Deputado Dr. João José

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Mato Grosso no Coração

domingo, 28 de junho de 2026

A fé religiosa e a esperança socialista podem se abraçar

“Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura. A razão espanta o medo.” Provérbios populares portugueses.
As eleições presidenciais de 2026 permanecem indefinidas. A rigor, o desfecho é, por enquanto, imprevisível. Os desenlaces recentes das eleições, tanto no Peru como na Colômbia, por margens de diferença não somente estreitas, mas ínfimas, são um “alerta vermelho”. Um deslize qualquer, uma mesquinharia de aparelho, uma declaração infeliz, sem falar de malfeitos pessoais ou crimes de conduta, podem ser irreparáveis. Neste contexto, ocorreu uma inflexão na conjuntura.
Flávio Bolsonaro sofreu uma queda de 9 pontos percentuais dentro do nicho evangélico nas últimas seis semanas. Sua intenção de voto recuou de 61% para 52%, em função do impacto das relações com o banqueiro Vorcaro, do Banco Master. Lula apresentou um crescimento de 7 pontos no mesmo segmento, subindo de 24% para 31%. No segundo turno, o petista pontua, entre os evangélicos, em 44% contra o candidato do PL.
Ainda não podemos saber as repercussões da briga pública entre Michelle e Flávio Bolsonaro por espaço na liderança da extrema-direita. Estas oscilações, considerando que estamos ainda há três meses das eleições, não deveriam alimentar, precipitadamente, ilusões. Não é hora de “oba-oba” e “já ganhou”. Mas se abriu uma brecha. A conclusão de que é possível uma disputa do voto evangélico parece irrefutável. Essa luta eleitoral pode ser decisiva.
No Censo Demográfico de 2022, os brasileiros que se autodefiniram como “sem religião” somavam 9,3% da população, totalizando 16,4 milhões de pessoas. Esta classificação engloba pessoas que não professam nenhuma crença institucionalizada – mas que podem possuir alguma espiritualidade –, ateus e agnósticos. No Censo de 2010, representavam 7,9% da população (15,3 milhões de pessoas), portanto, houve um ligeiro crescimento.
Mas no Censo de 2010, dentro do grupo dos sem religião, somente cerca de 4% ou 0,3% da população, o que correspondia somente a 615 mil pessoas, se declaravam estritamente ateus, e menos de 1% agnósticos, sendo a grande maioria composta por pessoas sem vínculos com igrejas. Já a proporção de evangélicos no Brasil atingiu o recorde de 26,9% da população, o que representa um total de 47,4 milhões de pessoas. Três vezes mais do que os “sem religião”. O catolicismo permaneceu como a maior religião, mas atingiu o menor patamar histórico, recuando para 56,7%.
Uma pequena minoria, muito concentrada entre os brasileiros com alta escolaridade, não é religiosa. Os dados disponíveis em pesquisas comparativas confirmam que estamos entre as nações mais religiosas do mundo. O Brasil está sempre em primeiro lugar na América Latina – cerca de 90% da população crê em Deus, e 75% com prática de oração diária – ao lado de México e Colômbia. O contraste com o Uruguai, em que metade da população se declara sem religião, ou mesmo com a Argentina, em que somente metade do povo atribui importância à religião, é impressionante.
A imensa maioria das pessoas que se autodefinem de esquerda são religiosos. Essa identidade e pertencimento é muito poderosa. Ser socialista não é a adesão a uma associação de descrentes e incrédulos. Não somos uma carbonária de ateus e agnósticos. Ser socialista é fazer a defesa de um programa político. Um programa político é um projeto de luta pelo poder do Estado. Defendemos que o Estado esteja separado das Igrejas. Nesse sentido, o programa socialista é republicano, o que quer dizer que a esfera da vida privada deve permanecer protegida da ingerência do Estado. A vida privada, para não falar da vida pessoal, deve ter plena autonomia. Não é razoável esperar que todos aqueles que querem se organizar para lutar contra o capitalismo tenham que renunciar à sua fé. Evidentemente, não há nada de errado, tampouco, se um militante se empenhar em defender o ateísmo. Mas não somos uma sociedade científica. O que vale para a espiritualidade deve valer, também, para outras crenças. Não são tão poucos aqueles que encontram conforto na astrologia, na leitura de cartas de tarô ou numerologia.
A politização aumentou no Brasil nos últimos dez anos. Todos os espaços de convivência ficaram mais conflitivos. A proporção de pessoas que seguem, assiduamente, as notícias políticas pelos distintos canais disponíveis – talvez a metade da população adulta ou algo em torno 75 milhões de pessoas – é maior do que nunca. A influência dos jornais e revistas diminuiu, mas foi compensada pela explosão das redes sociais. Mas esta transformação foi desconcertante, porque impulsionada, sobretudo, pelo crescimento da audiência da extrema-direita. Os liberais, aturdidos pelo colapso da direita histórica, liderada pelo bloco liderado pelo PSDB em aliança com o Centrão, denominam este processo de polarização. Mas a radicalização foi totalmente assimétrica. A radicalização aconteceu somente no agigantamento da extrema-direita. Neste processo, a massa da burguesia e da maioria da classe média girou para o bolsonarismo e arrastou uma grande parcela dos trabalhadores remediados, em especial, no sudeste e sul do país. Mas encontrou ressonância transversal com os evangélicos pentecostais. O Brasil mais politizado é muito mais fraturado. Uma maioria social está em disputa nas eleições de 2026.
