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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Coco Chanel e o nazismo: a moda de luxo a serviço da barbárie

Trajetória da estilista francesa revela vínculos com regime nazista, espionagem, antissemitismo e disputas empresariais durante a Segunda Guerra Mundial.
Há 143 anos, em 19 de agosto de 1883, nascia a estilista e empresária francesa Coco Chanel, uma das figuras mais influentes da história da moda. Ela foi responsável por construir um império bilionário no mercado de luxo e ajudou a renovar o vestuário feminino, popularizando roupas mais simples e funcionais.
Se a contribuição de Chanel para a moda é bem conhecida, há outro aspecto de sua biografia que costuma receber bem menos atenção. Chanel foi uma simpatizante e colaboradora ativa do regime nazista. Ela atuou como espiã do serviço de inteligência de Hitler e manteve por vários anos um relacionamento amoroso com Hans Günther von Dincklage, um oficial da Abwehr. Coco Chanel participou da Operação Modellhut, uma missão de oficiais da SS que previa uma negociação secreta entre o regime nazista e o governo de Winston Churchill. Ela também recorreu às leis de arianização para tentar se apoderar da empresa que criou em sociedade com os irmãos judeus Wertheimer. Após a guerra, Chanel comprou o silêncio de Walter Schellenberg, oficial da SS, para que ele não a denunciasse em suas memórias.
Da miséria ao mundo da alta costura
Gabrielle Bonheur Chanel nasceu em Saumur, na região do Vale do Loire, filha do vendedor ambulante Albert Chanel e da lavadeira Eugénie Jeanne Devolle. A família vivia em condições precárias, dividindo o único cômodo de um cortiço. Aos 11 anos, Gabrielle perdeu a mãe, vitimada pela tuberculose. O pai decidiu então entregá-la, junto com suas irmãs, para um orfanato de freiras em Aubazines, na Nova Aquitânia.
Aos 18 anos, Chanel deixou o orfanato e se mudou para Moulins, onde começou a trabalhar como costureira — ofício que aprendera com as freiras de Aubazine. Ela também passou a fazer bicos como cantora de cabaré e acabou por se tornar uma atração no café La Rotonde, onde se apresentava sob o nome artístico de “Coco Chanel”.
A presença nos palcos permitiu que Chanel se relacionasse com homens ricos e poderosos, incluindo o industrial Étienne Balsan e o jogador de polo Boy Capel. Balsan a levou para viver em um opulento château nos arredores de Compiègne e a introduziu nos círculos aristocráticos. Capel, por sua vez, impulsionou a carreira de Chanel como estilista, financiando a abertura de suas primeiras lojas de chapéus em Paris.
Chanel rapidamente se consagrou no mundo da moda. Seus chapéus elegantes adornaram celebridades como a atriz Gabrielle Dorziat e estamparam um ensaio na revista “Les Modes”. Em 1913, ela abriu uma boutique em Deauville, onde passou a comercializar acessórios e roupas de luxo.
Entre as décadas de 1910 e 1920, Chanel ajudaria a revolucionar o vestuário feminino na França. A estilista contestou várias das tendências então vigentes, desde os vestidos confeccionados com tecidos pesados até o culto à chamada “silhueta de espartilho”.
Chanel apostava em roupas mais simples, leves, adaptadas à vida urbana na era industrial. Também costumava incorporar elementos funcionais da moda masculina. Produzia roupas práticas em malha de jersey, tailleurs, calças femininas, vestidos pretos, peças sóbrias e elegantes, inaugurando a estética do “little black dress”.
Chanel Nº 5
Em 1924, já estabelecida como um ícone da alta costura, Chanel firmou uma sociedade com os irmãos judeus Pierre e Paul Wertheimer, proprietários da Bourjois, então a maior empresa de cosméticos da França. O acordo previa que os Wertheimer assumiriam o financiamento integral da produção, distribuição e marketing de uma nova marca de perfumes — a Chanel Nº 5. Os irmãos ficariam com 70% dos lucros da empresa “Parfums Chanel”. Coco Chanel teria uma participação minoritária ao lado de Théophile Bader, o intermediário das Galeries Lafayette.
