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sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Agricultores atingidos por barragens usam energia solar para irrigar hortas agroecológicas

Programa beneficia 240 famílias com placas fotovoltaicas que alimentam sistema de irrigação automatizado; produção agroecológica gera alimento, renda e reflorestamento; represamentos das hidrelétricas afetam os rios e matam os peixes. Um dos últimos projetos financiados pelo Fundo Amazônia viabilizou a instalação de placas fotovoltaicas para 240 famílias em território amazônico, nos estados do Mato Grosso, Pará, Rondônia e Tocantins. As placas solares foram dimensionadas para produzir a energia que alimenta o sistema de irrigação de hortas batizada como Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (Pais).
“Essa conquista começou com uma demanda antiga de famílias que foram prejudicadas pela construção de barragens”, conta Rogério Paulo Hohn, da coordenação nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), que há trinta anos busca proteger as comunidades da violência e dos passivos sociais e ambientais de empreendimentos como os das hidrelétricas.
“Como muitas dessas obras foram financiadas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), apresentamos uma pauta junto ao banco questionando a liberação de crédito prioritariamente para grandes empresas, com poucas iniciativas para as populações atingidas”, afirma Hohn. Os executivos do BNDES apontaram o caminho do Fundo Amazônia, também gerido pelo banco.
O MAB então formatou o projeto Uso de tecnologias sociais para redução do desmatamento, aprovado em 2017 e implementado pela Associação de Desenvolvimento Agrícola Interestadual (Adai), com recursos do Fundo Amazônia. Além da produção de energia fotovoltaica para a irrigação das hortas, a ação promoveu a capacitação técnica das famílias para a produção agroecológica e para a comercialização do excedente da produção.
Um dos beneficiados é o agricultor Daniel Schlindwein, que pela segunda vez precisou se mudar por causa de uma hidrelétrica. Ele e a família moravam em Cascavel (PR), quando tiveram de sair para dar lugar ao lago da usina hidrelétrica de Itaipu, na década de 70. Em Sinop (MT) ele conseguiu se estabilizar em 1997 em um assentamento da reforma agrária. Dos 38 mil hectares do assentamento, 6 mil foram requisitados para a Usina Hidrelétrica de Teles Pires.
“Com o discurso de que ‘é necessário produzir energia’ eles desconsideram a população”, diz Daniel. “Essa é uma região rica na produção de grãos, como soja, milho, girassol. Pelo valor de mercado estima-se que um hectare na região valha entre 500 e 1.000 sacos de soja, ou seja, a partir de R$ 75 mil por hectare.” Segundo o agricultor, eles receberam a oferta de R$ 3.900,00 por hectare.
“Tivemos cinco dias para decidir e, se não aceitássemos, o pagamento seria feito em juízo e teríamos que resolver na justiça”. Outra indignação é com o estrago que o represamento das águas provoca na ciclo da vida natural. “Mataram o rio, o represamento quebra o ciclo de reprodução, então não tem mais peixes”.
COM ENERGIA ELÉTRICA CARA, MUITOS NÃO CONSEGUEM PAGAR AS CONTAS
O projeto apresentado pelo MAB surgiu como uma pequena compensação para a perda de território e indenização irreal, além de fornecer uma energia limpa e confiável. O assentamento em Sinop já contava com energia pelo Luz para Todos desde meados dos anos 2000, mas o programa com as placas fotovoltaicas trouxe ganhos para o dia a dia de trinta famílias da região. “Ele é pequeno, inteligente, abastece uma caixa de 5 mil litros diariamente”, explica Daniel. “As bombas são programadas, ligam e desligam automaticamente, e a irrigação é bem montada, muito bem pensada”.
No caso das 60 famílias beneficiadas em Marabá (PA), a questão energética era mais premente. “O Pará é um grande produtor de energia, mas isso não quer dizer que seja uma energia acessível e de qualidade”, explica Gizely Sousa Moura, coordenadora do MAB na região. “A gente vai para a zona rural e vê essa contradição”. Com a energia elétrica cara, muitos não conseguem pagar as contas. E ainda há instabilidade no fornecimento: “É comum ficar até seis dias sem energia. As placas solares surgiram como solução para as famílias terem como irrigar regularmente”.
