Candidato do PL apareceu no registro da Justiça Eleitoral como membro de novo partido, derivado do MBL. TSE descarta ataque hacker, atribuindo cadastro a uso indevido de credenciais. A dois dias do prazo, o senador Flávio Bolsonaro não conseguiu registrar de primeira a sua candidatura à Presidência da República. O Partido Liberal (PL) afirmou ter sido surpreendido ao descobrir que o seu escolhido para as eleições deste ano estava registrado, na verdade, como filiado ao Missão no sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O presidente do tribunal eleitoral, Kassio Nunes Marques, rapidamente interveio, determinando que a filiação de Flávio ao PL fosse reestabelecida e que fosse apagado o vínculo com o Missão do seu histórico partidário. Horas depois, o PL cadastraria a candidatura de Flávio com sucesso.
Derivado do Movimento Brasil Livre (MBL), o Missão já tem candidato próprio, Renan Santos, que concorrerá pela primeira vez à chefia do Planalto. O partido afirmou ter sido alvo de fraude, negando nutrir interesse em ser associado a Flávio. A filiação partidária é requisito para concorrer a cargos políticos no Brasil.
Mesmo com as repercussões já contidas, o imbróglio gerou troca de farpas entre os dois partidos, que negam ambos responsabilidade pela filiação indevida. Veio à luz ainda, pelo próprio TSE, que também o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), fora alvo de uma tentativa de alteração de partido.
Missão sabia da filiação fraudulenta
O Missão esclareceu, em nota, que já tinha conhecimento dos esforços para filiar Flávio ao partido desde o início do mês. Uma tentativa inicial teria ocorrido em 2 de agosto. A modalidade de cadastro selecionada previa contribuição financeira para o partido, com um Pix de R$ 4.789,68.
Houve, segundo o Missão, duas tentativas de pagamento não concluídas. O cadastro, portanto, não foi finalizado, e o senador foi notificado por email.
"O gabinete de Flávio foi informado dessa tentativa de filiação desde o dia 2 deste mês (agosto). Consta em nosso sistema que os e-mails enviados foram abertos, mas não foram respondidos", disse o Missão.
Dez dias depois, houve uma segunda tentativa, desta vez sem pagamento atrelado. Havia, entretanto, disparidade entre o CPF citado pelo cadastro e o CPF atrelado ao título eleitoral de Flávio. O partido, então, notificou o TSE, que, mesmo assim, aprovou o registro no próprio sistema.
"Nosso sistema, ao notar a fraude, tentou realizar no mesmo dia o cancelamento da filiação, ação que foi rejeitada pelo TSE", prosseguiu o Missão, em nota.
Flávio: "Equipe achou que era spam"
Ao comentar o caso numa transmissão pelas redes sociais, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro disse que a sua equipe ignorara as mensagens enviadas pelo Missão por pensar que se tratava de uma comunicação falsa.
"Chegou (sic) no meu gabinete alguns e-mails automáticos desse partido. Como ninguém conhece, acaba que a assessoria vê aquilo e acha que é spam", afirmou.
O Missão, que apresentou reproduções de tela mostrando as mensagens enviadas a Flávio, já havia oficializado a candidatura de Santos em 1º de agosto, com um evento de lançamento de campanha realizado em São Paulo.
O partido ainda acrescentou que não é do seu interesse "acolher em seus quadros um parlamentar que, para além do desalinhamento ideológico, figura em acusações e suspeitas de envolvimento em esquemas de corrupção".
TSE afasta suspeita de ataque hacker
Por sua vez, o TSE negou que a filiação de Flávio tenha sido "fruto de hackeamento do seu sistema de filiação partidária, mas sim de uso indevido da ferramenta por parte de alguém que possuía as credencias da legenda para efetivar filiações."
A mesma teoria é alavancada por Santos, que escreveu numa rede social: "Nós temos como comprovar que alguém acessando o e-mail do Flávio apertou o botão de confirmação da filiação e ainda apertou o botão para acessar nosso app de militância."
À imprensa, o Missão disse ainda que o endereço cadastrado junto à filiação de Flávio era: "Rua Dos Bandidos, n° 666, Bairro Miliciano, Rio de Janeiro/RJ".
O partido diz que "já está adotando todas as providências cabíveis junto à Polícia Federal e ao TSE, a fim de que os responsáveis pelo crime e pela fraude sejam identificados e exemplarmente punidos".
Reagindo ao caso, a defesa de Flávio disse ao canal Globonews que se tratava de fraude inequívoca, sem apontar uma causa para o cadastro indevido. Ela citou as possibilidades de ataque hacker, roubo de senha ou de "alguém que entrou no sistema dolosamente".
O próprio candidato disse que "o sistema vai tentar de tudo para me parar, mas não vai conseguir". "Tenho uma má notícia para vocês que só sabem jogar sujo: não funcionou e nem vai funcionar", acrescentou numa rede social.
Casos anteriores
A desconfiança no sistema eleitoral é pauta cara à família Bolsonaro, tendo inclusive motivado os atos golpistas de 2023.
Em nota, o TSE acrescentou que Nunes Marques, enquanto presidente da Corte, "determinou que fossem apuradas tentativas de burla com nomes de outros candidatos à Presidência".
Foi detectada, então, a tentativa de alterar a filiação partidária de Lula, que nunca foi efetivada. Os dois candidatos estão com a situação regularizada, segundo a Justiça eleitoral.
O processamento de novas filiações partidárias foi, então, suspenso, a fim de evitar mais episódios da mesma natureza. O prazo para candidatos trocarem de partido para as eleições deste ano já se encerrara em 4 de abril, o que evita prejuízo ao pleito.
Outros casos semelhantes de tentativas de filiação fraudulenta já ocorreram com o presidente Lula e o ex-presidente Bolsonaro. Em 2023, quando já cumpria o terceiro mandato, o nome do petista apareceu no registro do TSE como candidato do PL. A Polícia Federal concluiria mais tarde que a obra era de autoria de um adolescente de 13 anos, que inserira dados falsos no sistema da Justiça Eleitoral.
Antes, em 2020, vazaram dados pessoais de Bolsonaro, que também ocupava o posto de presidente à época, o que levou a uma tentativa de filiação dele ao PT. O partido, entretanto, não permitiu a fraude. Nenhum destes casos, entretanto, ocorreu em período eleitoral.
ht/md (ots)Caminho Político
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