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quinta-feira, 23 de setembro de 2021

CPI DA PANDEMIA: Diretor da Prevent nega que empresa tenha ocultado mortes por covid

Pedro Benedito Batista Júnior diz que dossiê entregue por ex-funcionários foi forjado, mas confirma que operadora orientou médicos a modificarem o código de diagnóstico de pacientes com covid-19 após dias de internação. A CPI da Pandemia ouviu nesta quarta-feira (22/09) o depoimento do diretor-executivo da operadora de saúde Prevent Senior, Pedro Benedito Batista Júnior, que passa à condição de investigado.
A empresa é suspeita de ocultar mortes de pacientes com covid-19 em estudo realizado para testar medicamentos do chamado "tratamento precoce", sem eficácia e segurança comprovadas cientificamente. Os pacientes e os familiares não teriam sido informados sobre a participação no estudo.
A comissão também investiga a empresa sobre uma possível pressão para que médicos conveniados à operadora prescrevessem remédios do "kit covid", como a hidroxicloroquina.
Além disso, senadores disseram que ouviram de usuários da operadora relatos de assédio para que aceitassem o tratamento precoce, que até hoje é amplamente defendido pelo governo Jair Bolsonaro, na contramão do resto do mundo.
Diante do depoimento de Batista, o relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL) anunciou durante a sessão que alterou a condição do depoente de testemunha para investigado.
Dossiê aponta ocultação de mortes
Funcionários da Prevent encaminharam à CPI um dossiê segundo o qual a empresa teria ocultado mortes por covid-19 e impedido o uso de equipamento de proteção individual (EPI). O objetivo seria facilitar a disseminação do coronavírus em ambiente hospitalar e iniciar um protocolo de testes para tratamento da doença.
À CPI, Batista criticou o documento, que, segundo ele, foi elaborado com base em notícias veiculadas na imprensa e demanda parlamentar. De acordo com o depoente, mensagens e planilhas de acompanhamento de pacientes foram manipuladas pelos ex-médicos da Prevent Senior George Joppert Netto e André Fernandes Joppert, desligados da empresa em julho de 2020.
Batista alegou ainda que uma análise de provas pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) comprovou a inexistência de infração por parte da Prevent.
O diretor da Prevent Senior negou que tenha havido "testagem em massa", mas admitiu a realização de um "estudo observacional". Segundo ele, nenhum médico foi "incitado" a receitar hidroxicloroquina e cada profissional teve autonomia junto ao paciente.
"Quando foram feitos estudos, sim, todos os pacientes receberam o 'termo de livre esclarecido'", garantiu.
Questionado pelo relator sobre o descrédito do estudo pela comunidade internacional, Batista respondeu que a pesquisa não foi publicada por ter sido apenas "a observação" de 630 pacientes. Entre os pacientes acima de 80 anos, a taxa de óbito foi de 29%, segundo o depoente.
Batista confirmou que a operadora de saúde orientou médicos a modificarem o código de diagnóstico dos pacientes que deram entrada com covid-19 nos hospitais da rede, após algumas semanas de internação.
Durante a sessão no Senado, foi exibida uma mensagem atribuída a um diretor da empresa que determinava a mudança e afirmava que era necessário padronizar o código para todos os pacientes com suspeita ou confirmação de covid-19.
A mensagem dizia que, após 14 dias do início dos sintomas em pacientes nas enfermarias, ou 21 dias no caso de pacientes com passagem por UTIs, o código deveria ser modificado para qualquer outro que não fosse o de covid-19.
Batista justificou a mudança de código afirmando que esses pacientes não representavam mais riscos às demais pessoas nos hospitais.
Os senadores consideraram a atitude criminosa e fraudulenta, culminando na omissão da causa da morte de pessoas que haviam sido anteriormente diagnosticadas com covid-19.
Mortes não notificadas
De acordo com reportagem exclusiva da emissora GloboNews, nove participantes do estudo teriam morrido de covid-19, mas apenas dois óbitos foram relatados.
