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quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Aventura de El Salvador com o Bitcoin esbarra no FMI

País quer empréstimo para pagar suas dívidas, mas fundo pede mudança em política sobre criptomoeda. Governo já registra perda de um quarto do valor de suas reservas de Bitcoin, e presidente redobra sua aposta. Em setembro passado, o Congresso de El Salvador aprovou uma lei que tornou o Bitcoin, uma das principais criptomoedas em circulação, uma moeda corrente do país – a primeira nação do mundo a fazer isso.
Com isso, o Bitcoin passou a ser permitido para qualquer tipo de transação, inclusive para pagar impostos e receber remessas de salvadorenhos que moram no exterior. Todas as empresas, quando possível, também ficaram obrigadas a aceitar o bitcoin como pagamento.
Quando adotou a medida, o governo criou um aplicativo de carteira digital chamado Chivo e deu 30 dólares em Bitcoin a todos os cidadãos. O presidente Nayib Bukele argumentou que a iniciativa tinha o objetivo de impulsionar o desenvolvimento econômico, mas o país se dividiu sobre o tema.
A adoção oficial do Bitcoin também ameaça dar prejuízo ao Tesouro de El Salvador, e dificultar o recebimento de um empréstimo do Fundo Monetário Internacional (FMI) para ajudar o pequeno país da América Central a pagar sua dívida externa.
Prejuízos ao Tesouro
O governo salvadorenho comprou desde setembro, em lotes diferentes, 1.801 unidades de Bitcoins usando reservas do Tesouro salvadorenho. Mas a aposta até o momento se mostrou um mau negócio, devido às flutuações constantes da criptomoeda.
O país gastou, no total, 88,4 milhões de dólares para comprar esse volume de Bitcoins, que neste final de semana valiam 65 milhões de dólares, uma perda de mais de um quarto do valor. O Bitcoin vale hoje 37 mil dólares, após ter alcançado um pico de 68 mil dólares em novembro.
Bukele, porém, está redobrando sua aposta e disse, em janeiro, que espera que a unidade de Bitcoin atinja o valor de 100 mil dólares ainda neste ano.
Em novembro passado, ele anunciou ainda um plano para construir uma "cidade de Bitcoin", erguida por meio da emissão de dívidas lastradas em Bitcoin, na qual seus moradores e empresas pagariam apenas imposto sobre valor agregado e obteriam energia geotérmica de um vulcão próximo.
El Salvador não é um país com reservas sobrando para experimentos. O país está em dificuldades para pagar suas dívidas e busca um empréstimo de 1,3 bilhão de dólares do FMI.
Críticas do Fundo Monetário Internacional
O conselho diretor FMI, que costuma fazer exigências aos países que pedem socorro ao fundo, pediu nesta terça-feira (25/01) que El Salvador revogue a lei que deu ao Bitcoin status de meio oficial de pagamento.
Em um comunicado, os diretores do fundo afirmam que a adoção do Bitcoin por El Salvador criava "riscos significativos para a estabilidade financeira, a integridade financeira e a proteção ao consumidor".
A medida é hoje um dos grandes entraves à autorização do empréstimo do FMI ao país. El Salvador tem cerca de 6,5 milhões de habitantes, dos quais um terço vivem na pobreza.
Presidente é popular, mas críticos apontam autoritarismo
Bukele tem 40 anos e foi eleito em 2019 por meio de um pequeno partido de direita, chamado Gana, apostando na imagem de um candidato jovem e fazendo ataques à corrupção que ele associou aos dois maiores partidos do país, a FMLN e a Arena.
Antes de se lançar na política, o presidente fez carreira como empresário do setor da publicidade. Uma de suas marcas atuais é aparecer em público usando um boné virado para trás.
Bukele segue popular no país, mas vem sendo acusado de práticas autoritárias por seus opositores e organizações internacionais como a Human Rights Watch.
Em setembro, a Suprema Corte do país autorizou que ele concorra a um segundo mandato consecutivo, em 2024. Os ministros que tomaram a decisão haviam sido nomeados quatro meses antes pelo próprio presidente, após a Assembleia Nacional, que desde fevereiro passado é controlada pelo partido de Bukele, retirar os ministros anteriores de seus cargos.
Venezuela adotou criptomoedas, China vetou
Em fevereiro de 2018, a Venezuela criou a sua própria criptomoeda, chamada Petro, a primeira moeda digital estatal do mundo, com o objetivo de contornar a hiperinflação no país, com lastro em ativos petrolíferos.
A inflação ainda é altíssima no país e foi de 686,4% em 2021 segundo o Banco Central venezuelano, mas houve queda em relação aos 2.959,80% de inflação do ano anterior, após diversas medidas governamentais como restrições ao créditos e aos gastos públicos. O uso de criptomoedas em geral, porém, está se popularizando no país.
Já a China proibiu, em setembro passado, todas as transações em criptomoeadas, que segundo Pequim podem desestabilizar o sistema financeiro e ser utilizadas em práticas de lavagem de dinheiro e outros crimes.
bl (ots)cp
@caminhopolitico @cpweb

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