O ex-governador de Mato Grosso José Pedro Gonçalves Taques afirmou que o estado teria repassado ao menos R$ 755 milhões a estruturas ligadas ao Banco Master desde 2023. A declaração foi dada hoje durante depoimento à CPI do Crime Organizado no Senado.
O que aconteceu
Embora seja ex-governador do estado, ele falou na CPI na condição de advogado. Taques disse que foi contratado por sindicatos e pela federação de servidores públicos de Mato Grosso para investigar empréstimos consignados feitos por servidores estaduais. A apuração começou em 2024, após relatos sobre descontos em folha e possíveis irregularidades.
Segundo Taques, empresas ligadas ao Master teriam passado a atuar no mercado de consignados sem autorização do Banco Central. De acordo com ele, essas empresas ofereciam crédito a servidores públicos de MT e depois transferiam os contratos ao Master.
O ex-governador afirmou que esse modelo teria ampliado o endividamento dos servidores do estado. Segundo ele, a margem consignável, limite da renda comprometida com empréstimos, chegou a 60% em Mato Grosso.
Taques também disse que houve aumento expressivo dos contratos de crédito consignado. O número de operações ligadas ao Master teria saltado de 104 mil, em 2022, para 2,7 milhões em 2024 em MT.
O segundo eixo envolve um acordo tributário entre o governo de Mato Grosso e a Oi em 2024. Esse tipo de acordo é usado para encerrar disputas judiciais sobre cobranças de impostos, com o pagamento de um valor negociado entre as partes.
Segundo Taques, o governo estadual pagou R$ 308 milhões após a negociação. O ex-governador afirmou que o valor foi depositado em dois fundos criados e administrados pelo Banco Master, chamados Royal Capital e Lotte World, que teriam recebido cerca de R$ 154 milhões cada.
Os recursos chegaram a empresas ligadas ao governador do estado, Mauro Mendes. Entre elas, a Sollo Energia e a Minerbras Mineração. Segundo o ex-governador, as informações foram obtidas a partir da análise de documentos públicos de fundos registrados na Comissão de Valores Mobiliários, sem necessidade de quebra de sigilo bancário. O UOL procurou o governo de MT. O espaço segue aberto para manifestação.
O terceiro eixo envolve a concessão da BR-163, principal rodovia de escoamento de Mato Grosso. Segundo Taques, após a concessão passar para o estado, a estatal MTPAR assumiu a gestão da rodovia por meio da concessionária Nova Rota Oeste.
De acordo com o ex-governador, a MTPAR criou um fundo administrado pela Reag Investimentos em 2023. Segundo Taques, o governo de Mato Grosso depositou R$ 447 milhões nesse fundo. Taques disse que o sócio da Reag Luiz Carlos Moreira Lima foi nomeado para o conselho de administração da Nova Rota do Oeste. Segundo ele, a indicação ocorreu após a criação do fundo e o aporte de recursos públicos.
Taques afirmou ainda que investigações da Polícia Federal apontam ligação entre fundos administrados pela Reag e lavagem de dinheiro. "Segundo a Polícia Federal, fundos criados pela Reag lavam dinheiro do PCC", disse.
Durante o depoimento, o ex-governador afirmou que o crime organizado passou a atuar dentro das instituições públicas. "Hoje, quando se fala em organização criminosa, não podemos falar apenas da criminalidade tradicional. As organizações criminosas se infiltram na política, nas instituições, em fundos e em licitações", afirmou.
Segundo Taques, os três eixos apontam risco ao sistema financeiro. Ele afirmou ainda que encaminhou documentos a autoridades e defendeu investigações. "O Banco Central falhou e ameaçou e a integridade do sistema financeiro", disse. O UOL procurou o governo de MT sobre as acusações de Taques.
Amanda Freitas/Colaboração para o UOL, em Brasília/Caminho Político
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