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sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Em Minas, moradores temem barragens em dias de chuva

Chuvas fortes no estado aumentam tensão em regiões que convivem com barragens de rejeitos de mineração. Trauma de Brumadinho e falta de informação sobre estruturas alimentam desconfiança. Enquanto limpam as casas tomadas pela enchente em Rio Acima, Minas Gerais, os vizinhos de Luciano Corrêa estranham o aspecto do barro que ficou nos cômodos e objetos depois que a água baixou.
"A conversa é uma só: parece resíduo de minério de ferro. É um material muito fino e tem um brilho que areia comum não tem”, contou Côrrea à DW Brasil por telefone, enquanto participa do mutirão na vizinhança.
Além das inundações, as fortes chuvas aumentam uma tensão recorrente: o medo do rompimento de uma barragem. Rio Acima tem algumas em seu território e estaria na rota de outras, localizadas em cidades vizinhas.
"A gente sente uma insegurança muito grande. A gente vê as empresas tratando a situação como se não houvesse risco, fazendo ações depois de desastres, a gente vê muita omissão”, afirma Côrrea.
A barragem da Mina de Fernandinho, da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), passou para alerta nível 2 em razão do volume de chuva. Isso significa que a estrutura precisa de reparos e que os moradores da chamada Zonas de Autossalvamento (ZAS) precisam ser evacuados.
"A gente vê esse barro dentro das casas com esse aspecto estranho e sabe que não foi uma grande barragem que se rompeu agora, mas é como se pequenas barragens estivessem se rompendo todos os dias”, comenta Corrêa.
Por meio de nota, a CSN informou que não há moradores na ZAS e que está trabalhando para minimizar os impactos na estrutura. "Com a redução das chuvas será possível avançar nos reparos para restabelecer o nível de segurança”, afirma a empresa.
As chuvas levaram a Agência Nacional de Mineração (ANM) a emitir um alerta a empreendedores e consultorias responsáveis de barragens devido ao volume de chuvas nas regiões Sudeste e Nordeste, em especial em Minas Gerais. "Pelo princípio da precaução solicitamos atenção especial a tal situação e manutenção/reforço do monitoramento de suas barragens de mineração”, pede em seu site.
Alerta permanente
Em Barão dos Cocais (MG) desde que a barragem Sul Superior, da Vale, entrou em nível iminente de rompimento, em fevereiro 2019, a vida dos moradores dos distritos de Socorro, Tabuleiro e Piteiras nunca mais foi a mesma. Eles foram retirados de suas casas e nunca mais puderam voltar.
A evacuação ocorreu dias após o colapso da B1 em Brumadinho, que matou 273 pessoas imediatamente após o tsunami de rejeitos de mineração vazar da estrutura. Não chovia no momento da tragédia.
"Nesses vilarejos de Barão de Cocais, as residências só poderão ser habitadas novamente quando a barragem for descaracterizada”, afirma Hernani Duarte, da Defesa Civil.
Na região central da cidade, às margens do rio São João, que também seria atingida em caso de rompimento, Maxwell Andrade entra em vigília nos dias de chuva. "A comunicação com a empresa em relação à barragem é a mesma de sempre: a gente nunca sabe como está o andamento”, diz.
O clima de medo entre os que moram perto do rio sempre volta nos dias chuvosos. "A gente fica temeroso porque a gente não sabe o que pode acontecer”, diz Andrade.
Mineração de ouro
Durante suas pedaladas, Renato Mattarelli, morador de Sabará, costuma checar a situação da barragem da AngloGold Ashanti, que explora ouro na região. É a estrutura que ele considera mais perigosa na cidade.
"O temor é causado pela desinformação da empresa. Toda chuva que dá deixa o pessoal preocupado, principalmente os ribeirinhos”, explica Mattarelli, do movimento Eu rejeito barragens, fundado em 2020 depois de grandes inundações registradas em Sabará. "A gente quer impedir que mineradoras construam barragens de rejeitos”, afirma.
Em condição de anonimato, moradores de Pompeu e Cuiabá, distritos próximos à mina, disseram que a empresa faz despejos de rejeitos no ribeirão Sabará. Muitos deles trabalham na mineradora e têm medo de retaliação.
Em março de 2021, uma denúncia foi protocolada no Ministério Público estadual com imagens do ribeirão Sabará após uma provável descarga de rejeitos da barragem da Mina Cuiabá. O texto diz que uma grande chuva era aguardada no dia, "mas ela acabou não caindo”, por isso o material no rio ficou evidente.
Dias depois, a Anglogold Ashanti soltou um comunicado dizendo que houve alteração da turbidez no curso de água e afirmou que "uma ação de vandalismo em uma estrutura de controle da unidade fez com que o material proveniente do sedimento de vias percorresse a drenagem natural do terreno alcançando o Ribeirão Sabará”.
