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segunda-feira, 16 de março de 2026

Jornalista português vira alvo da Ucrânia após cobertura da guerra: 'tentam silenciar-me'

A primeira razão que levou o jornalista Bruno Carvalho a região do Donbass, no leste da Ucrânia, foi o desejo de cobrir o lado do conflito quase ignorado pela imprensa ocidental, postura que se intensificou após a invasão russa ao território ucraniano, há quatro anos.
Tudo começou em 2018, Carvalho foi para a região do Donbass, no leste da Ucrânia, movido pelo desejo em realizar uma cobertura jornalística a partir da perspectiva das populações russófonas, lado do conflito quase ignorado pela imprensa ocidental após a invasão da Rússia ao território ucraniano.
Naquele 2018, durante a guerra civil, ele percorreu as repúblicas populares de Donetsk e Lugansk, visitando hospitais, escolas e orfanatos. Regressou em 2022 mantendo o mesmo propósito: relatar o que acontecia do outro lado, “onde quase não havia jornalistas ocidentais” para “dar voz às vítimas”.
Em entrevista a Opera Mundi, o primeiro jornalista português, e um dos poucos europeus a reportar o que acontecia naquele território, revelou que a batalha de Mariupol representou para ele “o rosto mais brutal da guerra”.
Nascido e criado na periferia da Amadora, cidade da região metropolitana de Lisboa, Bruno é editor do jornal Voz do Operário, mas tem realizado trabalhos importantes em veículos do mainstream português e espanhol.
“Claramente, como estamos a assistir em 2026, de forma despudorada, o Ocidente só se preocupa com direitos humanos quando os seus aliados estão em perigo”, disse, ao ser questionado sobre a pouca visibilidade dada pela grande mídia ao sofrimento da população do Donbass, onde esteve por oito meses.
Bruno argumenta que a imprensa europeia é, “na sua maioria, uma correia de transmissão do pensamento neoliberal e imperialista”, já que “uma criança morta em Donetsk não vale o mesmo que uma criança morta em Kiev”.
Sobre a dupla pressão da violência global contra jornalistas e sua inclusão numa lista de “inimigos” da Ucrânia, Carvalho também recordou o quanto foi atacado por membros do governo português durante a administração do Partido Socialista, além de figuras de destaque do jornalismo nacional.
“Naquele momento, fui a voz dissonante. Eu mostrava que Kiev, com o apoio ocidental, matava civis, atacava escolas, hospitais, maternidades, mercados, transportes públicos. Fui testemunha direta de tudo isso e com o meu trabalho procurei mostrar essa realidade. Nunca pedi que os jornalistas deixassem de cobrir o lado ocidental nem que deixassem de mostrar as vítimas dos ataques russos. Mas no meu caso tentaram silenciar-me”, enfatizou Carvalho.
Posteriormente, sua inclusão como “inimigo” na página Myrotvorets, ligada ao governo ucraniano, consolidou a campanha contra ele, embora saiba que outros colegas sofreram mais, com alguns, até mesmo, perdendo as suas vidas. “Um exemplo é o jornalista espanhol Pablo González, que esteve preso vários anos na Polônia acusado de ser espião russo”, comentou.
A forte oposição de figuras públicas em Portugal, incluindo diplomatas e ministros, também foi vista por Bruno como um ataque direto ao jornalismo livre. “Democracia para esta gente é quando impera o seu pensamento e o seu modelo de sociedade. Qualquer coisa que saia disso deve ser condicionada, perseguida e proibida”, criticou, traçando um paralelo com partidos que insistem em repetir o papel histórico de estender o tapete vermelho ao fascismo.
“Isso aconteceu na Alemanha com o Partido Social Democrata (SPD, por sua sigla em alemão). Basta lembrar quem é que mandou assassinar Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht e que muitos dos futuros nazis vieram dos Freikorps, milícia apoiada pela social-democracia alemã para esmagar insurreições e protestos operários”, comparou o jornalista.
A esperança que não fica à espera
Sobre o livro A Guerra a Leste – 8 meses no Donbass, publicado pela editora Caminho, Bruno Carvalho lembrou que a embaixadora da Ucrânia em Portugal sugeriu que a obra “devia ser proibida e que a liberdade de expressão em Portugal era demasiado ampla”.
Apesar das tentativas de boicote por parte da extrema-direita ucraniana, o livro tornou-se uma das mais vendidos de não-ficção em 2024. “Não houve qualquer palavra do governo português ou do Sindicato dos Jornalistas contra estas declarações”, recordou.
