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segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Michelle consolida influência política fora da sombra de familiares

A derrota do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na disputa presidencial e o afastamento de parte dos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro do cenário político brasileiro abrem espaço para uma nova etapa na trajetória de Michelle Bolsonaro. Senadora eleita pelo PL do Distrito Federal, a ex-primeira-dama começa a se movimentar em um ambiente no qual o protagonismo da família passa por uma reorganização. Sem a presença de Flávio e Eduardo no país e com Jair Bolsonaro fora do centro das articulações políticas, Michelle aparece como uma das principais herdeiras do capital eleitoral do bolsonarismo. Ao lado dela, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), também ganha espaço na disputa pela liderança da direita.
Interlocutores ouvidos pelo Correio afirmam que Michelle não demonstrou disposição para se envolver intensamente na campanha de Flávio no segundo turno. A postura, segundo essas fontes, ainda guardava resquícios do conflito entre os dois, que se tornou público meses antes, em meio a divergências sobre alianças políticas e ao espaço da ex-primeira-dama nas decisões do PL. Embora tenha declarado apoio ao enteado e participado de manifestações em favor da candidatura, Michelle manteve uma agenda própria e priorizou compromissos com aliadas, como a governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP).
Nos bastidores, a avaliação de interlocutores é de que Michelle se tornou hoje um dos nomes mais fortes e confiáveis do grupo Bolsonaro no Brasil. Um integrante próximo à família, ouvido pelo Correio, fez críticas à postura dos filhos do ex-presidente e à concentração das decisões políticas no núcleo familiar. "Os filhos de Jair são egoístas e só pensam em si, no monopólio de poder. Deveriam ter pensado mais no Brasil, só pensam no próprio umbigo", afirmou. Na avaliação desse interlocutor, a ex-primeira-dama se diferencia por não disputar espaço com os enteados nos mesmos termos. "Michelle é a única que não disputa por poder, ela tem luz própria", acrescentou.
A publicação feita por Michelle nas redes sociais na última sexta-feira também ajuda a dimensionar o espaço que ela pretende ocupar na reorganização do grupo. Ao relatar conversas com Jair Bolsonaro, a ex-primeira-dama saiu em defesa de Tarcísio de Freitas, do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), da senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e do pastor Silas Malafaia, citados por ela como aliados que vêm sendo alvo de ataques.
Michelle afirmou que o marido reconhece o empenho de todos na campanha de Flávio e que se entristece com notícias que atribuem a ele críticas a essas lideranças. "O meu marido ressalta que é momento de união e não de procurar culpados", escreveu. A manifestação foi publicada em meio à disputa interna sobre os responsáveis pelo resultado eleitoral.
Novos espaços
Para o cientista político Rudá Ricci, presidente do Instituto Cultiva, a reorganização da direita tende a abrir espaço para lideranças que não dependem, exclusivamente, da atuação direta de Jair Bolsonaro. Na avaliação do especialista, sem Jair, Flávio e Eduardo no comando das articulações no Brasil, "Michelle e Tarcísio" passam a herdar parte do capital político construído pelo ex-presidente. Segundo ele, a dupla "já forjou uma aliança há meses". Os dois, contudo, têm trajetórias e bases distintas: enquanto a ex-primeira-dama consolidou vínculos com segmentos religiosos e com o eleitorado feminino, o governador paulista tem a estrutura administrativa e política do maior colégio eleitoral do país.
A chegada de Michelle ao Senado, em fevereiro de 2027, será um passo decisivo para transformar a influência política em atuação institucional. Ela terá mandato de oito anos e poderá construir uma agenda própria no Congresso, sem depender da rotina de campanha dos filhos de Jair Bolsonaro. A futura senadora também terá de lidar com as disputas internas do PL e com a concorrência de outras lideranças da direita. A conversa que manteve com o presidente da legenda, Valdemar Costa Neto, sobre o futuro do partido, indica que Michelle já participa das articulações sobre os próximos passos do grupo.
A incógnita é até que ponto Michelle conseguirá converter o capital político que acumulou em liderança própria, sem ficar condicionada às decisões do marido ou às disputas com os enteados. A ex-primeira-dama já demonstrou que tem capacidade de mobilização dentro do PL e interlocução com setores religiosos e conservadores. Agora, com um mandato no Senado e o grupo em processo de reorganização, terá a oportunidade de ampliar sua atuação para além da condição de mulher do ex-presidente. O espaço, porém, não está livre: Tarcísio e outras lideranças também se movimentam para ocupar o lugar de referência da direita no próximo ciclo político.
Assessoria/Danandra Rocha/Caminho Político
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