"Ação de vândalos dentro da empresa? Como eles entraram lá? É uma região com segurança muito grande e muito truculenta. A gente não aceita esse argumento”, rebate Mattarelli.
Sobre as chuvas intensas atuais, a empresa informou que acompanha o cenário e que suas estruturas, localizadas em Nova Lima, Sabará e Santa Bárbara, estão seguras. No site da Agência Nacional de Mineração, as barragens são classificadas com baixo risco, mas com alto dano potencial associado.
Início e fim próximo
Em Itabira, berço da Vale, as obras na barragem Pontal preocupam moradores. A empresa tem pelo menos 15 barragens na cidade, de 110 mil habitantes. Cinco delas, como Pontal e Itabiruçu, de maior capacidade, ficam bem perto das casas.
"A gente ouve falar que eles estão descomissionando as barragens. A tensão é permanente”, diz uma moradora sobre a vida na cidade, que prefere não ter o nome revelado na reportagem por meio de retaliação.
Maria Inês de Alvarenga enxerga da esquina de sua rua a barragem Pontal, com capacidade superior a 200 mil metros cúbicos - quase vinte vezes maior que o acumulado na B1, que rompeu em Brumadinho.
"É muita angústia, dificuldade de negociar com a Vale, medo, ansiedade", diz Alvarenga. "As pessoas têm medo de serem removidas. Por enquanto elas têm um teto, mas muitas não têm registro formal do imóvel”, explica.
Alegando obras de um muro de contenção, a Vale tem negociado com moradores da vizinhança de Alvarenga a compra de suas casas. Estima-se que mais de 300 pessoas possam ser removidas.
"Casas já estão sendo demolidas. A Vale tenta negociar individualmente com pequenos grupos, o que enfraquece as pessoas, que vendem suas casas por quase nada", afirma Leonardo Ferreira, morador e membro do Comitê Popular dos Atingidos pela Mineração de Itabira.
Na visão de Ferreira, os moradores vivem um sentimento ambíguo. "Como a cidade depende da mineração e não tem muita informação sobre o que acontece exatamente no complexo, existe uma certa apatia. Mas desde 2019, com o rompimento em Brumadinho, a confiança na empresa ficou muito abalada", detalha.
Nos dias de chuva, porém, a sensação entre todos é quase unânime. "Medo. Pois não se sabe qual o risco verdadeiro das barragens, a quantidade de rejeito em cada uma, não se tem informação em tempo real e os planos de autossalvamento são conflituosos", afirma.
Para Alvarenga, que se lembra dos vales livros na cidade antes do depósito de rejeitos, os anos de vida em Itabira deixaram uma lição. "A gente aprendeu a conviver. Se a Vale tiver que remover uma montanha pra ter lucro, a gente sabe que ela vai remover, a gente vive isso aqui desde que eu era pequena", lamenta.
Questionada, a Vale não respondeu à DW Brasil até o fechamento desta reportagem.
Segurança de barragens
Em novembro de 2015, a barragem de Fundão, em Mariana, das mineradoras Vale, BHP Billiton e Samarco rompeu. A tragédia provocou a morte de 19 pessoas, contaminou o rio Doce e provocou a maior tragédia socioambiental do país, segundo o Ibama à época. Foram mais de 50 milhões de metros cúbicos de rejeitos despidos em terrenos e rios, contabilizou o Ministério Público Federal (MPF).
Meses antes do colapso, em julho, um atestado emitido pela VogBR declarava que a estrutura estava estável - um documento considerado mentiroso, segundo o inquérito instaurado pelo MPF.
O processo diz que os funcionários responsáveis da empresa "sabiam do histórico de problemas geotécnicos havidos com a barragem de Fundão, que entrou e em operação em dezembro de 2008 e ficou paralisada em abril de 2009 até maio de 2010 devido a problemas graves que atingiram o sistema de drenagem "alma de qualquer barragem", diz o texto.
Pouco mais de dois anos depois de Mariana, a catástrofe em Brumadinho após o rompimento da barragem B1, da Vale, matou 273 pessoas. A estrutura também havia recebido um atestado de estabilidade, emitido pela certificadora alemã Tüv Süd.
Ré em processos no Brasil e na Alemanha, a Tüv Süd anunciou ainda em 2019 que deixaria de certificar barragens após o ocorrido em Brumadinho. Para o MPF, segundo o texto da ação civil pública, as tragédias não foram ocasionais.
"Não eram exceções, mas uma forma reiterada de comportar-se, uma política sistemática de gestão de riscos que privilegia a produção e o lucro em detrimento da segurança, pondo em risco a própria vida humana", afirma o documento.
Nádia Pontes/Caminho Político
@caminhopolitico @cpweb

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