hospitais equivalha a não honrar o chamado às armas. A guerra é tão nova que as Emergências e a Cruz Vermelha são trincheiras de linha de frente e não mais na retaguarda.
Mas é idêntico o recurso aos reservistas, que hoje são médicos aposentados, e o recrutamento dos mais jovens, isto é, dos recém-formados, que são a nova geração perdida, os garotos de 1899 de quem falava Hemingway e esperamos que chegue em breve a grande literatura desta guerra, os novos Scott Fitzgerald e Steinbeck, mas também Ungaretti ("Estamos como no outono as folhas nas árvores"), Emilio Lussu com seu "Um anno sull’altipiano" e o belíssimo "Giorni di guerra" de Giovanni Comisso.
Mesmo na infinita literatura da Segunda Guerra Mundial, não há o estigma da pandemia e, portanto, não são mais suficientes Primo Levi e Italo Calvino. As novidades não podem ser reduzidas a déjà vu e o Gattopardo é fascinante, mas nega o futuro. Por exemplo, é grotesca a imagem daqueles cidadãos dos EUA que compram armas temendo que o vírus desencadeie as costumeiras violências sociais e não as novas pneumonias. São reflexos condicionados que têm o mesmo gosto ácido da agressividade de Trump, que chama o vírus de "chinês": denunciam o desejo de um inimigo já conhecido, a necessidade de um curso que também seja um recurso.
Do mesmo modo, a limitação da mobilidade não é a retirada de uma cota de democracia, o retorno do perigo fascista, não se refere à liberdade de pensamento nem de trabalho, muito menos de informação. É uma autodisciplina de guerra, um exercício de responsabilidade, o mínimo que pode ser feito contra o contágio que nos ameaça. Entendo que o posto de controle evoque lembranças ruins, Berlim Oriental, o Chile e a Guerra Fria.
Mas a história ensina, principalmente, porque nos mostra que não pode se esperar o retorno do igual. No conceito de guerra, por exemplo, a dor não pode mais ser quantificada apenas em números. Em 22 de agosto de 1914, os franceses perderam 24.000 homens em poucas horas. Os balanços das previsões são terríveis. A Itália, que foi a primeira frente ocidental, já tem mais mortes que a China.
Não vivemos, como a China, em um país de controle social.
Os direitos individuais são fundamentais em nossa cultura. Somos católicos também porque não sacrificamos indivíduos pela multidão, não abandonamos os idosos à lei do mais forte e nossos enfermeiros são caridosos além de competentes. Mas essa guerra conspurca também a caridade, que pode facilmente se tornar uma arma do inimigo. Tenho um colega que leva comida para a mãe de noventa anos sem nunca se aproximar dela.
Ela lhe falou muito bem de seu amado enfermeiro, cheio de compaixão, que, sem máscara, troca seu curativo em uma ferida feia e infectada. O que fazer?
É verdade que nós italianos somos desordenados, com uma fraca identidade coletiva. É óbvio que seria mais fácil se barricar na China e não apenas porque existe um regime que manda e pronto, mas porque a história cultural é diferente e aqui os sabe-tudo citariam Matteo Ricci, Spinoza e Hegel. Para simplificar, nós somos aquelas do mercado negro que, de fato, voltou a florescer, e não apenas para as máscaras e o álcool, mas também para a especulações que já fez aumentar o preço do trigo, o alimento-refúgio dos italianos.
E visto que estamos em guerra e que no universo do campos de concentração das nossas casas apenas a televisão entra sem contaminar, seria bom que, deixando como estão as informações e seus programas de entrevistas, a Rai lançasse a TV do conforto, com a mesma paixão com a qual Marilyn foi para a Coreia e Bob Hope para o Vietnã: filmes, esportes, shows para este momento, o melhor que retorna ao ar todos os dias, a simplicidade como antídoto para a complexidade, o jogo contra o perigo, o relaxamento contra a tensão e a ansiedade de uma guerra que é a primeira realmente mundial.
La Repubblica e Caminho Político

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