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domingo, 23 de agosto de 2026

‘Palestinas são vozes incontestes dos movimentos anticoloniais’, afirma nova presidente da Fepal

Desde a segunda semana de agosto, a Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal) passou a ter uma mulher na presidência, pela primeira vez em sua história. Se trata de Fátima Ali, descendente de imigrantes palestinos que deixaram a Cisjordânia, nasceu no Rio Grande do Sul e considerada uma das pioneiras na organização da juventude e das mulheres palestinas no Brasil.
Ali assume o cargo em decorrência do afastamento temporário de Ualid Rabah para disputar as eleições de 2026, ele concorre ao cargo de deputado federal pelo estado do Paraná. A Opera Mundi, a nova presidente da Fepal recorda sua trajetória e engajamento nas causas da comunidade palestina no Brasil, enfatizando a “responsabilidade de preservação da identidade, solidariedade e compromisso com a justiça”. “Sempre vivemos organizados nas comunidades, este foi um dos tantos legados que nos foi deixado pelos primeiros palestinos que aqui chegaram”.
Segundo Ali, é um desafio de ser a primeira mulher a comandar a entidade que representa a comunidade palestina no Brasil, e sobre o papel das mulheres na luta pela causa.
“As mulheres palestinas desempenham papel central no movimento, na preservação da memória, da cultura, das famílias e da identidade diante de décadas de violência e deslocamento contra o nosso povo. Precisamos destacar a força dessas mulheres cujas vidas são de luta contínua por justiça e liberdade, portanto são pilares da resistência”, disse.
Opera Mundi: como foi sua chegada à presidência da Fepal e o que significa ser a primeira mulher a comandar a entidade?
Fátima Ali: é o resultado de uma estratégia política de organização da participação feminina. A direção eleita no 10º Congresso, realizado em 2019, teve quase 40% de seus cargos ocupados por mulheres, eu estava na vice-presidência. A composição foi praticamente reproduzida na direção eleita no 11º Congresso, em 2024, congresso com a maior participação de delegadas mulheres na história da Fepal.
Importante destacar que as mulheres palestinas têm sido vozes incontestes dos movimentos anticoloniais ao longo da nossa história. A Nakba faz parte da vida do povo palestino, as mulheres, geração após geração, compõem o movimento, preservam nossa memória e nossa identidade. Nossa força e engenhosidade feminina nos tornam agentes de transformação e da resistência, mesmo diante das narrativas preconceituosas, das tentativas de silenciamento e da cegueira do mundo.
Chegar na presidência da Fepal é, portanto, o resultado construído pelo coletivo de que nos manteremos firmes contra o sistema que, diariamente, submete o povo palestino à segregação, ao genocídio e a privação de direitos humanos.
Seu pai migrou para o Brasil em razão da invasão sionista em Nablus, na Cisjordânia. Como foi esse processo?
A primeira migração para o Brasil ocorreu no início do século 20, sendo a maioria cristã. Na década de 1950 a migração palestina para o Brasil é expressiva, resultado ocupação em 1948 e o cenário de horrores instalados na Palestina Histórica, estima-se que 700 mil palestinos foram deslocados.
Neste contexto chega meu pai no final da década de 50, não como refugiado, mas como imigrante, na busca de melhores condições de vida, como registro um documento de identidade no qual há o registro de “sem nacionalidade”. Nossa família, de pequenos agricultores de uma pequena cidade da região norte da Palestina, Asira ash-Shamaliya, província de Nablus, meu pai, naquela época, um jovem que foi vítima do deslocamento forçado.
Essa história não se distancia da realidade do povo palestino, que muitas vezes ao longo de sua história passa por vários refúgios. No Brasil, quase não há dados registrados sobre a formação de identidade étnica palestina.
Sua família ainda tem parentes na Cisjordânia?
Sim, ainda temos alguns parentes que vivem na região.
Você nasceu em Sant’Ana do Livramento, no Rio Grande do Sul. Quando inicia sua militância na causa palestina? Como foi sua formação e aproximação com a Fepal?
