Deputado Dr. João José

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Mato Grosso no Coração

sábado, 16 de maio de 2026

Estudo aponta greenwashing sistemático na indústria pecuária

De mais de 1,2 mil declarações analisadas, 98% foram consideradas enganosas ou falsas. Metas de neutralidade climática de gigantes brasileiras do setor não são críveis, dizem autoras. Empresas contestam. A indústria da carne e do leite incorre em greenwashing, quando se fazem promessas ambientais enganosas ou falsas, em 98% das suas afirmações e compromissos. É o que afirma um estudo científico publicado no fim de abril pela revista científica PLOS Climate.
As pesquisadoras analisaram 1.233 declarações publicadas, de 2021 a 2024, em relatórios de sustentabilidade e sites públicos de 33 empresas.
Todas as companhias estão entre as maiores do setor ao redor do mundo, incluindo as brasileiras JBS, Minerva Foods, Marfrig e BRF (as duas últimas, desde a fusão em setembro, compõem a MBRF). A lista ainda conta, entre outros, com Danone, Nestlé e Cargill.
Segundo as autoras do estudo, a indústria "pode estar induzindo consumidores e investidores ao erro sobre se e em que medida está enfrentando seus impactos ambientais, incluindo as mudanças climáticas."
Os sistemas de pecuária correspondem a 12% das emissões antropogênicas de gases de efeito estufa, estima a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
Já no Brasil, a agropecuária é responsável por 75% das emissões de gás metano, que cresceram em 6% entre 2020 e 2023, segundo estudo do Observatório do Clima (OC) do ano passado. O potencial de aquecimento global destas moléculas supera em 28 vezes o dióxido de carbono (CO2) num período de cem anos.
Muitas promessas, poucas evidências
Na sua análise, as cientistas definiram greenwashing como a disseminação de informações falsas ou enganosas sobre as estratégias, objetivos, motivações e ações ambientais de uma empresa. Na prática, isso pode incluir a adoção de medidas de baixo impacto, comprometimentos vagos e afirmações pouco ou nada apoiadas em evidências.
Das mais de 1,2 mil declarações analisadas, só 356 (29%) apresentavam evidências, com três delas vindo de fontes científicas. Além disso, as pesquisadoras encontraram 467 projeções inverificáveis, quase sempre desacompanhadas de planos de implementação ou avaliações de viabilidade.
As promessas verdes ligadas à proteção do clima prevalecem no setor, aponta a pesquisa. Das 33 empresas analisadas, 17 prometeram atingir a neutralidade climática em prazos variados, com dez estabelecendo 2050 como meta.
Mas "assim como no caso das companhias de petróleo e gás, os comprometimentos parecem se basear em planos de compensar as emissões de carbono em vez de descarbonizar", diz o artigo na PLOS Climate.
Os resultados também indicaram que o setor tende a oferecer informações restritas sobre como as emissões são mensuradas. As iniciativas que, em contrapartida, são descritas detalhadamente costumam ser limitadas em longevidade, escala e abrangência geográfica.
"Em vez de buscar mudanças transformadoras, muitas empresas parecem priorizar pequenos ganhos de eficiência e divulgam amplamente iniciativas de pequena escala ou piloto que pouco contribuem para reduzir a pegada ambiental geral da pecuária," concluiu a pesquisa.
Brasileiras têm as metas mais ambiciosas
De todas as empresas estudadas, as brasileiras Minerva Foods, JBS e a então BRF figuraram entre as quatro com metas climáticas mais ambiciosas.
Elas prometeram se tornar neutras em gases de efeito estufa até 2035 ou 2040, considerando emissões resultantes das suas atividades, do seu consumo de energia e das cadeias de produção - o que, neste caso, inclui o desmatamento para a pecuária extensiva, por exemplo.
Em 2024, a agropecuária foi responsável por 29% das emissões brasileiras, seguida pelo desmatamento, com cerca de 40%, segundo o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), mantido pelo OC.
Para as pesquisadoras da Universidade de Miami, as metas das gigantes brasileiras não são críveis. Elas argumentam que "não é possível criar animais que não produzam gases de efeito estufa" e "não está claro como a neutralidade será atingida ou verificada".
Por sua vez, a então Marfrig não estabeleceu prazo para atingir a neutralidade climática, apesar do compromisso de reduzir emissões diretas e indiretas a curto prazo. Juntas, as quatro brasileiras tiveram 166 afirmações analisadas pelo estudo, dentre as quais foram identificados indícios de greenwashing em 164.
JBS processada nos EUA