Dados prévios levantados para o projeto revelam a dimensão do fornecimento: 86,67% contam com acesso à energia elétrica pelo Sistema Interligado Nacional (SIN); 65,38% usam energia só domesticamente e 31,25% em casa e na produção. Mas as interrupções no fornecimento de energia acontecem de uma a três vezes por semana, com restabelecimento demorando de uma a dez horas.
ASSISTÊNCIA TÉCNICA GARANTE PRODUÇÃO AGROECOLÓGICA
Além da instalação do sistema de irrigação, as famílias receberam formação e capacitação técnica para a produção agroecológica de subsistência e venda do excedente, aliada ao trabalho de conscientização ambiental para a redução dos índices de desmatamento e plantio de árvores nativas. Segundo o relatório da Adai, mais de 70% dos atendidos afirmaram que não recebiam orientação técnica em suas propriedades antes do início do projeto; 29,17% delas tinham acesso a esse serviço, na maioria das vezes de forma insuficiente, por meio de órgãos públicos, como secretarias de abastecimento, ou por instituições privadas.
Gizely Moura ressalta que o suporte técnico abrangeu o manejo e as formas de produção dentro dos lotes dos atendidos como um todo, não só nas hortas. “As orientações incluíram o reflorestamento, a importância do replantio e de manter árvores perto dos leitos d’água, já que alguns agricultores estavam em áreas muito degradadas”. Ela conta que alguns se assustaram no início com a desconstrução de práticas antigas. “Falavam ‘mas eu nunca fiz assim’, já que plantavam conforme faziam os pais, os avós”. A assistência técnica melhorou o processo, incluindo análise e recuperação do solo.
Por outro lado, o manejo agroecológico foi assimilado com facilidade. “Dá para produzir sem agrotóxicos, como no tempo da vovó, e a vantagem é muito grande; a gente come sem medo”, diz Daniel Schlindwein. Para ele, esse tipo de manejo tem suas dificuldades e alguns efeitos não são tão rápidos quanto os da agricultura tradicional, com insumos industrializados. “Mas vale para a vida, para a saúde. Se evitar um câncer, olha só o ganho!” Gizely traz o testemunho das mulheres que consideram a produção agroecológica melhor para a qualidade de vida. “Outro dia uma me falou que fica menos doente, até gripou menos”.
As hortas receberam uma cobertura que permite a produção durante o ano todo de alimentos de verão ou inverno. “Isso foi essencial nesse período de pandemia, porque permitiu às famílias se alimentarem adequadamente e venderem o excedente nas feiras ou na porta de casa”, conta Gizely. “É a agricultura familiar que coloca comida na mesa das pessoas”.
CONSTRUÇÃO DE GRANDES OBRAS DESCONSIDERA COMUNIDADES
O projeto Uso de tecnologias sociais para redução do desmatamento começou em 2017 e se estendeu até o início de 2021. “É um programa piloto que deveria ter continuidade”, conta Rogério Hohn, do MAB. “Mas, com o corte do Fundo Amazônia pelo governo Bolsonaro, ficou limitado a essas famílias atendidas”. As avaliações iniciais indicam que praticamente todas as famílias contam com uma produção diversificada e não dependem de uma única cultura para sua subsistência e renda. E apontam o potencial de beneficiamento da produção já existente, com destaque para frutas, derivados animais e comercialização de hortaliças. Obstáculos: a extensão da assistência técnica, crédito, infraestrutura de beneficiamento, condições das estradas e elaboração de planos de desenvolvimento local.
De qualquer forma, o projeto somou mais um exemplo de como o modelo energético atual pode ser questionado a partir da proposta do uso de fontes alternativas e não geridas por grandes empresas. “A gente faz a denúncia, mas o que propõe no lugar?”, diz Hohn. “Esses projetos chegam como anúncio”.
Para Gizely, os grandes projetos financiados na região olham para o que a Amazônia pode dar de retorno financeiro. A ameaça está nas hidrelétricas, nas hidrovias, na mineração. “Só veem o lado econômico, o que podem tirar, e não o que podem fazer para melhorar a vida das famílias que vivem no local”, diz ela. “É preciso dar condições das pessoas permanecerem na terra”.
— Aqui nós somos, existimos. Quando tiram uma família de seu lote, estão tirando a vida dessas pessoas. Porque elas são levadas para a cidade de qualquer jeito, são jogadas nas periferias, e quando é alguém do campo, sofre muito mais. No campo, elas plantam, colhem e sobrevivem do que fazem.
Nanci Pittelkow/Caminho Político
@caminhopolitico @cpweb

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