Iniciei a militância no Rio Grande do Sul, tenho dificuldades em precisar a idade, mas muito jovem, estar em diáspora nos desafia para responsabilidade de preservação da identidade, da solidariedade e do compromisso com a justiça. Sempre vivemos organizados nas comunidades, este foi um dos tantos legados que nos foi deixado pelos primeiros palestinos que aqui chegaram.
A Fepal foi fundada em 1979, representando a diáspora palestina no Brasil e suas organizações. Hoje somos constituídos por ao menos 200 mil.
Como você observa o apoio à causa palestina na sociedade brasileira atualmente?
Vivemos um período de extrema polarização, no qual as obrigações que protegem o povo palestino são revogadas aumentando a responsabilidade perante ao direito internacional e o cenário do maior genocídio da história da humanidade. Destaco:
A Carta da ONU e as resoluções 181, 194, 242 e 338, que asseguram a autodeterminação, o direito de retorno e a inadmissibilidade da aquisição de território pela força.
A Quarta Convenção de Genebra (artigos 33 e 49), que proíbe punições coletivas e a transferência forcada de população.
A Convenção sobre o Genocídio (1948), cuja violação está sob exame da Corte Internacional de Justiça (CIJ), no caso África do Sul x Israel, com medidas provisórias ordenadas desde julho de 2024.
O parecer consultivo da CIJ de julho de 2024, que declarou a ocupação e os colonatos ilegais e impôs a todos os Estados de não reconhecer, não auxiliar e não prestar assistência à situação ilícita.
O Estatuto de Roma, que fundamenta os mandados de prisão do Tribunal Penal Internacional (TPI), e a Convenção Americana sobre Direitos Humanos, que vincula os Estados do Contínua.
Diante do período eleitoral que se aproxima, no qual a questão palestina pode se tornar um elemento da campanha, qual é o papel que a Fepal deve exercer?
Primeiro de que a causa palestina é uma questão do direito internacional, não somente de ciclo eleitoral. O período também deve ser analisado com atenção sobre as recentes mudanças políticas no continente: a vitória da extrema direita na Argentina e recentemente na Colômbia, apoiados pelo retorno de Donald Trump à Casa Branca, com plano de assumir o controle de Gaza e o deslocamento de palestinos.
Os palestinos em diáspora no Brasil devem cumprir a sua cidadania e defender a Soberania deste país que nos acolhe, essa é uma diretriz política que herdamos de Yasser Arafat: “um bom palestino deve ser um bom cidadão no país que o acolhe”.
Há candidatos nestas eleições que estão sendo apoiados pela Fepal?
A Fepal, como entidade plural e não partidária não indica voto especificamente, apenas recomenda que sejam apoiados candidatos/as que apoiam a questão palestina explicitamente e que se comprometam, se eleitos, a fazerem de seus mandatos instrumentos de apoio ao povo palestino.
Importante lembrar que assumo a presidência da Fepal após a licença de Ualid Rabah, que disputará uma vaga na Câmara dos Deputados nas eleições de 2026.
Ser uma mulher na liderança de uma instituição da comunidade árabe significa enfrentar preconceitos? Significa também, talvez, ter a missão de desfazer certos mitos a respeito do papel da mulher nessa comunidade?
As mulheres palestinas desempenham papel central no movimento, na preservação da memória, da cultura, das famílias e da identidade diante de décadas de violência e deslocamento contra o nosso povo. Precisamos destacar a força dessas mulheres cujas vidas são de luta contínua por justiça e liberdade, portanto são pilares da resistência.
Podem estar cercadas de preconceitos, mas utilizo aqui as palavras do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em seu discurso na ONU, em 23 de setembro de 2025: “a moral ocidental é seletiva, a indignação tem fronteiras e a compaixão conhece passaporte”. Nós somos frutos deste processo, de forma brutal enfrentamos preconceitos que apagam, inclusive a tristeza e o desespero vivenciados no processo de limpeza étnica.
A presidência, nesse sentido, é então parte da nossa história de resistência política e social, portanto estratégico e de trajetória coletiva.
Assessoria/Victor Farinelli/Caminho Político
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