Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro e presidente nacional do PP, passou 13 dias em Courchevel, nos Alpes franceses, em uma viagem de R$ 1.849.201 paga por Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, segundo reportagem de Breno Pires na edição deste mês da revista piauí. As férias ocorreram entre 12 e 25 de janeiro de 2025 e aparecem no relatório da Polícia Federal que embasou a decisão do ministro André Mendonça, do STF, na nova fase da Operação Compliance Zero.
A apuração não trata a temporada de luxo como um episódio folclórico. Para a PF, a viagem integra um conjunto de indícios de que a relação entre Ciro e Vorcaro teria ultrapassado a amizade e funcionado como uma engrenagem de benefício mútuo, com pagamentos mensais, favores privados, negócios societários e atuação parlamentar ligada a interesses do Banco Master.
O caso ganha peso porque Ciro não é um personagem lateral. Ele comanda o PP, foi um dos principais ministros de Bolsonaro e é peça central do Centrão. Vorcaro, por sua vez, virou o rosto do colapso do Master, liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025, depois de uma crise que expôs conexões entre sistema financeiro, Congresso e articulações da direita.
Ciro Nogueira, Vorcaro e as férias de R$ 2 milhões
Segundo a reportagem, Ciro Nogueira viajou com Flávia Rosalen para Courchevel, uma das estações de esqui mais caras da Europa. O custo total atribuído pela PF à temporada foi de R$ 1.849.201.
A conta inclui hospedagem de alto padrão, restaurantes e despesas privadas bancadas por Daniel Vorcaro. A imagem que resume a relação mostra Ciro e o banqueiro abraçados na neve, em registro que, para os investigadores, reforça o grau de proximidade entre os dois.
Na cobertura da Fórum, a relação entre o senador e o dono do Master já aparecia em outra frente da investigação. Em “Amigo da vida de Vorcaro”: quem é Ciro Nogueira, ex-ministro de Bolsonaro que virou alvo da PF, a reportagem mostrou como o presidente do PP entrou na mira da operação após mensagens atribuídas ao banqueiro.
“Irmãozão” expõe intimidade entre Ciro e o dono do Master
O termo “irmãozão” aparece em outro trecho sensível do relatório: a oferta de um apartamento de Vorcaro para atender a uma demanda pessoal de Ciro. De acordo com a apuração, o senador teria pedido ajuda ao banqueiro para resolver provisoriamente a moradia de Flávia Rosalen em São Paulo.
Vorcaro teria colocado um imóvel à disposição e tratado o pedido em tom de intimidade. Para a PF, esse tipo de favor privado ajuda a compor o quadro de uma relação que não se restringia a encontros sociais ou afinidade pessoal.
A viagem a Courchevel, o apartamento em São Paulo e outras despesas atribuídas ao banqueiro aparecem conectados a uma suspeita maior: a de que Vorcaro mantinha vantagens permanentes para Ciro enquanto buscava apoio político em temas de interesse do Master.
Mesada de R$ 300 mil a R$ 500 mil
O ponto mais grave do relatório envolve supostos pagamentos mensais ao senador. A investigação aponta mensagens que indicariam uma mesada de R$ 300 mil a Ciro Nogueira, depois elevada para R$ 500 mil.
A Fórum detalhou essa frente em Ciro Nogueira recebia mesada de Vorcaro e acumula R$ 1,8 milhão em propina, reportagem sobre as mensagens e os repasses atribuídos pela PF ao dono do Banco Master.
A suspeita dos investigadores é que os valores tenham sido ocultados por meio de empresas e negócios privados. Uma delas é a CNLF Empreendimentos Imobiliários, sigla que coincide com as iniciais do nome completo do senador: Ciro Nogueira Lima Filho.
Segundo a reportagem da piauí, a CNLF recebeu R$ 902 mil da BRGD, empresa ligada à família de Vorcaro, entre agosto de 2023 e agosto de 2024. A PF investiga se os repasses serviram para dar aparência empresarial a pagamentos indevidos.
A “Emenda Master” e o uso do mandato
A dimensão política do caso aparece na chamada “Emenda Master”. A proposta ampliava de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos para investidores em caso de quebra de instituição financeira.
O relatório aponta que o texto teria sido redigido pela assessoria do Banco Master e entregue na residência de Ciro Nogueira, em Brasília, para ser apresentado como emenda parlamentar. A orientação, segundo a apuração, era evitar que o nome do banco aparecesse no envelope.
Depois, Vorcaro teria comemorado em mensagem que a emenda saiu “exatamente como mandei”. A Fórum mostrou esse trecho em Ciro Nogueira recebeu em mãos emenda do Banco Master, com base na decisão de André Mendonça.
Mesmo depois de virar alvo da PF, Ciro voltou a defender a ampliação da cobertura do FGC. A movimentação foi registrada em Ciro Nogueira reapresenta “emenda Master” na tentativa de se descolar de Vorcaro, de quem teria recebido propina.
Ciro Nogueira nega irregularidades
Ciro Nogueira nega ter cometido crime. Após a operação, seus advogados repudiaram o que chamaram de “ilações de ilicitude” contra o senador.
O presidente do PP afirma ser alvo de perseguição política e sustenta que a proposta sobre o Fundo Garantidor de Créditos tinha como objetivo proteger investidores, não favorecer Daniel Vorcaro ou o Banco Master.
A revista afirma que pediu entrevista a Ciro e enviou 60 perguntas sobre os pontos levantados na reportagem. O senador não respondeu.
Assessoria/ Diego Feijó de Abreu/Caminho Político
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