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segunda-feira, 20 de novembro de 2023

DIREITA ARGENTINA: Argentina opta pela ruptura: Milei vence a Presidência

Regularmente comparado a Bolsonaro e Trump, ultraliberal Javier Milei liderou bem-sucedida campanha antissistema com propostas de redução drástica do Estado, mas também levantou temores de uma virada autoritária no país. Em meio a uma aguda crise econômica, os eleitores da Argentina optaram neste domingo (19/11) pela ruptura num pleito histórico, apostando em uma figura com pouca experiência política que se apresentou como outsider.
Com um discurso antissistema e propostas radicais para economia, o ultraliberal populista Javier Milei conquistou a Presidência na disputa do segundo turno.
O resultado marca uma reviravolta profunda no cenário político argentino, além de explicitar o descontentamento da maioria da população com a situação atual do país. Com Milei, a Argentina entra no ciclo de vitórias da ultradireita que sacudiu países como EUA e Brasil a partir da segunda metade dos anos 2010.
Com 98,93% das urnas apuradas, Milei havia somado 55,72% neste segundo turno, contra 44,27% de Sergio Massa, o candidato governista neste pleito e atual ministro da Economia, que apostou numa campanha do "medo" contra o ultraliberal, mas que no final não conseguiu contornar a insatisfação dos argentinos com a crise e a inflação fora de controle.
A diferença expressiva entre os dois candidatos - por enquanto superior a 11 pontos - contrariou as últimas pesquisas divulgadas na semana passada, que apontavam um resultado mais apertado, e explicitaram o desgaste do peronismo, o movimento político do qual Massa faz parte. No primeiro turno, Massa havia ficado à frente de Milei por quase sete pontos.
"Hoje começa a reconstrução da Argentina", disse o presidente eleito Milei no primeiro discurso após o anúncio do resultado. "Hoje começa o fim da decadência argentina, termina o modelo empobrecedor do Estado onipresente."
O peronista Massa reconheceu a derrota para Milei antes mesmo da divulgação dos primeiros resultados do segundo turno.
"Javier Milei é o presidente eleito pela maioria dos argentinos para os próximos quatro anos", afirmou Massa. "Foi uma campanha muito longa e difícil, com conotações duras e espero que o respeito por quem pensa diferente seja estabelecido na Argentina."
O novo presidente tomará posse em 10 de dezembro, no aniversário de 40 anos do fim da última ditadura militar. Como desafios, Milei terá pela frente uma economia combalida e a falta de maioria no Congresso, que devem provocar dificuldades para a aprovação de pontos do seu programa "anarcocapitalista".
A eleição de Milei ainda lança dúvidas sobre o futuro do amplo programa de subsídios sociais da Argentina, onde 40% da população vive na pobreza, e também sobre as relações com o Brasil e o Mercosul.
No curto prazo, também há apreensão sobre o que a vitória de Milei também deve significar no mercado do dólar paralelo e na cotação do peso na semana que vem. Neste domingo, o chamado "cripto dólar", uma stablecoin que reflete a moeda americana em pesos, já mostrava tendência de alta com a vitória de Milei.
Como Milei conquistou a Presidência
Num cenário de profunda crise econômica, marcado por inflação anual de 142%, o ultraliberal Milei, da coalização A Liberdade Avança, que foi eleito deputado pela primeira vez em 2021, acabou se tornando o principal beneficiário da insatisfação com o governo do presidente peronista Alberto Fernández, aliado de Massa.
Com uma mensagem "antisssistema" que incluiu ataques contra a classe política tradicional do país – especialmente o peronismo – e a defesa de um plano de redução drástica do Estado, extinção do Banco Central, e dolarização total da economia, Milei, de 53 anos, já havia conquistado no primeiro turno, em outubro, 30% dos votos, ficando em segundo lugar. Suas aparições de campanha foram marcadas por gestos teatrais, como empunhar uma motosserra e puxar coros de xingamentos contra adversários.
"Propomos a reforma do Estado, desregulamentar a economia, fazer privatizações e fechar o Banco Central. Se me deixarem, em 15 anos a Argentina pode alcançar níveis de vida como a Itália e a França, se me derem 20 anos, a Alemanha, e se me derem 30, os Estados Unidos. A Argentina está em decadência. Se continuarmos assim, em 50 anos seremos a maior favela do mundo", disse Milei, durante um debate no primeiro turno.
