Um grupo de 35 bispos da Igreja Católica divulgou uma carta aberta em que faz um duro alerta sobre os riscos de uma eventual vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no segundo turno da eleição presidencial, marcado para domingo (25). Os religiosos afirmam que a candidatura do senador representa uma ameaça à democracia brasileira, à soberania nacional e aos princípios de justiça social defendidos pela Igreja. Segundo a coluna da jornalista Mônica Bergamo, da Folha de São Paulo, o manifesto foi elaborado com a participação do movimento Bispos do Diálogo pelo Reino. Embora não mencione nominalmente Flávio Bolsonaro, o documento apresenta críticas diretamente relacionadas às propostas e ao histórico político do candidato, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Na avaliação dos signatários, a candidatura do PL “ameaça frontalmente a existência da democracia, a soberania nacional e a prática do bem comum”. A manifestação reúne preocupações com a preservação das instituições democráticas, os direitos dos trabalhadores, a política ambiental e a relação do Brasil com os Estados Unidos.
Até a tarde desta quinta-feira, 35 bispos de diferentes regiões do país haviam aderido ao documento, que permanece aberto a novas assinaturas. Os religiosos também convocam os católicos a comparecer às urnas no domingo, “em defesa da democracia, dos valores humanitários, dos pobres e dos ensinamentos de nossa Igreja.”
Bispos apontam riscos de retrocesso democrático
O manifesto apresenta o segundo turno como uma decisão que ultrapassa a disputa convencional entre projetos políticos. Para os religiosos, o resultado poderá produzir consequências profundas para o funcionamento das instituições brasileiras.
“Não se trata apenas de uma escolha eleitoral, tantas vezes já praticada no Brasil, mas da possibilidade de uma mudança profunda nos rumos da nação, cujos exemplos na história do século 20 deixaram cruéis e amargas lembranças”, afirma a carta.
Os bispos também fazem referência ao histórico político da família Bolsonaro e recordam as homenagens prestadas ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, apontado como um dos principais símbolos da repressão e da tortura durante a ditadura militar brasileira.
Em outro trecho, o documento associa a candidatura de Flávio Bolsonaro à continuidade das posições políticas de seu pai e manifesta preocupação com a possibilidade de concentração de poder caso o senador seja eleito.
“Um dos candidatos é filho do presidente que foi condenado e preso por atentar contra a democracia e segue suas ideias. Fez várias declarações de ameaça à ordem constitucional e, se eleito, governará com maioria absoluta no Congresso Nacional, criando as condições para uma usurpação do poder e submissão do país à sua ideologia”, afirmam os religiosos.
Direitos trabalhistas, armas e meio ambiente estão entre as críticas
Além das preocupações com a democracia, os bispos questionam posições atribuídas a Flávio Bolsonaro em áreas consideradas fundamentais para a atuação social da Igreja Católica.
O documento critica o candidato que “sempre foi contra o fim da escala 6 x1”, em referência ao debate sobre a redução da jornada semanal de trabalho e a ampliação do tempo de descanso dos trabalhadores.
A carta também aponta o risco de alinhamento político aos interesses norte-americanos, ao mencionar uma candidatura “que promete submissão do Brasil aos Estados Unidos (EUA)”.
Outro ponto destacado é a política de armamento da população. Os religiosos criticam o candidato que “promete liberar o acesso amplo às armas, como fez o seu pai em seu governo”.
Na área ambiental, o manifesto condena posições de negação dos problemas ecológicos e da emergência climática. Os bispos se referem ao candidato que “não reconhece a crise climática e nega os problemas ecológicos”.
Essas críticas são apresentadas em associação aos princípios de proteção da vida, solidariedade social e preservação ambiental defendidos pelos signatários.
Religiosos destacam compromisso de Lula com os pobres
Embora também não mencione expressamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o documento estabelece uma distinção entre as duas candidaturas que disputam o segundo turno.
Os bispos afirmam que a outra candidatura, “embora sujeita a críticas, sempre manifestou responsabilidade com os pobres e com a Casa Comum e atuou dentro dos limites da ordem democrática, respeitando a Constituição”.
A referência à Casa Comum remete à linguagem utilizada pela Igreja Católica para tratar da responsabilidade coletiva com o planeta, especialmente nas discussões sobre justiça socioambiental.
O manifesto ressalta que eventuais divergências com a administração federal não deveriam levar os eleitores católicos a apoiar um projeto político considerado incompatível com os princípios defendidos pelos religiosos.
“Gostar ou não do atual governo não pode ser razão para entregar o país nas mãos de quem manifesta tamanha contradição com os ensinamentos de nossa igreja”, afirma a carta.
Com essa posição, os signatários procuram deslocar o debate eleitoral da aprovação ou rejeição ao governo Lula para uma avaliação das consequências institucionais, sociais e ambientais das propostas apresentadas pelos candidatos.
Movimento já havia denunciado conservadorismo autoritário
A divulgação da carta ocorre após uma manifestação anterior articulada pelo movimento Bispos do Diálogo pelo Reino.
Em agosto, o grupo publicou outro documento em que denunciava o avanço do que classificou como “conservadorismo autoritário” em setores da sociedade.
Na ocasião, os religiosos criticaram a disseminação de discursos agressivos e superficiais dirigidos a pessoas que expressam sua fé por meio do compromisso com a população mais pobre, da defesa da democracia e da preservação ambiental.
O novo manifesto retoma essas preocupações, mas concentra sua análise nas consequências políticas do segundo turno presidencial.
Ao relacionar a disputa eleitoral à memória da ditadura militar, aos direitos sociais e à proteção do meio ambiente, os bispos procuram mobilizar os fiéis em torno de valores que consideram essenciais para a vida democrática.
A carta também evidencia a existência de posicionamentos críticos ao bolsonarismo dentro da Igreja Católica, especialmente entre religiosos que enfatizam a defesa dos direitos humanos, a justiça social e o compromisso com as populações vulneráveis.
Com a votação marcada para 25 de outubro, os signatários defendem a participação eleitoral dos católicos e apresentam a preservação da democracia como uma responsabilidade que deve orientar a decisão nas urnas.
Assessoria/Paulo Emílio/B247/Caminho Político
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