Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso

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domingo, 8 de março de 2026

Necropolítica à brasileira

Onde o observador desatento vê episódios isolados existe, na verdade, a exposição de um mecanismo: uma operação policial com excesso de mortes, um governador conivente com o crime, um ex-presidente que negou a gravidade de uma pandemia. O observador mais atento reconhece o padrão: a morte como instrumento de governo e a desinformação como método de gestão. O Rio de Janeiro, nesse sentido, não é exceção, mas a regra; regra que se converte em espelho.
A Matemática Macabra da Segurança Pública
Quando a Polícia Federal revelou que Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa, transformara a Alerj num “posto avançado do Comando Vermelho”, o país não parou para refletir. Vinte e sete deputados votaram pela soltura de um líder indiciado por proteger o crime organizado. A vida seguiu como se fosse natural um parlamento capturado por uma facção criminosa.
Em outubro de 2025, uma operação no Complexo da Penha e do Alemão deixou 121 mortos para 118 armas apreendidas. Mais mortes do que armas. Não se tratava de desarmar criminosos, mas de eliminar pessoas. O governador Cláudio Castro, descrito como “marionete” de Bacellar, desfilou sobre esses corpos com a frieza de quem gerencia estatísticas.
O manifesto da Universidade Federal do Rio de Janeiro foi preciso: “Não se trata de um conflito armado, mas de um fenômeno multidimensional que adoece nossa cidade. Ignorá-lo é irresponsabilidade; tratá-lo via necropolítica é alimentá-lo”.
Necropolítica entre Nós
O conceito de Achille Mbembe encontra no Rio sua expressão mais acabada: o poder de ditar quem vive e quem morre. O Estado não apenas permite que se mate; ele próprio mata, com a complacência de um governador que se opõe à reestruturação da segurança pública. Por que se opor a mais integração e inteligência? Porque investigações sérias poderiam expor conexões indesejadas entre ele, seus aliados e o crime que alega combater.
A Metástase Nacional do Crime Organizado
O que ocorre no Rio é a ponta visível de um iceberg. As milícias, formadas por agentes do Estado, expandiram-se. Como explica o coronel Robson Rodrigues, “a milícia mudou, o Comando Vermelho mudou, e um grupo absorveu técnicas do outro”. Milicianos traficam; traficantes extorquem. As fronteiras dissolveram-se.
Essa dissolução reflete-se nas instituições. Policiais negociam com traficantes, delegados desviam cargas de cocaína, agentes do Estado aliam-se aos que depredam a sociedade. Políticos oferecem cobertura institucional.
A ascensão da extrema-direita no Brasil, personificada por Jair Bolsonaro, veio acompanhada de negacionismo científico e pautas que confundem segurança pública com extermínio social. A bancada da bala sempre se opôs a qualquer controle externo das corporações. O Rio é o laboratório onde essa lógica é testada em escala industrial.
A Pandemia Como Revelação
Foi na pandemia que a necropolítica brasileira revelou sua face mais cruel. Enquanto a Austrália, governada por um primeiro-ministro também de direita, adotava medidas baseadas em ciência, o Brasil de Bolsonaro escolheu o caminho oposto.
O contraste é instrutivo. Existe uma direita republicana e uma direita fascista. Scott Morrison adotou medidas cientificamente fundamentadas. Bolsonaro implementou uma estratégia de negacionismo, desinformação e politização da saúde, resultando em centenas de milhares de mortos.
Bolsonaro recusou-se a adotar máscaras e distanciamento, recusou-se a vacinar, promoveu medicamentos ineficazes como “tratamento precoce”. Ministros da saúde que seguiram a OMS foram demitidos e substituídos por pundits que confirmavam as visões do presidente.
Suas lives no YouTube revelaram categorias discursivas recorrentes: interferência do judiciário, imunidade de rebanho, antivacina, negacionismo, economia acima da saúde, tratamento precoce. Cada categoria contribuiu para desinformar a população.
O resultado está nos números: em abril de 2021, o Brasil atingiu 3.016 mortes diárias; em meados de 2023, concentrava 10% de todas as mortes por Covid-19 no mundo. Vidas que poderiam ter sido salvas foram sacrificadas no altar de uma ideologia que cultua a morte.
O Casamento do Fascismo com a Necropolítica
Uma característica fundamental do fascismo é a desumanização. Com ela, autoriza-se a matar. Convenceram que judeus não eram gente – Holocausto. Hoje, convence-se que moradores de favela, opositores políticos, profissionais de saúde que insistem na vacinação são alvos legítimos.
O casamento do fascismo com a necropolítica é a barbárie. E essa barbárie tem endereço certo no Brasil contemporâneo. No Rio, expressa-se em operações que matam mais do que apreendem. Na pandemia, expressou-se na recusa sistemática de proteger a população. Em ambos, o Estado abdica de garantir a vida para exercer o poder de ditar a morte.
O manifesto da UFRJ pergunta: “a quem interessa a manutenção da ambiência de insegurança e medo?”. A resposta aponta para aqueles que transformam o caos em método de governo, que se beneficiam do medo para justificar políticas de exceção, que usam a morte alheia como espetáculo.
Lições para o Futuro
O Rio nos ensina que a necropolítica não é desvio, mas escolha deliberada: governar pela morte, gerir populações pelo extermínio seletivo, transformar o Estado em máquina de matar. É a escolha de Castro ao opor-se à reestruturação da segurança. É a escolha de Bolsonaro ao recusar vacinas.
Mas há outra escolha possível. A Austrália mostrou que governos de direita podem adotar políticas baseadas em evidências. O sistema judicial brasileiro garantiu a estados autonomia para implementar medidas sanitárias. Municípios que seguiram a ciência tiveram menos mortes.
A democracia é o único antídoto contra a barbárie. E a barbárie é o resultado inevitável quando a lógica da guerra substitui a lógica do cuidado, quando se aceita que algumas vidas valem menos, quando se naturaliza a morte como instrumento de governo.
O Rio é o espelho do Brasil. Nele vemos refletidas nossas escolhas, nossa capacidade de tolerar o intolerável. A pergunta que fica é se ainda há tempo para desviar o olhar desse espelho e reconhecer o rosto da barbárie que insistimos em chamar de política.
Chico Cavalcante é jornalista, escritor e consultor político/Caminho Político
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