terça-feira, 28 de abril de 2026

Enquanto o mundo discute a transição energética, os povos indígenas denunciam que o Equador está pressionando por mais petróleo em sua região amazônica.

Marcelo Mayancha, presidente da nação Shiwiar, narra de Santa Marta, onde está acontecendo a conferência internacional para o abandono dos combustíveis fósseis. “É muito preocupante que, enquanto o mundo discute a transição energética, o governo equatoriano esteja promovendo mais petróleo em sua Amazônia”, afirma Marcelo Mayancha (Pastaza, 35 anos), presidente da nação Shiwiar, em uma coletiva de imprensa em Santa Marta, Colômbia. Ao seu lado, estão líderes de outras seis nações da província de Pastaza, na Amazônia equatoriana, e representantes indígenas da mesma bacia no Brasil e na Colômbia. Em meio à primeira Conferência sobre a Transição dos Combustíveis Fósseis, que reúne mais de 50 países, eles denunciam o anúncio do governo equatoriano de 49 projetos extrativistas, incluindo 11 blocos de petróleo que afetarão quase 3 milhões de hectares de seus territórios ancestrais na floresta amazônica.
Os projetos fazem parte das rodadas de petróleo do Sudeste e da região Subandina do roteiro de hidrocarbonetos anunciado pelo governo do presidente Daniel Noboa em agosto de 2025, com um investimento de US$ 47 bilhões. As comunidades indígenas que vivem em Pastaza descobriram meses depois que os blocos se sobrepunham aos seus territórios. "Estamos aqui; eles não podem explorar sem o nosso consentimento", afirmam. Embora o Ministério do Meio Ambiente e Energia afirme que houve um processo de consulta prévio, referindo-se a um ocorrido em 2012, as sete nações indígenas se reuniram para rejeitar os processos de licitação.
“Não haverá petróleo em nossos territórios, apenas vida”, disseram em uníssono. Em entrevista ao El PAÍS, Mayancha insiste: “Nós, os povos indígenas, resistiremos”.
Pergunta: Como foi o processo para as sete nações se organizarem e apresentarem essa queixa?
Resposta: O governo nunca nos notificou nem nos consultou sobre nada; descobrimos por meio de nossos aliados que monitoram certos processos, e eles perceberam que os blocos de mineração se sobrepõem aos nossos territórios. Então, as sete nacionalidades — Kichwa, Sapara, Andwa, Achuar, Waorani, Shuar e Shiwiar — reuniram seus governos territoriais na Amazônia para analisar os documentos e mapas. E começamos a considerar qual deveria ser nosso curso de ação diante dessa ameaça.
P: O Governo afirma que uma consulta prévia já foi realizada em 2012...
R. Sim. Houve uma suposta consulta naquele ano em alguns desses territórios, quando o Estado tentou leiloar esses mesmos blocos. Mas o que realmente aconteceu? O governo da época escolheu alguns supostos líderes — agora ex-líderes — que de fato faziam parte das nacionalidades, dos povos indígenas , mas eles não nos representavam. Documentos foram assinados com o governo, que agora os usa para alegar que houve aprovação, que houve consulta prévia. E isso criou um problema, porque não funciona assim. Eu, por exemplo, sou representante da minha nacionalidade, mas sem consultar a população local, não posso tomar decisões.
P: Especificamente em Pastaza, eles conseguiram impedir a exploração de petróleo?
R. Sim, não houve nenhum. Mas isso porque estamos em resistência permanente, ativos 24 horas por dia, 7 dias por semana. Vimos, no entanto, o que acontece quando chegam os projetos petrolíferos, que estão ocorrendo no sul, centro e norte da Amazônia equatoriana. Não temos essa experiência, mas vimos o que acontece com nossos vizinhos nas províncias. Com os próprios Waorani. Como eles estão? Porque o que vemos é que os projetos causam danos, há um impacto social, há prostituição e doenças. Eles não vivem mais em harmonia, mas em total desequilíbrio dentro de suas comunidades. Eles não podem beber água do rio; há muitos vazamentos todos os anos.
P: O governo equatoriano não está entre os países que participaram da conferência de Santa Marta. Segundo a ministra interina do Meio Ambiente da Colômbia, Irene Vélez, a conferência é para aqueles que concordam que uma transição energética é necessária. Qual a sua perspectiva sobre isso?
R. Isso mostra que o governo não está interessado. Não estamos falando da Copa do Mundo aqui, mas da transição energética, de deixar os combustíveis fósseis para trás. E o que o nosso governo está promovendo é a extração de petróleo; ele tem outras intenções. Mas nós, representantes dos territórios, estamos aqui para usar a nossa voz e dizer que não queremos isso. Queremos viver em paz e tranquilidade.
P: Além deste anúncio que está fazendo internacionalmente, você planeja levar este conflito a outro nível?
R. Por ora, a decisão firme e coletiva é que não queremos petróleo em nosso território, na Amazônia equatoriana. No âmbito técnico e jurídico, precisamos avançar com nossos aliados para definir os próximos passos, mas estamos apenas começando a explorar essa possibilidade. Assembleias foram convocadas e declaramos assembleias permanentes em resposta a essas ameaças do governo. A luta começa aí.
P: Quais são as suas expectativas para esta conferência?
R. Nossa maior expectativa é participar da tomada de decisões. Uma transição justa deve ser consolidada conosco, com a participação dos povos indígenas. Sem isso, não há transição justa.
Assessoria/Maria Mónica Monsalve S./El pais/Caminho Político
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