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quarta-feira, 15 de abril de 2020

CORONAVÍRUS: "Achei que fosse bobeira esse negócio de isolamento"

Teste para covid-19Morador de cidade paulista conta que, após perder o irmão em decorrência da covid-19, entendeu a gravidade da doença e agora tenta desmentir boatos. Vítima tinha 39 anos e foi tratada com cloroquina. Desde que enterrou o irmão mais velho, morto em decorrência da covid-19, Antônio* vem tentando desmentir boatos nas redes sociais sobre as circunstâncias da morte do familiar. A vítima tinha 39 anos e ficou internada 16 dias até falecer no último domingo (12/04) em São José dos Campos, no interior de São Paulo. "Inventam que ele já estava gravemente doente e pegou a covid-19 no hospital. Dizem que meu irmão foi para a China, pegou lá a doença e espalhou aqui", contou Antônio por telefone à DW Brasil.
Segundo a prefeitura da cidade, o exame que confirmou o óbito por covid-19, a doença respiratória causada pelo novo coronavírus, o Sars-Cov-2, foi feito por um laboratório privado credenciado pelo Ministério da Saúde.
Antônio diz não entender por que as pessoas inventam tantas mentiras na internet. "Dói muito no meu coração. A nossa mãe está arrasada. As pessoas falam muita besteira sem saber. Nunca passei por isso na minha vida", desabafa.
Segundo ele, a vítima apresentou sintomas de gripe no fim de março. Atendida num hospital da rede privada, foi medicada, considerada como caso suspeito de covid-19 e mandada de volta para casa. Dias depois, o quadro de saúde da vítima, que era hipertensa, piorou. A equipe médica informou aos familiares que usou cloroquina no tratamento.
"Eu mesmo perguntei para os médicos sobre a cloroquina, se estava sendo usada. Eles disseram que sim, que foi usada por sete dias. No meu irmão, não fez efeito nenhum", diz Antônio, que acompanhava diariamente os boletins médicos e atuou como mediador da família.
A substância é defendida pelo presidente Jair Bolsonaro para o tratamento da covid-19. Usada contra a malária, a cloroquina tem efeitos colaterais fortes, e ainda não há comprovação científica de seu efeito benéfico contra o novo coronavírus.
Natália Pasternak, microbiologista e presidente do Instituto Questão de Ciência, alerta para o risco cardíaco que a cloroquina e a hidroxicloroquina, também defendida por Bolsonaro, representam.
"Podem causar arritmias, mais ainda quando associadas à azitromicina", comenta Pasternak, em concordância com posicionamentos de várias associações médicas internacionais, como a Canadian Medical Association e a American Heart Association.
"Recentemente, um trabalho em preprint [artigo científico ainda não revisado por pares e não publicado em periódico científico] da Fiocruz e do Instituto de Medicina Tropical de Manaus alertou para efeitos colaterais cardíacos em testes clínicos que compararam doses diferentes de cloroquina", adverte a pesquisadora.
Isolamento e contágio
O estado de São Paulo, epicentro da pandemia no Brasil desde a chegada do novo coronavírus ao país, alcançou um recorde nesta terça-feira (14/04). Em 24 horas, 87 pacientes morreram de covid-19, totalizando 695 óbitos. Mais de 2 mil pessoas estão internadas em hospitais paulistas.
Em todo o Brasil, há 1.532 mortes e 25.262 mil infectados confirmados. A fila de exames que aguardam resultados é longa: são mais de 120 mil no país, segundo dados do Ministério da Saúde.
De acordo com o monitoramento do governo paulista, a taxa de isolamento social, medida recomendada para impedir o avanço da doença, é de 59% no estado. A meta, segundo o governador João Dória, é chegar a 70% da população.
Em São José dos Campos, onde o irmão de Antônio faleceu, 61% da população têm ficado em casa para evitar a disseminação do vírus. Antônio admite que estava fora dessa estatística inicialmente.
"Eu mesmo achei que fosse bobeira esse negócio de isolamento. Não estava nem aí. Quando meu irmão voltou para o hospital e ficou internado, eu fiquei preocupado e entendi que a doença pega mesmo qualquer pessoa", conta.
Ele foi o último a ver o irmão vivo. "Minha visita à UTI foi autorizada, eu tive que me vestir igual a um astronauta e vi meu irmão, que ainda estava respirando", relembra.
Os familiares se despediram de um caixão lacrado, sem velório, num cortejo rápido até o túmulo no cemitério.
"Meu irmão era jovem, feliz, cheio de sonhos, casado há menos de dois anos. Nós estamos arrasados", diz Antônio.
Nádia Pontes (de São José dos Campos)Caminho Político
Edição: Régis Oliveira
*A pedido do entrevistado e em respeito ao luto da família, a DW Brasil usou um nome fictício.

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