Deputado Dr. João José

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Mato Grosso no Coração

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Conflito com Irã faz EUA encolherem como superpotência

Os EUA ainda são incomparáveis na capacidade de projetar força militar ao redor do mundo. Mas sucesso dos iranianos no bloqueio do Estreito de Ormuz fragiliza imagem de Washington como protetor do comércio global.
"Navios do mundo, liguem seus motores", disse o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no último domingo (14/06) ao anunciar um acordo com o Irã para encerrar o conflito que ele iniciou junto com Israel há mais de três meses.
Na quinta-feira (18/06), foi a vez de Estados Unidos e Irã assinarem o documento. Trump o fez durante um evento no Palácio de Versalhes, na França, local da assinatura do tratado que cristalizou a derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial.
O acordo foi saudado pelo líder do Hezbollah, Naim Qassem, aliado do Irã, como uma "grande vitória". Já o principal negociador do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou: "O acordo é um registro do fracasso dos EUA. As pessoas verão isso e julgarão".
Ao defender o acordo, Trump disse que nenhum presidente dos EUA havia sido tão duro com o Irã e que "a alternativa seria uma depressão mundial", argumentando que, se não tivesse fechado o acordo, "o estreito [de Ormuz] jamais teria sido aberto".
Expondo os limites do poder dos EUA
Terminada a assinatura do acordo, ficou claro que os Estados Unidos não conseguiram impor condições ao Irã em relação a uma série de objetivos anunciados no início da guerra, apesar de sua enorme superioridade militar.
Além disso, a capacidade do Irã de usar drones, minas e pequenas embarcações para interromper a livre circulação no transporte marítimo trouxe à tona questões desconfortáveis sobre o papel do poder dos EUA na proteção da liberdade de navegação e na garantia do livre comércio.
"A guerra com o Irã mostrou a extraordinária capacidade militar dos EUA – e sua incapacidade de transformar essas capacidades em algo que se aproxime de uma vitória estratégica", avalia Rebecca Lissner, pesquisadora sênior de política externa dos EUA e diretora da iniciativa Future of American Strategy no think tank Conselho de Relações Exteriores (CFR).
"Isso é um golpe na imagem dos EUA como superpotência global e enfraquece seu status como garantidor da liberdade de navegação. Essa guerra deixou os Estados Unidos em uma posição mais fraca do que no início do conflito", diz ela.
Novo poder de barganha do Irã
Trump apresentou uma série de objetivos ao iniciar a guerra, incluindo a "aniquilação" da marinha convencional do Irã. Esse objetivo, pelo menos, parece ter sido alcançado – o think tank Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) avaliou que "o Irã perdeu a maior parte de sua capacidade naval em menos de 10 dias".
Mas o Irã não precisava de uma marinha convencional para manter o tráfego marítimo em Ormuz sob ameaça. Seus ataques assimétricos baseados em drones contra instalações energéticas no Golfo provaram ser uma forma eficaz de dissuasão contra a escalada dos EUA. Os aliados do Irã no Iêmen e no Líbano também continuam sendo uma ameaça.
Os ataques aéreos dos EUA e de Israel também eliminaram grande parte da liderança da República Islâmica e enfraqueceram suas forças militares. Ao mesmo tempo, o conflito dificultou muito a vida dos iranianos comuns, que haviam enfrentado uma repressão brutal ao protestar contra o regime poucas semanas antes da guerra. Trump não menciona o destino deles, nem a ideia de "mudança de regime", desde as primeiras semanas do conflito.
Na região, as relações entre Teerã e os Estados do Golfo vizinhos também foram prejudicadas, sinalizando uma instabilidade prolongada. Esses países também passaram a questionar a confiabilidade da proteção de segurança dos EUA, já que suas infraestruturas civis e instalações energéticas ficaram vulneráveis.