O Chanel Nº 5 se tornou um sucesso internacional, figurando entre as marcas mais valorizadas e lucrativas do mundo. Chanel, no entanto, considerava que sua participação nos lucros era injusta. Ela tentou renegociar os termos da parceria repetidas vezes e chegou a processar seus sócios, mas não obteve sucesso.
O ressentimento que Chanel nutria pelos irmãos Wertheimer acabou se convertendo em um profundo antissemitismo. A estilista deu diversas declarações de ódio aos judeus ao longo dos anos 30 e foi descrita como uma “antissemita virulenta” em relatórios dos órgãos de inteligência da França. Chanel também financiava a revista “Le Témoin”, um boletim de extrema-direita que veiculava ataques inflamados aos judeus, aos imigrantes e aos comunistas.
A colaboração com os nazistas
O antissemitismo exaltado de Coco Chanel acabou por transformá-la em uma simpatizante das ideias nazistas. Após o início da Segunda Guerra Mundial e a ocupação da França pelas tropas de Adolf Hitler, a estilista passou a viver no Hotel Ritz — isto é, o mesmo endereço que havia sido convertido em quartel general do alto oficialato alemão.
Sob o pretexto de que “não era o momento para pensar em moda”, Chanel mandou fechar sua casa de alta costura em Paris e demitiu 4.000 trabalhadores de uma só vez. Alguns autores especulam que a decisão teria sido uma retaliação por uma greve que os funcionários haviam organizado em 1936, reivindicando melhores salários e jornadas mais curtas.
Durante sua estadia no Hotel Ritz, Chanel iniciou um relacionamento amoroso com o barão Hans Günther von Dincklage, um oficial da Abwehr (serviço secreto do Terceiro Reich), conhecido pelos vínculos com a Gestapo e com a Schutzstaffel (SS). Dincklage vivia em Paris desde os anos 30, atuando como agente da propaganda nazista de Joseph Goebbels. Ele era um espião profissional, com acesso a linhas telefônicas diretas, máquinas de criptografia e redes de informação espalhadas pela França.
Coco Chanel também atuaria como espiã a serviço do regime nazista. Ela foi registrada como agente da Abwehr sob o número F-7124 e usava o codinome “Westminster” — uma referência a Hugh Grosvenor, o duque de Westminster, com quem a estilista teve um caso na década de 1920. Em troca de sua colaboração com o Terceiro Reich, Chanel exigiu a libertação de seu sobrinho, André Palasse, então prisioneiro do Exército Alemão.
Em 1941, Dincklage apresentou Coco Chanel ao barão Louis de Vaufreland, outro agente da Abwehr. Posteriormente, a estilista acompanhou Vaufreland em uma missão em Madri, que tinha por objetivo cooptar apoio do governo espanhol às tropas do Eixo. Chanel também se envolveu na Operação Modellhut, uma iniciativa dos oficiais da SS. O plano era utilizar as conexões de Chanel com o premiê britânico Winston Churchill para negociar uma paz separada entre a Alemanha e o Reino Unido.
Como parte da missão, Chanel se reuniu com Walter Schellenberg, chefe de inteligência da SS e braço direito de Heinrich Himmler, um dos principais dirigentes do regime nazista. Ela também recrutou sua amiga, Vera Bate Lombardi, para servir como intermediária na missão. A operação acabou fracassando após Lombardi denunciar o plano às autoridades britânicas.
A ofensiva pela Parfums Chanel
Coco Chanel se aproveitou de sua parceria com os nazistas para tentar se apoderar da “Parfums Chanel”, apelando às leis de arianização. Implementadas pelo regime colaboracionista de Vichy e aplicadas nas regiões sob ocupação nazista, essas leis determinavam que as empresas e propriedades pertencentes a judeus deveriam ser expropriadas e transferidas para cidadãos “arianos”.