Não era assim. O que prevalecia no Brasil até 2014/16 ainda era a ideia de que a discussão de temas muito polêmicos devia ser evitada nas famílias. A lista dos temas polêmicos variava. Dependia se o ambiente era a família, o trabalho, os vizinhos, etc. Mas incluía, em geral, religião, política e futebol, não necessariamente nessa ordem. Preservar uma convivência harmoniosa era absoluta prioridade. Como se, evitando falar de política, não houvesse brigas. Evitando falar de racismo “não haveria racismo”. Evitando falar de machismo “não haveria mais machismo”. O critério era evitar o conflito. Isso mudou e as brigas aumentaram. Tudo ficou mais difícil e qualquer discussão passou a exigir disciplina de autocontenção.
A maioria da militância de esquerda é muito apaixonada pela identidade socialista, e isso é bom. Abraçamos a causa mais elevada do tempo que nos coube viver. Somos muito comprometidos com nossa aposta estratégica. Esse é um ponto forte da esquerda. Mas é, paradoxalmente, nosso ponto fraco. Porque somos, também, em maior ou menor medida, um pouco sectários. Ser sectário é ser estreito, inflexível, rígido, intransigente, ou até mesmo arrogante, áspero ou pior, intratável. Ninguém gosta de desaforo. Somos tão sectários que, frequentemente, não sabemos que somos sectários. A luta política atravessa nossas vidas nos locais de trabalho, de moradia, de estudo, e outros. Mas todos aqueles que militamos estamos inseridos, também, em variados espaços que definem nossas vidas privadas, e até a dimensão pessoal da existência. Os mais importantes são as famílias e os círculos de amizade. A tolerância é uma qualidade insubstituível. Ela nos educa para nos colocarmos no lugar dos outros, e compreender os seus pontos de vista. Respeitar e aceitar diferenças de opinião sobre as escolhas pessoais ajuda a poder construir consenso sobre as escolhas políticas.
A luta política não se desenvolve apenas na arena da vida pública. Há, também, os espaços que remetem às nossas preferências. Tem gente que adora demonstrar as virtudes de acordar cedo, outros de dormir tarde, outros de fazer a sesta. Tem muita gente convencida que as dietas são um tema político. Na luta socialista podemos conviver, harmoniosamente, entre não fumantes e fumantes; veganos, vegetarianos e carnívoros; alopatia ou homeopatia; sertanejos, roqueiros e sambistas; cinéfilos ou literatos, românticos ou surrealistas, corintianos e palmeirenses; sedentários e atléticos, pedestres, ciclistas e motociclistas. Devemos, também, aprender a conversar com pessoas religiosas, em especial os evangélicos. De todas estas dimensões da vida privada, a mais importante é a da religiosidade. Ela ocupa um espaço importante no sistema de valores, apegos, crenças, e esperanças da imensa maioria do povo. Não é razoável esperar que todos aqueles que podem lutar contra o capitalismo tenham que renunciar à sua fé.
A luta pelo ateísmo não deve estar nem no programa, nem nos estatutos, menos ainda na linha de campanhas eleitorais de uma organização de esquerda. Devemos ter respeito uns com os outros, porque temos inimigos muito poderosos e queremos vencer. Todos os lutadores anticapitalistas devem ser bem-vindos. A fé religiosa é uma experiência individual. Lênin – que denunciava frequentemente a religião como “nevoeiro místico” – insiste no seu artigo de 1905, “o socialismo e a religião”, sobre o fato que o ateísmo não devia fazer parte do programa do partido porque “a unidade na luta realmente revolucionária da classe oprimida pela criação de um paraíso na terra é mais importante para nós do que a unidade da opinião proletária sobre o paraíso nos céus”.
A dimensão utópica de um projeto igualitarista nunca poderia ser minimizada, já que a aposta política sempre dependerá de um engajamento que exige o enfrentamento de dúvidas e riscos, para não esquecer dos perigos e das derrotas. O socialismo sempre foi entendido pelo marxismo como um projeto que depende da capacidade de mobilização e organização de forças sociais com interesses anti-capitalistas, e da presença de sujeitos políticos capazes de traduzir esses interesses numa perspectiva de poder. Mas sem a “fé” na possibilidade desses sujeitos sociais serem vitoriosos, o que, sumariamente, poderíamos chamar uma identidade de classe, seria muito difícil sustentar de forma continuada uma militância que é emancipadora, libertadora, mas exige sacrifícios e abnegação. Esse sentimento que já foi denominado, no passado, de “robusto otimismo” na disposição revolucionária da juventude, dos trabalhadores e do povo é indispensável para alimentar um projeto político, e tem uma evidente dimensão utópica. Porque lutamos pelo futuro, pelo que ainda está por vir. A fé religiosa e a esperança socialista podem se abraçar.
Valério Arcary é historiador e professor titular aposentado do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo.
Assessoria/Valério Arcary/Caminho Político
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