Quem controla o Estreito de Ormuz?
Ainda assim, a principal questão estratégica daqui para frente é o Estreito de Ormuz, com o mundo aguardando para ver se os EUA concederão ao Irã nos próximos meses algum controle, mesmo que parcial, sobre o tráfego na via marítima.
O acordo assinado prevê que o "Irã providenciará a passagem segura de navios comerciais, sem custos, por 60 dias". Mas fica em aberto o que acontecerá após esse prazo.
"Mesmo que o acordo consiga reabrir o estreito, o Irã agora tem um poder de negociação que não tinha antes", disse Lissner.
"Os Estados Unidos mostraram que são incapazes ou não estão dispostos a forçar o Irã a reabrir o estreito, o que significa que o mundo viverá com o risco de o Irã poder fechá-lo novamente a qualquer momento", acrescentou.
E, tendo bloqueado o fornecimento global de energia por meses, ainda não está claro por que o regime iraniano abriria mão dessa vantagem sem receber algo em troca.
O Irã, por sua vez, confirmou que não tentará cobrar taxas de passagem por 60 dias, mas, segundo a agência de notícias Tasnim — um veículo estatal semioficial do país —, passará a "cobrar dos navios por serviços após esse período".
O Irã, juntamente com Omã, vem elaborando planos concretos para controlar o tráfego marítimo nessa via navegável estratégica. As duas nações realizaram pelo menos uma conversa sobre o tema nas últimas semanas, e o Irã chegou a criar uma Autoridade para o Estreito do Golfo Pérsico.
E, enquanto os mercados globais respiram aliviados, ainda há dúvidas se o transporte marítimo por Ormuz voltará ao normal.
"Esse acordo parece propenso a, na prática, consolidar o controle iraniano sobre o estreito, criando um mecanismo para que o Irã cobre taxas de embarcações que transitam por lá", disse Lissner.
Superpotência relutante
Por décadas, os pilares centrais do poder dos EUA foram sua superioridade militar e o compromisso com a manutenção do que Washington chama de "ordem baseada em regras", junto a aliados com ideias semelhantes. No comércio global, isso significava que o poder americano poderia garantir a liberdade de navegação e o fluxo eficiente de mercadorias, como o petróleo, ao redor do mundo.
Os EUA projetaram esse sistema global e foram seus maiores beneficiários. Donald Trump, no entanto, sempre foi cético em relação a ele, retratando-o como um sistema em que o mundo "explora" os Estados Unidos em troca de pouco. Essa rejeição ficou evidente na imposição errática de tarifas no ano passado, que continuam gerando incerteza na economia global, mesmo com sua redução recente.
"Suicídio de superpotência"
O primeiro acordo nuclear com o Irã, em 2015, negociado pelo governo de Barack Obama, foi um exemplo de multilateralismo liderado pelos EUA. Ele foi construído com cooperação cuidadosa de aliados europeus, além da China e da Rússia. Apesar de imperfeito, permitiu que a pressão sobre o Irã fosse aplicada de forma gradual e coordenada, evitando que divergências se transformassem em conflito aberto.
Trump abandonou o acordo durante seu primeiro mandato, em 2018, e ainda parece acreditar que pode usar a força dos EUA para pressionar o Irã a aceitar algo melhor. Na segunda-feira, Trump afirmou que Obama estava "basicamente pagando o Irã" e que seu governo "negociou a partir de uma posição de força".
Lissner, junto com outros analistas como o historiador Timothy Snyder, classificou a abordagem da administração Trump em política externa como um "suicídio de superpotência".
Sob a liderança de Trump, os EUA têm "desmantelado progressivamente o sistema que Washington construiu, junto com seus aliados, para se manter poderoso e próspero", disse ela.
"A guerra com o Irã apenas acelerou essa tendência, enfraquecendo ainda mais a ordem baseada em regras e afastando aliados americanos. Esses passos apontam para uma 'nova desordem mundial', caracterizada por crescente violência e instabilidade."
Assessoria/Wesley Rahn*Caminho Político
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