Deputado Estadual Dr. João José

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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Testemunhas de Hiroshima alertam contra rearmamento do Japão

Ataque nuclear completa 81 anos nesta quinta-feira. Citando ameaças regionais, governo vai deixando para trás princípios pacifistas do pós-Segunda Guerra Mundial. Esta quinta-feira (06/08) marca o 81º aniversário do ataque nuclear a Hiroshima. Em 6 de agosto de 1945, os Estados Unidos lançaram uma bomba atômica sobre a cidade japonesa de Hiroshima, nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial, matando cerca de 80 mil pessoas na explosão inicial. Três dias depois, os EUA lançariam uma bomba sobre Nagasaki.
"O Japão adotou uma Constituição pacifista em reflexão à Segunda Guerra", observa Masako Wada, secretária-geral adjunta da Nihon Hidankyo, a Confederação Japonesa das Organizações de Sobreviventes das Bombas A e H.
Segundo ela, que sobreviveu ao bombardeio de Nagasaki quando tinha 1 ano de idade, o Japão "conquistou a confiança da comunidade internacional como um país que prometeu nunca mais travar uma guerra".
Agora, oito décadas depois, Wada teme que o atual governo destrua este legado, tendo em vista os recentes esforços do Japão para se afastar de anos de pacifismo rigoroso no período pós-guerra.
Nos últimos tempos, o Japão aumentou os gastos com defesa, flexibilizou restrições à exportação de armas e ampliou o papel das Forças Armadas, citando riscos crescentes representados por China, Coreia do Norte e Rússia.
"O recente fortalecimento militar do Japão não é diferente de recriar a corrida armamentista que levou o país ao caminho da Segunda Guerra", destaca Masashi Ieshima, de 84 anos, que sobreviveu ao bombardeio de Hiroshima aos três anos de idade.
Medo de uma nova guerra
Ieshima brincava na entrada de sua casa, a apenas dois quilômetros do hipocentro da explosão, quando a detonação estilhaçou todas as janelas da residência, lançando fragmentos de vidro contra sua mãe.
Setenta anos depois, ele foi submetido a uma cirurgia para tratar um câncer de tireoide, oficialmente reconhecido como uma doença relacionada à bomba atômica. Seu pai, que também foi exposto à radiação do bombardeio de Hiroshima, morreu de câncer de laringe.
"Fico indignado ao ver o Japão justificar seu fortalecimento militar e a flexibilização das restrições à exportação de armas pela possibilidade de um conflito em Taiwan", diz Ieshima, que é presidente do braço da Nihon Hidankyo em Tóquio. "Se o Japão continuar por esse caminho, isso poderá levar à guerra. E, se outra guerra eclodir, acredito que será uma guerra nuclear".
A idade média dos sobreviventes das bombas atômicas do Japão, conhecidos como hibakusha, já chega a quase 87 anos. Eles enfrentam o desafio urgente de transmitir seus testemunhos e seus apelos pela paz às gerações mais jovens, incluindo filhos, netos e apoiadores.
Takako Nakamura, sobrevivente de segunda geração da bomba atômica de Nagasaki, começou a atuar ativamente para disseminar o testemunho da própria família em fevereiro de 2026, após se aposentar.
"As pessoas morreram sem deixar vestígios, nem mesmo seus ossos permaneceram. Essa é a verdadeira natureza da bomba atômica", ressalta à DW a mulher de 73 anos, com a voz embargada.
Princípios antinucleares sob risco
Na terça-feira, o ministro da Defesa do Japão, Shinjiro Koizumi, afirmou que o país precisa fortalecer suas capacidades militares com um "senso de urgência e crise". Uma nova avaliação governamental voltou a destacar riscos crescentes vindos das potências armamentistas asiáticas, segundo a agência AFP.
À DW, o Ministério da Defesa japonês disse que quer ampliar seu poder de dissuasão, mantendo ao mesmo tempo sua política exclusivamente defensiva. A pasta citou um ambiente de segurança cada vez mais severo, incluindo a expansão militar da China e suas atividades nos mares da China Oriental e Meridional e nos arredores de Taiwan.
Desde que assumiu o cargo, em outubro de 2025, a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, introduziu uma série de medidas para reforçar as capacidades de defesa. Seu governo também flexibilizou, em abril de 2026, as restrições à exportação de armamentos, passando a permitir a venda de armas letais.
O governo também considera revisar o tradicional compromisso japonês com os três princípios antinucleares: não possuir, não produzir e não permitir a entrada de armas nucleares em território japonês.
O fator China
Em novembro de 2025, Takaichi afirmou que um eventual ataque militar chinês a Taiwan poderia constituir uma "situação que ameaça a sobrevivência" do Japão, permitindo potencialmente a Tóquio exercer seu direito legal à autodefesa coletiva.
No entanto, o argumento de que o Japão precisa fortalecer suas forças armadas porque a China poderia invadi-lo ou invadir Taiwan "não convence" a opinião pública japonesa, destaca Koichi Nakano, professor de ciência política da Universidade Sophia, em Tóquio.
As atividades militares da China, incluindo sua expansão marítima, permanecem limitadas quando comparadas à guerra da Rússia na Ucrânia e aos ataques dos EUA contra o Irã, disse ele à DW.
"O Japão está sendo habilmente atraído para a narrativa de que deve se alinhar à Europa e aos Estados Unidos para enfrentar os chamados Estados pária, como China, Coreia do Norte e Rússia".
Para ele, o Japão deve buscar o desarmamento de forma responsável e estabelecer o diálogo. "Deve parar de demonizar a China e reconhecê-la como um país com o qual é possível manter um diálogo significativo".
Jovens vão às ruas
Cerca de 27 mil pessoas se reuniram em 10 de julho diante do Parlamento japonês, em Tóquio, carregando cartazes ilustrados e coloridos com mensagens como "Não à guerra" e balançando bastões luminosos na escuridão.
Reina Tashiro, de 36 anos, integrante da organização civil Queremos Nosso Futuro, disse à DW que o objetivo é "tornar o mais fácil possível para as pessoas dar o primeiro passo e participar de um protesto".
"É diferente da imagem tradicional das manifestações, em que as pessoas erguem os punhos e gritam slogans", acrescentou Tashiro. "Nossos protestos podem até parecer estilosos."
Nahoko Hishiyama, que participa de movimentos civis há 24 anos, desde os 13 anos de idade, observou que os protestos recentes têm sido cada vez mais liderados por pessoas entre 20 e 40 anos, com uma participação crescente de mulheres.
"Costuma-se dizer que as mulheres japonesas se preocupam demais com a forma como são vistas pelos outros. No ativismo, porém, isso se tornou uma força, ao pensar em como apresentar nossa mensagem de uma forma que dialogue com o público."
Assessoria/Tamayo Muto/Caminho Político
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