Deputado Dr. João José

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Mato Grosso no Coração

terça-feira, 14 de julho de 2026

Rouanet da direita? Costa Neto pagou show sertanejo com emenda suspeita

Uma emenda parlamentar de R$ 280 mil, atribuída pela Polícia Federal (PF) ao presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, foi utilizada integralmente para pagar um show da dupla sertaneja Thaeme & Thiago durante a 21ª Festa do Peão de Boiadeiro de Guaimbê, cidade de cerca de 5,5 mil habitantes no interior de São Paulo. O caso integra uma investigação que apura a suposta influência de dirigentes partidários sem mandato eletivo na destinação de recursos do Orçamento da União.
Segundo a PF, embora a emenda esteja oficialmente registrada em nome do líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), a indicação teria partido de Valdemar Costa Neto. Os investigadores sustentam que parlamentares da legenda eram utilizados para formalizar solicitações previamente definidas pelo presidente do partido.
Na semana passada, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou o bloqueio de R$ 119,2 milhões em bens de Valdemar e suspendeu a execução das despesas relacionadas às emendas investigadas.
Recurso federal custeou integralmente apresentação
Documentos obtidos durante a investigação mostram que o Ministério do Turismo firmou um convênio de R$ 280 mil com a Prefeitura de Guaimbê para financiar a realização da tradicional Festa do Peão de Boiadeiro.
Na prática, todo o valor foi destinado ao pagamento do cachê da dupla Thaeme & Thiago. A contratação ocorreu por inexigibilidade de licitação, modalidade prevista quando há inviabilidade de competição, e a apresentação aconteceu em 8 de novembro de 2025, com duração aproximada de uma hora e meia.
A nota fiscal emitida pela empresa THM & THG Produções Artísticas registra o recebimento de R$ 280 mil e faz referência direta ao convênio firmado com o Ministério do Turismo. Os documentos permitem reconstituir todo o percurso do dinheiro: o recurso saiu da União, foi transferido ao município e, em seguida, utilizado exclusivamente para remunerar a apresentação artística.
O convênio previa contrapartida simbólica da prefeitura, de apenas R$ 500. No plano de trabalho apresentado ao ministério, a administração municipal justificou que o evento contribuiria para incentivar o turismo, fortalecer o comércio local e preservar as tradições culturais da cidade.
Prefeita diz que desconhecia origem da verba
A prefeita de Guaimbê, Márcia Helena Pereira Cabral Achilles, afirmou que não sabia que o dinheiro tinha origem em uma emenda parlamentar atribuída a Valdemar Costa Neto.
Segundo ela, acreditava tratar-se de um programa regular do Ministério do Turismo voltado ao incentivo de eventos culturais em municípios de pequeno porte.
A prefeita também defendeu a utilização dos recursos, alegando que cidades com poucos habitantes têm dificuldades para organizar grandes eventos sem apoio financeiro da União. Sobre o cachê da dupla, afirmou que os valores praticados no mercado costumam ser ainda mais elevados e que a contratação depende da aprovação do próprio Ministério do Turismo.
Outros shows também foram financiados
A investigação aponta que o caso de Guaimbê não foi isolado.
Em Macedônia, também no interior paulista, uma emenda de R$ 220 mil foi utilizada para custear integralmente as atrações musicais das comemorações pelos 79 anos do município. Desse total, R$ 190 mil foram destinados ao show da cantora Mariana Fagundes e R$ 30 mil à dupla Neto & Jr.
Outro convênio identificado ocorreu em Cafelândia, no Paraná. O Ministério do Turismo liberou R$ 290 mil para as festividades do aniversário da cidade. A principal atração voltou a ser a dupla Thaeme & Thiago, contratada por R$ 291 mil para uma apresentação de aproximadamente 90 minutos.
Em todos os casos, os documentos oficiais registram o deputado Sóstenes Cavalcante como apoiador ou solicitante da emenda vinculada à Comissão de Turismo da Câmara dos Deputados, embora a Polícia Federal sustente que as indicações eram definidas por Valdemar Costa Neto.
