Nessa entrevista exclusiva ao programa “Cessar-fogo”, que vai ao ar hoje, às 21h00, na TV 247, a jornalista e escritora Anna Lee, co-autora, com Carlos Heitor Cony de “O beijo da morte” e “Operação Condor” revela que a primeira perícia sobre o desastre que provocou a morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek, a 22 de agosto de 1976, no km 165 da Via Dutra, em direção ao Rio de Janeiro, feita, sob sigilo, por militares, insinuou que ele parou no Hotel-Fazenda Villa-Forte para se encontrar com Maria Lúcia Pedroso, e não com emissários do general-presidente Ernesto Geisel. Em entrevista a Anna Lee, ela desmentiu o encontro: “Eu estava esperando Juscelino por volta das seis da tarde, no Rio”.
EU: O que você sabe sobre Juscelino?
ANNA LEE: Eu tenho uma longa pesquisa sobre, não só sobre o JK, mas sobre os três políticos que tentaram fazer a Frente Ampla,ele, o Jango e o Lacerda. Em 1982, Cony fez uma crônica, um texto, um artigo, na verdade, para a Manchete, falando sobre a morte, a coincidência da morte dos três políticos brasileiros, que na verdade representavam ali a direita, com o Lacerda, o centro, JK, a esquerda, o Jango, então, assim, a política brasileira estava ali representada, E a coincidência das mortes dos três, repentinas, ninguém estava doente a ponto de morrer e tudo, e em nove meses, justamente, o Juscelino morreu em 22 de agosto de 1976, o Jango em 6 de dezembro de 1976 e o Carlos Lacerda em maio de 1977.
Justamente numa época em que o Geisel começava a falar em abertura lenta, gradual e segura. E aí o Cony escreveu sobre isso, mas obviamente era uma teoria, o Cony era um ficcionista, mas participou muito, principalmente do JK, porque ele estava escrevendo as memórias dele, então ele conhecia profundamente a história e tudo, mas ele escreveu dessa coincidência sem nenhuma prova, ficção, com todas as possibilidades de ser verdade, mas ficção.
E, bom, o tempo passou, algumas vezes ele escreveu sobre isso e tudo. Eu comecei a estagiar na Manchete, como jornalista, em 1996, e daí conheci o Cony, ele me chamou para trabalhar com ele, a gente fazia umas adaptações de clássicos e tal. e eu amo o arquivo, sou rata de arquivo, e eu ficava mexendo lá nos papéis dele e tal, e descobri esse artigo que estava lá. Falei, “isso, dá um livro”. Ele não queria.
Bom, eu fiquei insistindo, insistindo. Até que eu convenci o Cony e ele vendeu esse projeto, que deu no livro “O beijo da morte”, para a Objetiva, e aí eu me afastei dos outros trabalhos que eu fazia para passar, passei um ano e meio, dois anos, sei lá, viajando, porque eu fiquei muito por conta lá do Jango e tal, e como era uma coisa de ficção, a gente criou um repórter, que tem a sacada que o Cony teve e começa a investigar a morte dos três.
A grande verdade... Alex, é que a gente conhece a nossa história pela história dos outros países do Cone Sul, que começaram a abrir seus arquivos, Argentina, Chile e o próprio Estados Unidos, que isso foi uma coisa orquestrada por eles, na época da Guerra Fria e tal. Eu estava muito preocupada, achando que a gente tinha que chegar na verdade, provar os fatos e o Cony dizia “não, Ana, não cabe a nós provarmos isso, isso é função da polícia e tal, e nós não somos polícia”.
EU: Você chegou a conversar com Sérgio Leite, o primeiro perito do desastre na Via Dutra?
ANNA: Sim, sim, a gente entrevistou o Sérgio Leite e várias pessoas. Ele falou para a gente que antes de ele começar ele recebeu uma pré-perícia dos militares. Na qual diziam que JK tinha parado no Hotel Fazenda Villa-Forte para encontrar a Lúcia. Com o objetivo de, penso eu, tirar o foco do verdadeiro motivo dele estar ali. Porque sabe-se que o JK vinha conversando com o Geisel. Ele tinha realmente essa esperança de voltar à presidência. Então, eu acho que tudo isso da amante, de não sei o que e tal, isso foi para desviar.
EU: Os militares citam a Maria Lúcia nessa pré-peritagem?
ANNA: Ele contou que nesse material que ele recebeu, os militares diziam que o Juscelino foi ao Hotel Fazenda se encontrar com uma senhora. Não falava da Lúcia, ele foi encontrar-se com uma senhora.
EU: Você e Cony, ou só você, chegaram a conversar com a Lúcia para confirmar?
ANNA: Sim, eu e Cony, quando a gente escreveu “O beijo da morte”. Eu tenho até as fitas gravadas. Era fita cassete. A gente está falando aí de 2000, 2001. Nós fomos entrevistá-la, e ela disse que não foi ao hotel. Se ele estava vindo para o Rio de Janeiro, e ela morava no Rio… essa história dos dois era super conhecida... As pessoas já sabiam. Então, não tinha motivo para ela se encontrar com ele num hotel da Via Dutra. “Para que eu ia sair do Rio, para ir lá em Resende, para depois voltar para o Rio de novo?” ela disse. “Isso não faz sentido”. O Juscelino já não tinha muito cuidado de esconder essa história com a Lúcia, era uma coisa sabida, assim. O Cony sempre repetia que nem todos os computadores mais avançados do mundo poderiam calcular que, na hora que o JK estava passando, que estaria passando uma carreta e que o carro bateria na carreta. Que poderia ter acontecido o acidente... e ele não ter sido fatal se não tivesse passado a carreta. O fato é que, pelo contexto, ele estava marcado para morrer. Tanto que antes saiu um boato de que ele tinha morrido lá em Luiziânia. Então, assim, o fato é que, se ele não morresse ali, morreria na próxima curva, se não fosse ali, em algum momento ia acontecer, porque ele estava marcado.
