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quarta-feira, 22 de abril de 2020

"Covídico: a nova era da humanidade"

A sociedade pré-covídica era uma sociedade aberta, iludida de progredir rumo a um futuro de sacrossantas liberdades individuais, ainda inconsciente do fato de que a chamada privacidade seria despedaçada em nome do controle sanitário. Eis o artigo.: Comecemos por uma das raras certezas que possuímos: estamos vivendo a dramática Fase 1, à qual se seguirá uma nebulosa Fase 2 e, dali em diante, seguem-se os números em progressão. Até aqui, todos de acordo.O certo é que, por matemática linearidade, tudo o que nos precede acaba retornando a uma Fase Zero (na qual o vírus estreava na China) e ainda antes a infinitas fases com sinal negativo.
Vejam que miserável final teve a nossa antiga normalidade, degradada a uma escala negativa, subitamente muito distante, quase pré-histórica, cristalizada em um “mundo que foi e não é mais”.
Gostaria de refletir precisamente sobre isso hoje: por uma vez, abandonemos a gula espasmódica de projeções futuras e tentemos nos voltar para trás, para aquilo que deixamos às nossas costas.
Dizem-nos que amanhã nada será como antes, e é evidente que isso não modificará apenas os nossos esquemas e ritos existenciais, mas também influenciará radicalmente a percepção de como éramos até dois meses atrás. Ainda não foi cunhado um adjetivo que defina esse mundo sepultado, razão pela qual eu o proponho, apaixonado desde sempre por neologismos... o pré-covídico. Já vejo o verbete nos dicionários de 2050:
PRECOVIDICO – adjetivo qualificativo, derivado de Pré + Covid, também chamado de “anteviral”, indica todo aquele sistema de valores e de costumes que caracterizava a humanidade até a devastadora disseminação da pandemia em 2020.
Tentemos, então, usar imediatamente essa cunhagem lexical, iluminando com nova luz a era que acaba de se pôr. Apenas para começar, como será definida daqui a 10 anos a sociedade pré-covídica?
Eu levanto uma hipótese: “Tratava-se de uma sociedade aberta, iludida de progredir rumo a um futuro de sacrossantas liberdades individuais, ainda inconsciente do fato de que a chamada privacidade, em vez disso, seria despedaçada em nome do controle sanitário. A sociedade pré-covídica se horrorizaria com a ideia de que cada um fosse rastreado nos movimentos, espionado nos contatos, vigiado pelos drones. Filha de um profundo senso de onipotência moral e tecnológica, a humanidade pré-covídica de 2020 foi repentinamente forçada a contrair e a circunscrever os termos de toda liberdade pessoal como vetor de um risco coletivo”.
Arrisquemos um passo a mais, com um olhar para a sala dos botões: “Sob o nome de política pré-covídica, inclui-se o conjunto das ideologias (e, com elas, das anti-ideologias, opostas a elas, mas conaturais a elas) que regularam a vida pública no Ocidente industrializado entre os séculos XX e XXI, e que viram no trauma do vírus a definitiva conclusão de siglas, modelos, líderes e linguagens ligados à herança do último pós-guerra”.
No front do mercado e das altas finanças: “Define-se como economia pré-covídica a forma de capitalismo inescrupuloso que – embora atingido pelas crises financeiras, antes das hipotecas subprime e depois das dívidas soberanas – continuava impondo aos mercados globais o diktat de uma hiperprodutividade a qualquer custo, absolutizando um décimo do PIB como um crisma divino. Drasticamente dilacerada pelos confinamentos mundiais, a economia pré-covídica saiu reconfigurada e, em vários aspectos, subvertida sobretudo no colapso dos velhos parâmetros (os ratings, os spreads), pelos quais era até aquele momento absolutizada”.
E para quem quiser uma análise mais focada no espectro interior: “A profunda incidência do vírus sobre a psicologia torna necessário identificar em uma chamada emotividade pré-covídica o estado de predominante agorafobia que atingia milhares de pessoas antes de fevereiro de 2020. As pessoas se inquietavam com as intermináveis possibilidades de se mover e interagir em um mundo em que se deslocar era algo evidente, e a ansiedade se multiplicava na abundância dispersiva de contatos afetivos e laborais. Tudo mudou com a brusca e inesperada virada que, em pouco tempo, inibiu deslocamentos, relacionamentos e a própria partilha dos postos de trabalho, convertendo o desconforto em claustrofobia e pânico da solidão forçada”.
Depois disso, já que estamos nisto, por que ignorar os sentimentos? “Uma relação pré-covídica – tanto de amizade quanto de amor – se fundamentava em premissas totalmente diferentes das posteriores ao vírus: estavam quase totalmente ausentes as precauções com o estranho, as cautelas em dirigir a palavra a quem ainda não representava uma incógnita biológica. Em geral, define-se como pré-covídica uma abordagem instintiva, livre e até imprudente, que imediatamente converte uma afinidade em contato físico, independentemente dos gigantescos danos da intimidade desregulada”.
Mas, no fundo, essa é uma característica que eu imagino que é substancial para toda conjugação do mundo pré-covídico, focado como era na ausência de diafragmas, no despudor da fisicidade. Pensem nas famosas imagens de Papeete, no verão de 2019: na época, nós nos assombrávamos que o titular do Viminale [palácio do primeiro-ministro italiano] dançava a poucos centímetros de uma dançarina, cercado por uma multidão de biquíni e bermuda, mas hoje a foto parece criminosa além dos títulos e dos cargos, pelo mero fato de retratar um congresso de carnes humanas. Por isso, meu temor é de que todas essas ocasiões de perigosa proximidade tornadas inéditas pelo nefasto hóspede em circulação acabem sob o rótulo de “pré-covídicas”.
Pré-covidica será a cultura de partilhar algo lado a lado, seja um espetáculo, um show, um rito religioso ou até um comício. E, talvez, em geral, em sentido metafórico, será pré-covídica a ilusão de poder fazer algo com simplicidade, sem se registrar com um aplicativo, sem se munir de formulários, sem entrar na fila, sem cobrir o rosto e as mãos com tecido e látex.
Indo rumo a um amanhã complicado, cheio de cautelas e de pesadas bolas nos pés, é provável que o pre-covídico será o ansiado tempo em que as coisas podiam ser feitas espontaneamente, irresponsavelmente, com aquela mistura de improvisação e descuido que, até anteontem, encarnava os mais autênticos relances da nossa vida. Ponto final e novo parágrafo.
A opinião é de Stefano Massini, escritor e dramaturgo italiano consultor do Pequeno Teatro de Milão, em artigo publicado por La Repubblica e Caminho Político. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Edição: Régis Oliveira. Foto: Ilustração.

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