No segundo turno, para crescer, ele moderou um pouco o tom das suas propostas disruptivas para a economia e recebeu o apoio de conservadores tradicionais do país, como o ex-presidente Mauricio Macri (2015-2019) e da ex-ministra e candidata derrotada à Presidência Patricia Bullrich, que terminou em terceiro lugar na primeira rodada e que havia sido alvo de pesados ataques pessoais de Milei.
No final, como atestaram os resultados, o apoio da direita tradicional ligada a Macri, que conta com uma máquina política mais capilarizada do que Milei, acabou se revelando decisivo para a vitória do ultraliberal. "Quando a pátria está em perigo, tudo é permitido", disse Bullrich ao anunciar seu apoio a Milei no final de outubro, usando uma frase atribuída a José de San Martín, militar e estadista argentino do século 19.
Sombra sobre a democracia argentina
Ao longo da campanha, Milei também despertou temor em outras fatias do eleitorado, não apenas por suas propostas para a economia, mas também por questionamentos sobre seu comprometimento com a democracia.
Em sua campanha à Casa Rosada, o ultraliberal se associou a apologistas da última ditadura militar (1976-1983) — sua vice, Victoria Villarruel, já defendeu o fechamento de um museu que relembra as matanças do regime e nesta semana afirmou que a Argentina só sairá da crise com "uma tirania".
Em um dos debates da campanha, Milei ainda questionou o número de mortos durante a ditadura.
Para um biógrafo de Milei, o discurso da dupla Milei-Villarruel representa um risco concreto. "A democracia já está ameaçada na Argentina. O perigo é real", disse Juan Luis González, autor de uma biografia crítica de Milei, chamada El Loco (O louco).
Durante a campanha, Milei também emulou o americano Donald Trump e o brasileiro Jair Bolsonaro, lançando, sem provas, acusações de "fraude" contra o sistema eleitoral.
Quem é Javier Milei
Ex-músico de uma banda de rock, ex-jogador de futebol na juventude, economista de formação e, assim como Massa, Milei, de 53 anos, começou a ganhar tração em 2016, como comentarista de televisão e defensor de princípios "libertários", atacando o que ele chama de "casta" - a classe política tradicional do país.
A estreia ocorreu num canal controlado pelo bilionário argentino de origem armênia Eduardo Eurnekian, dono do conglomerado de mídia e aeroportos Corporación América, para o qual Milei trabalhou por mais de uma década.
Em 2021, Milei foi eleito pela primeira vez como deputado. Foi pouco atuante na Câmara – não propôs projetos ou participou de comissões –, usando mais o cargo como plataforma para se lançar à presidência da Argentina.
A tática rendeu frutos, e Milei se tornou um dos assuntos mais comentados da eleição. "Ele [Milei] não é um líder, é um sintoma" da sociedade argentina, analisou o ex-ministro da Economia Domingo Cavallo. "Ele é um grande comunicador que serviu como um canalizador para todos aqueles insatisfeitos com a democracia, a política e a economia", resumiu o biógrafo Juan Luis González, ao jornal La Nación.
Leia mais sobre Javier Milei
Novo presidente tomará posse em cenário de crise
Em crise perpétua há décadas, a Argentina, a terceira maior economia da América Latina, chegou ao pleito deste domingo em um cenário econômico degradado, que levou o atual presidente Alberto Fernández a desistir de concorrer à reeleição.
O dólar disparou nas últimas semanas, reforçando a agonia do peso argentino. Já a inflação anual na Argentina subiu para 142% em outubro – um recorde em mais de 30 anos. Hoje, na América do Sul, a inflação argentina só é superada pela da Venezuela, que vive uma crise humanitária. Para piorar, a vitória de Milei nas primárias, em agosto, fez o valor do dólar paralelo disparar em 11%, diante do temor de um cenário de instabilidade política. É provável que a vitória de Milei mande novos sinais de turbulência nos mercados na próxima semana.
Os argentinos também estão lutando para sobreviver, com cerca de 40% da população vivendo na pobreza. A taxa de desemprego é de 6,2%, praticamente a mesma de uma década atrás.
Analistas apontam que o próximo presidente, que tomará posse em dezembro, terá dificuldades para encontrar uma solução rápida para os atuais problemas, que têm raízes em décadas de má administração governamental.
Nas últimas oito décadas, o país experimentou apenas quinze anos de inflação abaixo de dois dígitos. A dívida e o déficit fiscal também têm sido a norma na Argentina. Entre 1961 e 2022, houve apenas seis anos com superávit fiscal nas contas do país.
Congresso fragmentado será desafio para Milei
Junto com o cenário de degradação econômica, Milei terá que lidar com um Congresso fragmentado. Além de votarem no primeiro turno do pleito presidencial, os argentinos elegeram em 22 de outubro 130 dos 257 membros da Câmara dos Deputados e 24 dos 72 membros do Senado.
