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quarta-feira, 3 de junho de 2026

Por que Flávio Bolsonaro escondeu encontro com Eduardo Cunha nas redes

Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se encontrou nesta terça-feira (2), em Belo Horizonte, com Eduardo Cunha (Republicanos-MG), mas não fez do encontro uma vitrine em suas próprias redes. A agenda foi exposta por Cunha, ex-presidente da Câmara, operador histórico do Centrão e personagem-chave do impeachment de Dilma Rousseff. A cena ajuda a explicar o desconforto: Cunha pode ser útil para a montagem política de 2026, mas continua sendo um passivo difícil de exibir em público.
O encontro ocorreu durante a passagem de Flávio Bolsonaro por Minas Gerais, onde o senador tenta construir musculatura para se apresentar como nome do bolsonarismo à sucessão presidencial. Cunha, que hoje atua politicamente em Minas e tenta recuperar espaço eleitoral, recebeu o filho de Jair Bolsonaro na Rádio 89 Maravilha, emissora ligada ao ex-deputado e voltada ao público evangélico.
A passagem de Flávio por Belo Horizonte já vinha sob desgaste. A Fórum mostrou que o senador e Romeu Zema provocaram revolta nas redes após um gesto polêmico em Belo Horizonte. A agenda também ocorre depois de atritos no próprio campo da direita, como no episódio em que Flávio Bolsonaro tentou se explicar e Nikolas Ferreira reagiu com caretas, registrado pela Fórum em reportagem sobre a crise entre Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira.
Flávio Bolsonaro usa Eduardo Cunha, mas evita o custo da foto
A aproximação com Eduardo Cunha não é difícil de entender. Cunha tem trânsito no Centrão, conhece a máquina partidária, fala com setores evangélicos e ainda preserva relações construídas no período em que comandou a Câmara dos Deputados. Para Flávio Bolsonaro, que tenta sair da bolha familiar e organizar uma pré-campanha nacional, esse tipo de operador pode abrir portas.
O problema é o preço político. Eduardo Cunha é um símbolo da velha política que Jair Bolsonaro dizia combater. Foi ele quem aceitou, em 2 de dezembro de 2015, o pedido de impeachment contra Dilma Rousseff, decisão registrada pela Câmara dos Deputados. Menos de um ano depois, o mesmo Cunha seria cassado por quebra de decoro parlamentar.
Eduardo Cunha abriu caminho para Bolsonaro no impeachment
O papel de Eduardo Cunha no impeachment de Dilma Rousseff foi decisivo. Como presidente da Câmara, ele abriu o processo que reorganizou a política brasileira e deu palco nacional ao bolsonarismo. Na sessão de 17 de abril de 2016, Jair Bolsonaro transformou seu voto pelo impeachment em um ato de provocação política.
Antes de votar, Bolsonaro saudou Eduardo Cunha pela condução da sessão. Em seguida, dedicou o voto ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça como torturador da ditadura militar.
“Neste dia de glória para o povo brasileiro, um nome entrará para a história nesta data pela forma como conduziu os trabalhos desta Casa: Parabéns, Presidente Eduardo Cunha!”, disse Jair Bolsonaro.
A Fórum registrou, naquele mesmo dia, a gravidade da homenagem de Bolsonaro ao torturador em reportagem sobre o voto dedicado ao coronel Brilhante Ustra, torturador da ditadura. O histórico de Ustra também foi retomado pela Fórum no texto sobre quem foi o Coronel Ustra.
Cunha foi cassado após mentir à CPI da Petrobras
O capital político de Eduardo Cunha ruiu poucos meses depois do impeachment. Em 12 de setembro de 2016, o plenário da Câmara cassou o então deputado por 450 votos a 10, com 9 abstenções. Segundo a Agência Câmara, o parecer aprovado apontou que Cunha mentiu à CPI da Petrobras ao negar que mantinha contas no exterior.
Antes da cassação, Cunha já havia sido afastado do mandato e da Presidência da Câmara por decisão do Supremo Tribunal Federal. Em maio de 2016, o ministro Teori Zavascki determinou o afastamento do deputado. O afastamento retirou Cunha do comando da Casa no momento em que seu poder começava a cobrar a fatura.
O ex-presidente da Câmara também foi alvo de processos ligados à Lava Jato. O Superior Tribunal de Justiça registrou, em decisão sobre pedido de liberdade, acusações relacionadas a pagamentos de propina envolvendo a liberação de recursos para obras do Porto Maravilha, no Rio de Janeiro.
Flávio Bolsonaro tenta vender novidade com a velha política
A omissão do encontro nas redes de Flávio Bolsonaro é reveladora porque expõe a diferença entre discurso e método. Para fora, o senador tenta ocupar o lugar de herdeiro eleitoral do bolsonarismo e se apresentar como alternativa viável para 2026. Por dentro, a articulação passa por Eduardo Cunha, um dos nomes mais associados ao Centrão fisiológico, ao impeachment de Dilma Rousseff e à crise ética que marcou a Câmara na década passada.
A dificuldade de Flávio Bolsonaro em sustentar uma imagem renovada não se limita ao encontro com Cunha. A Fórum mostrou que Marcelo Freixo confrontou o senador ao resgatar seu histórico no Rio de Janeiro, em reportagem sobre a acusação de que Flávio esteve “sempre ligado à milícia”. A Fórum também detalhou os elos políticos entre o senador e Domingos Brazão no texto sobre as relações entre Flávio Bolsonaro e Domingos Brazão.
É nesse contexto que Eduardo Cunha volta a aparecer ao lado do clã Bolsonaro. O ex-presidente da Câmara ajuda a lembrar como o bolsonarismo cresceu: apoiado em operadores do Centrão, no colapso político produzido pelo impeachment e na radicalização aberta por Jair Bolsonaro no plenário da Câmara. Flávio Bolsonaro pode tentar esconder a foto. Mas a aliança política que ela revela é antiga.
Assessoria/ Diego Feijó de Abreu/Revista Forum/Caminho Político
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