Em novembro, a subsidiária americana da JBS, de propriedade dos irmãos Joesley e Wesley Batista, fechou acordo de 1,1 milhão de dólares (R$5,4 milhões) para encerrar um processo no qual era alvo de acusação semelhante.
Uma investigação da procuradoria do estado de Nova York concluiu que a empresa induzia o público ao erro com o manifesto compromisso de reduzir a sua pegada de carbono.
"Os nova-iorquinos merecem a verdade quando se trata do impacto ambiental dos produtos que eles compram", disse, à época, a procuradora-geral do estado, Letitia James. "A JBS dos EUA fez promessas grandiosas sobre o impacto climático de sua empresa-mãe, apesar de não ter um plano concreto para respaldá-las."
Pelo acordo, a JBS deveria também reformar as suas práticas de marketing ambiental, além de reportar anualmente à procuradoria do estado por três anos. Já os recursos seriam revertidos no apoio a programas que apoiam produtores locais, inclusive na redução de emissões.
Dias antes do anúncio do acordo, a ONG Mighty Earth abriu processo da mesma natureza, dessa vez na capital dos Estados Unidos. Em resposta, a JBS rejeitou categoricamente que suas metas de sustentabilidade sejam enganosas, afirmando que vinha obtendo progresso mensurável no combate às mudanças climáticas.
À agência Reuters, o chefe de sustentabilidade da empresa, Jason Weller, dissera, dez meses antes, que a neutralidade climática até 2040 não era "promessa", mas, sim, "aspiração".
Outro lado
Procurada pela DW, a JBS afirmou que o "relatório trazido pela reportagem baseia-se numa abordagem qualitativa que não reflete o rigor ou a transparência das normas científicas ou multissetoriais estabelecidas e utilizadas em todo o nosso setor".
"É importante notar também que os próprios autores reconhecem limitações significativas na sua metodologia, o que reforça a necessidade de cautela na interpretação das suas conclusões", diz a empresa.
"Na JBS, nosso foco está nas ações e no progresso mensurável. Continuamos a investir em tecnologias e melhorias operacionais que reduzem as emissões, aumentam a eficiência e geram energia renovável e circular em todas as nossas instalações. Também trabalhamos diretamente com produtores em várias regiões em projetos colaborativos que apoiam a melhoria do manejo do solo, da nutrição animal e da produtividade — esforços que podem contribuir para uma menor intensidade de emissão de gases com efeito de estufa ao longo do tempo", afirmou a JBS.
A MBRF, resultado da fusão entre a BRF e Marfrig, por sua vez, disse que “contesta as conclusões do artigo e observa que o estudo utiliza categorias amplas e metodologicamente vulneráveis de classificação de alegações ambientais, que não refletem os diferentes níveis de maturidade, transparência, governança, escala operacional e capacidade de execução entre empresas globais de alimentos".
"A MBRF destaca, ainda, que foi pioneira no desenvolvimento em monitoramento socioambiental da cadeia pecuária, incluindo controle geoespacial, cruzamento de bases públicas, monitoramento de desmatamento, embargos ambientais, trabalho análogo ao escravo e invasões de áreas protegidas. Como resultado, atualmente, monitora 100% dos fornecedores diretos e indiretos de bovinos e de grãos em todos os biomas", disse a MBRF.
Já a Minerva Foods respondeu afirmando que "sua estratégia climática é sustentada por iniciativas concretas, transparência na divulgação de informações e monitoramento contínuo de resultados, e que a meta de alcançar a neutralidade de emissões até 2035 reflete a ambição da companhia de agir com urgência diante da crise climática, combinando a redução efetiva de emissões em toda a cadeia de valor com o uso criterioso de mecanismos de compensação reconhecidos internacionalmente".
"Atualmente, a Minerva Foods já monitora 100% dos fornecedores diretos em toda sua operação na América do Sul e, no Brasil — seu principal mercado —, consolidou também o monitoramento de 100% dos fornecedores indiretos até o nível 1 para a Amazônia Legal e o Maranhão. Além disso, tem avançado em iniciativas voltadas à redução das emissões na pecuária, incluindo estudos conduzidos em parceria com instituições de pesquisa para validação de aditivos alimentares capazes de reduzir significativamente as emissões de metano entérico. Os resultados obtidos até o momento demonstram potencial relevante de aplicação em escala, conciliando ganhos de produtividade e sustentabilidade."
Assessoria/Heloísa Traiano/Caminho Político
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