O resultado final mostrou que o próximo presidente do país terá que negociar com o Congresso para aprovar medidas, já que nenhuma coligação conseguiu garantir maioria nas duas Casas.
No caso do ultraliberal Milei, o cenário se apresenta mais difícil do que teria sido para Sergio Massa.
A coligação do ultraliberal Milei, chamada A Liberdade Avança, formada apenas em 2021, até conseguiu se transformar na terceira força política do Congresso do país, mas ainda assim se manteve muito abaixo de uma maioria necessária de 129 deputados, passando a contar com apenas 38 – incluindo o próprio Milei. A coligação ainda passou a contar com oito senadores – também abaixo da maioria necessária de 37.
Esse cenário do Congresso deve representar um desafio para Milei aprovar suas propostas disruptivas na economia.
No melhor cenário, Milei pode tentar formar uma maioria com apoio de congressistas da coligação Juntos pela Mudança – que formou a segunda maior bancada na Câmara, com 93 deputados, e que conta com 24 senadores.
Mas é improvável que ele consiga contar com todos esses votos. Apesar do apoio de membros da JxC como Macri e Bullrich, a bancada da coligação está longe de ser um bloco homogêneo, e alguns partidos e movimentos do bloco, como União Cívica Radical, declaram repúdio a Milei no segundo turno.
Repercussão no Brasil: Lula evita citar Milei; extrema-direita celebra
A Argentina é o maior parceiro econômico do Brasil na América do Sul e é um dos principais destinos de exportações de produtos industrializados brasileiros. Os dois países também são os principais membros do Mercosul, bloco comercial sul-americano.
Durante a campanha, Milei chamou o bloco de "união aduaneira defeituosa" e disse que pre6tendia levar a Argentina a "seguir seu próprio caminho".
Neste domingo, após o resultado da eleição, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva parabenizou o povo e as instituições argentinas pela condução da eleição. Lula desejou sorte e êxito ao novo governo, mas evitou citar o nome de Javier Milei.
"A democracia é a voz do povo, e ela deve ser sempre respeitada. Meus parabéns às instituições argentinas pela condução do processo eleitoral e ao povo argentino que participou da jornada eleitoral de forma ordeira e pacífica", escreveu Lula em suas redes sociais. Desejo boa sorte e êxito ao novo governo. A Argentina é um grande país e merece todo o nosso respeito. O Brasil sempre estará à disposição para trabalhar junto com nossos irmãos argentinos", disse Lula.Durante a campanha do primeiro turno, Lula evitou comentar explicitamente as eleições no país vizinho, em contraste com seu antecessor, Jair Bolsonaro, que foi explícito em seu apoio ao liberal Macri em 2019 e sua oposição a Fernández, o que gerou mal-estar diplomático. Nos bastidores, no entanto, o governo brasileiro tinha preferência por uma vitória de Sergio Massa.
Na reta final do segundo turno, Lula havia dito que a Argentina precisa eleger um presidente que goste do Mercosul e de democracia, no que foi encarado como uma posição contra Milei.
Numa entrevista a um jornalista peruano durante a campanha do segundo turno, Milei afirmou que, caso fosse eleito, não pretendia se reunir com Lula por considerá-lo "corrupto" e "comunista".
Neste domingo, vários membros da extrema-direita brasileira celebraram a vitória do ultraliberal.
O ex-presidente Jair Bolsonaro, com quem Milei foi frequentemente comparado na campanha, escreveu que "a esperança volta a brilhar na América do Sul". "Que esses bons ventos alcancem os Estados Unidos e o Brasil para que a honestidade, o progresso e a liberdade voltem para todos nós."
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Bolsonaro, também publicou uma mensagem de parabéns ao argentino.
"Parabéns, Milei. Que Deus ilumine seu caminho na presidência. A Casa Rosada trará desafios gigantescos, mas tenho certeza de que você fará o melhor pela Argentina. Pouco a pouco vamos vencendo a esquerda e o comunismo na América Latina. Que a Argentina seja um exemplo e apenas a primeira de muitas mudanças para melhor no nosso continente. Milei é um passo decisivo rumo à liberdade da América Latina!"
O senador Sergio Moro (União-PR), por sua vez, mencionou a vitória da seleção da Argentina na última Copa ao comentar o resultado da eleição. "Argentina ganhou duas copas do mundo seguidas. Sorte e sucesso agora para Milei", escreveu Moro.
Jean-Philip Struck/Caminho político
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