Mas, apesar de enfrentar o desafio de escrever sobre o que quase ninguém queria saber, Bruno afirma ter recebido muito apoio dos portugueses e também de parte da própria diáspora ucraniana. “Foi o combustível para não ceder às pressões e aos ataques”, acrescentou o jornalista.
Segundo Carvalho, essa é uma comunidade “muito diversa” e “trabalhadora”, sendo que muitos deles viveram na região do Donbass antes do golpe de Estado contra o presidente eleito Viktor Yanukovich, em 2014. “É um povo que olha com grande tristeza e revolta para o que acontece na Ucrânia”, ressaltou.
Em todas as oportunidades em que fala sobre o trabalho realizado, o jornalista recebe agradecimentos por ter revelado o que acontecia do outro lado, sendo “a esperança que não fica à espera”, frase do poeta Manuel Gusmão, também registrada por Bruno em seu livro. “Foi uma fortaleza construída à minha volta que me permitiu fazer o meu trabalho”.
Uma guerra sem fim?
A respeito da narrativa que coloca a Rússia como principal ameaça estratégica para a União Europeia, Bruno atribuiu-a a uma relação de “vassalagem em relação a Washington”. “A agenda dos Estados Unidos, em traços gerais, é a agenda da União Europeia”, afirmou, citando o caso do gasoduto alemão ligado à Rússia, o Nord Stream, “sabotado pela Ucrânia com a conivência dos Estados Unidos”.
Mesmo diante dos atritos em relação à Groenlândia, Carvalho pontua que a situação rapidamente foi ultrapassada e, no que diz respeito à Ucrânia, a estratégia da União Europeia é prosseguir a linha de Joe Biden: apostar tudo na guerra contra a Rússia e promover a ampliação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e da União Europeia para o leste.
“Mas na prática, a União Europeia vai ter de fazer o que Trump mandar e se Trump mandar parar a guerra, a Ucrânia vai ter de aceitar ceder parte do seu território e do seu desejo de aderir à OTAN”, previu, referindo-se às negociações de paz.
Questionado sobre uma solução diplomática para o conflito, diz não vislumbrar outro cenário, criticando ainda as rupturas sucessivas da via negocial por parte da Ucrânia, que, segundo ele, foram “instigadas pelo Ocidente”. O jornalista citou como exemplo os acordos de Minsk, em 2014 e 2015, em que Kiev não quis dar autonomia às suas regiões como tinha ficado assinado.
“Também aconteceu em 2022, quando Kiev saltou das negociações na Bielorrússia e depois na Turquia, com Boris Johnson a empurrar Volodymyr Zelensky para a continuação da guerra. Agora, em 2026, as condições são todavia piores do que em 2015 e 2022. Quantas mortes não poderiam ter sido evitadas?”, questionou.
Batismo de fogo
Bruno Carvalho também teve a oportunidade de entrevistar vários combatentes estrangeiros, ou os chamados “mercenários”. Segundo ele, esses soldados têm tido um papel importante, se levarmos em consideração o fato de a guerra ser entre o Ocidente, através da Ucrânia, e a Rússia. De acordo com a sua análise, Kiev, sem o apoio da OTAN, teria capitulado rapidamente.
Porém, ressalta que há grupos que estão lá com diferentes motivações: alguns para ganhar dinheiro, outros por razões ideológicas e também os aventureiros. “Nesse contexto, creio que o grande perigo é o elevado número de fascistas estrangeiros que estão a ganhar experiência militar na Ucrânia e que podem usar esse conhecimento para reforçar a luta da extrema-direita pelo poder”, analisou.
Por fim, ao eleger o momento que mais o marcou durante o período em que esteve no Donbass, citou a batalha de Mariupol. Foram semanas muito intensas de confronto militar numa cidade com meio milhão de habitantes. Embora já tivesse trabalhado em outros cenários como repórter de guerra, classificou aquele momento como o seu “batismo de fogo” no jornalismo.
“Mariupol foi para mim o rosto mais brutal da guerra: uma boa parte da cidade destruída, mortos nas ruas, gente a viver escondida em caves à luz das velas, bombardeios permanentes, rajadas de metralhadora nas esquinas. Mas também foi uma oportunidade para dar voz às pessoas que viviam naquele inferno, que considero os verdadeiros heróis dessa batalha”, finalizou.
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Assessoria/Victor Farinelli/Opera Mundi/Caminho Político
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