Em maio de 1941, Chanel escreveu uma carta ao administrador alemão dos bens judeus, identificando-se como “ariana” e reivindicando o controle pleno sobre a empresa que criara em sociedade com os irmãos Wertheimer: “A Parfums Chanel ainda é propriedade de judeus e foi legalmente abandonada pelos proprietários. Tenho um direito indiscutível de prioridade. (…) Os lucros que recebi de minhas criações desde a fundação deste negócio são desproporcionais. Vocês podem ajudar a reparar em parte os prejuízos que sofri no curso desses 17 anos.”
Chanel pressionou seus contatos junto ao alto comando alemão e recorreu a advogados ligados ao regime colaboracionista, incluindo René de Chambrun, genro de Pierre Laval, o primeiro-ministro da França de Vichy. Os Wertheimer, contudo, haviam se antecipado. Antes de fugirem para Nova York, os irmãos transferiram legalmente o controle da empresa a Félix Amiot, um industrial francês.
As autoridades nazistas se recusaram a intervir no caso, uma vez que Amiot também era um colaborador ativo do Terceiro Reich, fornecendo armas e aviões para o esforço de guerra. Os Wertheimer continuaram produzindo o Chanel Nº 5 nos Estados Unidos. Após o término do conflito, Amiot devolveu aos irmãos o controle da empresa.
Em 1947, os Wertheimer negociaram um novo acordo com Chanel. A estilista recebeu uma indenização significativa correspondente à participação dos lucros no período da guerra, além de royalties de 2% sobre as vendas mundiais do perfume. Os irmãos também concordaram em custear todas as despesas pessoais de Chanel até o fim da vida.
Pós-guerra e reabilitação
Após a libertação de Paris do domínio nazista em agosto de 1944, Chanel foi interrogada pelo Comitê de Depuração das Forças Francesas do Interior. As autoridades a questionaram acerca de suas ligações com a Abwehr, os oficiais nazistas e o barão Louis de Vaufreland.
A estilista acabou sendo liberada sem a instalação de um inquérito formal. Alguns autores afirmam que Chanel teria sido protegida por contatos poderosos, incluindo, possivelmente, Winston Churchill, que temia revelações sobre simpatizantes do regime nazista na realeza britânica, a começar pelo duque de Windsor.
Em 1945, Chanel se mudou para a Suíça, onde reencontrou seu amante, o barão Dincklage. Eles viveram em hotéis de luxo de Lausanne por vários anos, sustentados pelos royalties do Chanel Nº 5. Apoiador do regime fascista de Francisco Franco, Dincklage se mudou posteriormente para a Espanha, onde viveu até sua morte em 1974.
Chanel também manteve contato com outros colaboradores e oficiais do regime nazista no pós-guerra. Em 1951, quando Walter Schellenberg foi libertado por problemas de saúde e anunciou que publicaria um livro com suas memórias, a estilista interveio imediatamente. Chanel pagou todas as despesas médicas e assegurou que daria apoio financeiro à família. Era uma maneira de comprar o silêncio do oficial nazista, impedindo que ele revelasse detalhes comprometedores de seu envolvimento com as missões de espionagem da Abwehr.
Em 1954, Coco Chanel decidiu reabrir sua casa de moda em Paris. Mais uma vez, foram os irmãos Wertheimer que financiaram a empreitada, visando consolidar o controle sobre o nome e a marca. A iniciativa foi criticada pela imprensa francesa, ainda receosa em relação aos vínculos entre a estilista e os nazistas. O mercado norte-americano, no entanto, acolheu Chanel de braços abertos.
Aos poucos, a imagem pública da “grande dama da moda” foi reconstruída. As declarações antissemitas e a colaboração com os nazistas foram apagadas ou relativizadas como contradições inevitáveis de “tempos difíceis”. Houve até mesmo tentativas de forjar vínculos imaginários entre Coco Chanel e a Resistência Francesa.
Coco Chanel retornou ao Hotel Ritz, onde viveu até sua morte em 10 de janeiro de 1971, aos 87 anos. A marca Chanel, até hoje controlada pela família Wertheimer, segue como um dos impérios mais lucrativos do mercado de luxo. Somente entre 2021 e 2023, os Wertheimer receberam US$ 12,4 bilhões em dividendos.
Assessoria/Estevam Silva/São Paulo/Caminho Político
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