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quinta-feira, 24 de setembro de 2026

A tentação da hegemonia bipolar

O encontro de hoje entre Donald Trump e Xi Jinping tem tudo para fazer sombra aos debates na Assembleia Geral das Nações Unidas, que têm sua relevância, mas esmaecem diante do interesse pelas relações bilaterais entre as duas grandes potências econômicas do planeta, partes essenciais de qualquer projeto que pretenda ter alcance global. Uma ideia que vale para questões que se estendem desde contenciosos comerciais até a guerra no Oriente Médio, passando pela crise climática e pelos desafios da inteligência artificial.
Quem quer que acompanhe a agenda internacional compreende que a interação entre Estados Unidos e China tornou-se o elemento central. A interrogação, a incógnita a ser decifrada, é quanto ao rumo que essa relação tomará. Em certa medida, a equação se assemelha à que definiu a geopolítica por quatro décadas do pós-Segunda Guerra (1939-1945), o período conhecido como Guerra Fria. Ali, regeu o mundo uma ordem política chamada de bipolar: duas superpotências, EUA e União Soviética, compartilhavam as decisões últimas sobre guerra e paz.
Afora momentos críticos, como a "crise dos mísseis" em Cuba, em 1962, prevaleceu o espírito de uma espécie de "condomínio" sobre os assuntos do mundo, dividido, ainda que informalmente, em "esferas de influência" que foram, basicamente, respeitadas de parte a parte. Não é difícil encontrar semelhanças com o equilíbrio que Washington e Pequim parecem determinados a manter, hoje, a despeito da guerra comercial e das disputas em torno da liderança na corrida tecnológica ligada à transição para a economia pós-carbono.
É nas semelhanças com a ordem mundial bipolar da Guerra Fria que deveriam repousar a atenção e as preocupações dos demais 191 países que integram a comunidade internacional formal, consubstanciada na ONU. O senso pragmático de acomodação exibido de parte a parte, nos pontos críticos do panorama presente, serve de conforto, em alguma medida. Mas, igualmente, alimenta receios justificados de que esteja em esboço uma espécie de refilmagem do enredo encenado entre 1945 e 1991 — o ano em que a URSS deixou de existir, e que o caminho parecia aplainado para a hegemonia unipolar dos EUA.
As palavras de Donald Trump, na sede da ONU, traem uma ambição persistente pela supremacia. Os fatos, porém, sugerem algo diferente. É o que se expressa na aquiescência de Xi para com a política agressiva da Casa Branca na América Latina, onde a China é hoje o maior parceiro comercial da esmagadora maioria dos países.
Aceitando, na prática, a asfixia de Cuba e a transformação da Venezuela em um quase protetorado dos EUA, Pequim sinaliza a aceitação de uma redivisão do mundo em esferas de influência, como no pós-Segunda Guerra. Algo semelhante se desenha na guerra movida por Washington contra o Irã, ou mesmo na ofensiva de Israel contra a Palestina.
Pela perspectiva da política externa brasileira, o restabelecimento de algum tipo de hegemonia bipolar, agora compartilhada entre Washington e Pequim, significa estar confinado, novamente, à esfera de influência estadunidense. O "quintal", rejeitado pelo presidente Lula em seu discurso na Assembleia Geral. Assegurar um lugar próprio em uma nova ordem multipolar, que ensaia brotar em condições desafiadoras, exigirá dos próximos titulares do Planalto e do Itamaraty atenção máxima e inteligência pragmática para distinguir, a cada momento, os passos a serem dados em terreno minado e pantanoso.
Assessoria/Caminho Político/ Maurenilson Freire/CB/D.A Press
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