EU: Os peritos da ditadura, como esse Sérgio Leite, insistiram que um ônibus da Viação Cometa teria batido no Opala do Juscelino e por isso o Opala caiu na outra pista e aí encontrou a carreta. É nisso que eles se apoiaram O que foi provado que não existiu. Que não teve. E tem um personagem estranho nessa história, que é o Guilherme Romano. Um grande amigo do general Golbery, o primeiro chefe do SNI. E que frequentava o Hotel Fazenda Villa-Forte. Esse Guilherme Romano, estranhamente, logo depois da colisão, estava lá, se apresentou como um responsável da família para recolher pertences do Juscelino. Recolheu, inclusive, páginas de um diário do Juscelino, que também é um grande mistério. E... E segundo o livro do Cláudio Bojunga “JK: o artista do impossível”, ele tirou cópias dessas páginas e tal, entregou uma cópia para o Golbery, que entregou a outros generais. E também teve a história que a dona Sara recebeu esse material.
ANNA: Antes do Bojunga escrever sobre isso, o Cony já tinha falado sobre isso. Às vezes eu escuto pessoas falando algumas coisas, “porque o Cony me disse isso”, e aí eu fico pensando: “será que o Cony não colocaria no nosso livro alguma informação que ele passou para outra pessoa?” É óbvio que não, né? E o que o Cony escreveu foi que o Guilherme Romano levou uma semana para entregar esse diário, quis entregar para o seu Adolfo Bloch, e o seu Adolfo falou que era da dona Sara, e o Guilherme entregou para a dona Sara. O que o Cony levanta é que ele teve uma semana para distribuir cópias e fazer cópias e tudo, né? Então, essa informação que tem no livro de Bojunga é uma coisa que o Cony já tinha escrito sobre isso, antes. Ele tem muito material escrito sobre isso.
EU: E o que o Cony diz a respeito disso?
ANNA: Ele estranhou muito, porque o Cony foi ao IML, porque tinha que liberar o corpo. A princípio, o velório ia ser no Museu de Arte Moderna, o MAM, mas o seu Adolfo disse, não, tem que ser na Manchete, por motivos óbvios, e o Cony foi cuidar dessa história, foi no IML cuidar dessa história, e contou que o Romano apareceu lá também, depois.
EU: E aí o Guilherme Romano, inclusive, segundo um promotor de Resende, disse textualmente, comandou esse inquérito, é incrível. É muito estranho isso, né?
ANNA: Pois é, e é isso que eu fico pensando, assim, em algum momento ele recebeu essa ordem, né?
EU: Só pode ter sido do Golbery. O Guilherme Romano era amigo dele. E eu acho, isso é uma opinião minha, que o Guilherme Romano só poderia ter estado lá na hora do acidente porque ele estava no Hotel Fazenda.
ANNA: Isso faz todo sentido. Isso faz todo sentido. Como é que ele ia chegar tão rápido ali? É impossível. Mas é isso, assim, na verdade...
EU: O Cony comentava isso ou não?
ANNA: Sim, ele estranhava muito. Eu estou num processo de reunir esses textos todos. Mas é isso, assim. Muito estranho. De onde que as pessoas surgem ali e depois aparecem? Naquele momento a gente estava olhando só um acidente como se fosse um acidente normal. E não é! Era a morte de um ex-presidente que teve todo o envolvimento, que participou da tentativa da Frente Ampla, que foi cassado e que pretendia voltar e pretendia... um processo de redemocratização para o país.
EU: E teve toda uma forçação de barra para acusar o motorista da Cometa, que inclusive morreu outro dia. A vida dele acabou depois desse incidente. A vida dele acabou, ele perdeu o emprego, era apontado na rua como quem matou o JK. Se fosse um simples acidente, não precisava ter armação nenhuma.
ANNA: Não, com certeza, com certeza. Se fosse fortuito, para que ter essa armação toda? Mas a gente estava ali num processo que... orquestrado pelos militares e tal, e eu fico muito impressionada com isso, Alex, porque muito tempo depois ainda se insiste em relatos que foram criados naquela época.
Ontem teve um evento lá na ABL sobre o livro “O Ato e o Fato”, do Cony, que ele escreveu no calor dos acontecimentos de 1964, são as crônicas que ele escreveu no “Correio da Manhã”, e eu fiquei muito feliz porque tinha muitos estudantes. mas ninguém sabia do que a gente estava falando. Ou seja, a memória da nossa história é zero. Se você perguntar, talvez o JK não, porque tem a coisa de Brasília e tudo, mas se você perguntar, Jango, essas pessoas não sabem. Lacerda, Jango, entendeu? Até hoje, essas pessoas, até hoje, os estudantes não sabem sobre isso.
A entrevista completa foi ao ar hoje, sexta-feira, 26 de junho, às 21h00, na TV 247/Alex Solnik/Caminho Político
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