Cachês aumentaram nos últimos anos
Contratos públicos analisados pelo Globo mostram uma evolução significativa nos valores cobrados pela dupla Thaeme & Thiago.
Em 2019, a apresentação em Rio Bananal (ES) custou R$ 116 mil. Três anos depois, Parapuã (SP) contratou o show por R$ 140 mil. Em 2023, Araranguá (SC) pagou R$ 130 mil, enquanto São Sebastião do Rio Verde (MG) desembolsou R$ 200 mil em 2025.
Nos convênios agora investigados, os cachês chegaram a R$ 280 mil em Guaimbê e R$ 291 mil em Cafelândia.
Defesa de Sóstenes
Procurado, o deputado Sóstenes Cavalcante afirmou que as emendas atribuídas ao seu nome seguem o rito das comissões permanentes da Câmara e que as decisões são compartilhadas entre seus integrantes.
Segundo ele, as indicações não representam decisão individual, mas resultado das deliberações dos colegiados responsáveis pela aprovação das emendas.
Valdemar Costa Neto não respondeu aos questionamentos encaminhados pela reportagem. O Ministério do Turismo e a assessoria da dupla Thaeme & Thiago também não se manifestaram.
STF vê risco de desvirtuamento das emendas
Nos bastidores do Supremo Tribunal Federal, ministros demonstram preocupação com o que consideram um possível desvirtuamento do sistema de emendas parlamentares.
A avaliação é que pessoas sem mandato eletivo não podem exercer influência direta sobre a destinação de recursos públicos. Para integrantes da Corte, os casos investigados reforçam a necessidade de ampliar os mecanismos de controle e transparência na execução das verbas federais.
Eduardo Cunha também é alvo da investigação
A apuração da Polícia Federal também envolve o ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (Republicanos-MG).
Segundo os investigadores, Cunha teria direcionado R$ 6,1 milhões em emendas parlamentares para municípios mineiros mesmo sem exercer mandato. Parte dessas cidades coincide com localidades onde o ex-deputado vem adquirindo emissoras de rádio como parte de sua estratégia para ampliar sua presença política em Minas Gerais, estado onde pretende disputar uma vaga na Câmara dos Deputados.
A Polícia Federal afirma que Cunha atuava como verdadeiro responsável pelas indicações, enquanto parlamentares apareciam formalmente como autores das emendas.
Prefeitos atribuíram recursos a Cunha
Em Varjão de Minas, o prefeito Rafael de Toni (PL) agradeceu publicamente a Eduardo Cunha pelo envio de R$ 590 mil destinados à atenção primária da saúde. Na divulgação oficial, o ex-presidente da Câmara foi identificado como responsável pela emenda, apesar de estar sem mandato desde 2016.
Situação semelhante ocorreu em Piau (MG), onde o presidente da Câmara Municipal, Mica Carvalho (MDB), afirmou ter articulado, ao lado de Cunha, o envio de R$ 300 mil para a saúde do município.
Já em Guarani (MG), cidade onde Cunha adquiriu uma emissora de rádio posteriormente incorporada à Rede Maravilha, uma emenda de R$ 250 mil também aparece entre os recursos que, segundo a PF, foram indicados pelo ex-deputado.
Outro caso citado pela investigação envolve Raul Soares (MG), município contemplado com quase R$ 473 mil em recursos públicos e onde Cunha também adquiriu uma emissora com planos de expandir sua cobertura para cidades maiores da região.
Cunha nega irregularidades
Eduardo Cunha rejeita as acusações e afirma que nunca indicou emendas parlamentares.
Segundo o ex-deputado, sua atuação limitou-se a sugerir projetos a parlamentares da bancada, responsáveis pela decisão final sobre a destinação das verbas.
Na decisão que determinou o bloqueio de R$ 6,1 milhões em bens de Cunha, o ministro Flávio Dino afirmou haver indícios de que o ex-presidente da Câmara exercia “acentuada ingerência” sobre recursos públicos sem ocupar cargo eletivo.
“Não sou autor de emenda nenhuma, nem posso sê-lo. Sou parte da sociedade, assim como os prefeitos que me procuram e pedem recursos”, declarou Cunha ao rebater as conclusões da investigação.
Assessoria/Julinho Bittencourt/Caminho Político
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