Ainda de acordo com a GloboNews, a Prevent Senior teria omitido do atestado de óbito que a causa da morte do médico defensor do tratamento precoce Anthony Wong, em janeiro, foi covid-19. O mesmo teria ocorrido com a certidão de óbito de Regina Hang, mãe do empresário bolsonarista Luciano Hang, que morreu em fevereiro após complicações da doença no hospital Sancta Maggiore, da Prevent Senior, em São Paulo. Ambos foram tratados com medicamentos do "kit covid".
Durante a sessão da CPI, foi exibido um vídeo no qual Luciano Hang diz que a mãe poderia ter sobrevivido se tivesse feito o "tratamento precoce". Renan Calheiros classificou o comportamento do empresário como "macabro" e "repugnante".
"Há uma farsa que será desmascarada aqui. Vamos provar que ele pediu: 'Escondam que minha mãe foi tratada com cloroquina, para não desmerecer a eficácia'. Ele a levou para ser tratada no hospital com cloroquina, e a Prevent Senior ocultou isso", disse o relator da CPI.
Já o senador Otto Alencar (PSD-BA) chamou Hang de "filho desalmado" por usar a morte da mãe para promover o "tratamento precoce".
O depoente, por sua vez, reiterou que não comentaria casos de pacientes, alegando sigilo médico. Sobre a morte do médico Anthony Wong, Batista se recusou a responder a uma série de perguntas, justificando que a autonomia médica precisa ser preservada.
Mas Renan apresentou um áudio de uma conversa telefônica com trocas de ameaças entre Batista e um ex-médico da Prevent Senior que denunciou que a empresa teria escondido que a morte de Wong tinha sido por covid-19.
Batista negou, ainda, que o estudo da Prevent Senior sobre o uso de cloroquina por pacientes tenha sido revisado para corrigir "inconsistências". No entanto, Renan reproduziu durante a sessão um áudio em que um diretor da empresa, o cardiologista Rodrigo Esper, determina a revisão dos dados.
O áudio foi gravado depois que Bolsonaro citou o estudo em uma rede social. Segundo o presidente, nenhum dos 412 pacientes da empresa que tomaram cloroquina morreu por covid-19. No áudio, porém, Esper faz referência à postagem de Bolsonaro e diz que é necessário "ajustar os parafusos".
Procura por cloroquina após falas de Bolsonaro
À CPI, Batista disse que, após declarações de Bolsonaro e de outras pessoas influentes, pacientes contaminados com o coronavírus começaram a exigir serem tratados com cloroquina.
Senadores afirmaram que Batista mentiu ao dizer que médicos ligados à Prevent Senior não receitaram tratamento precoce sem diagnóstico adequado. O senador Rogério Carvalho (PT-SE) relatou que teve acesso a receitas que comprovam a mentira.
O diretor da operadora afirmou que a Prevent tratou cerca de 18 mil pacientes com covid-19, mas disse não saber informar o número de mortes, o que gerou críticas de senadores.
Ao contrário de denúncias, Batista também disse que nenhum médico foi constrangido por não prescrever "tratamento precoce".
"Médicos foram excluídos da empresa por falhas graves éticas e morais, como invasão de prontuários e tratamento inadequado de pacientes", justificou.
Durante a sessão, foi exibido um vídeo em que um suposto representante da Prevent Senior afirma que, após assinatura do contrato com a empresa, os clientes recebiam o "kit covid".
No vídeo, o representante esclarece que a Prevent queria evitar que o cliente adoecesse, porque isso geraria custos. Assim, enviava aos clientes o kit com ivermectina, cloroquina e outros medicamentos.
À CPI, Batista negou a informação. "Eram enviadas as medicações prescritas pelos médicos aos pacientes, nunca houve kit anticovid", afirmou.
Contrapondo Batista, Renan afirmou que a CPI tem provas de que os kits foram, sim, enviados.
Financiamento do estudo
Batista não respondeu se os laboratórios Vitamedic e Aspen patrocinaram estudos realizados pela Prevent Senior com a ivermectina e a hidroxicloriquina.
O relator perguntou ainda se a Prevent Senior teve participação no "aumento vertiginoso de faturamento" dos dois laboratórios durante a pandemia. Batista disse não poder responder, uma vez que não avaliou o balanço das duas empresas.
Renan lembrou que a Prevent Senior comprou 32 mil comprimidos de ivermectina da Vitamedic em 2020 e quase 28 mil entre janeiro e setembro de 2021. No caso da hidroxicloriquina, a empresa adquiriu 600 mil cápsulas diretamente da Aspen durante a pandemia.
le (Agência Senado, ots)cp
@caminhopolitico @cpweb

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