A revelação, em reportagem da revista Veja, de que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), teria recebido 30 milhões de dólares (o equivalente a R$ 155 milhões) de Daniel Vorcaro revela que não passou de encenação o discurso de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no plenário do Senado em 21 de maio cobrando o cacique amapaense da instalação da CPMI do Banco Master. Sob os efeitos do áudio em que cobra Vorcaro de parte dos 24 milhões de dólares prometidos ao clã, divulgados pelo Intercept Brasil no dia 13, e diante do derretimento nas pesquisas, revelado pela AtlasIntel dois dias antes, o filho “01” de Jair Bolsonaro (PL) subiu à tribuna do Senado ladeado de apoiadores submissos de sua bancada e iniciou a encenação se dirigindo a Alcolumbre.
ENTENDA:
30 milhões de dólares de Vorcaro a Alcolumbre explicam acordão com Flávio Bolsonaro para barrar CPI do Master
“Senhor Presidente, mais do que nunca, é necessária a instalação dessa CPMI do Banco Master, conforme a nossa questão de ordem protocolada hoje, aqui, de manhã, porque eu tenho um desafio a fazer. Eu quero Daniel Vorcaro e Augusto Lima sentados naquela CPMI falando qual é a relação que eles tinham com Flávio Bolsonaro, também qual é a relação que eles tinham com o Lula e qual é a relação que eles tinham com Alexandre de Moraes, porque eu não tenho nada a temer! Eu não tenho nada a esconder”, iniciou, com voz trêmula ao se dirigir a Alcolumbre.
Em seguida, Flávio passou a atacar o governo Lula, deixando o caso Master de lado, e criticou os agentes da Polícia Federal (PF) que, justamente, estão desvendando os tentáculos de Vorcaro no bolsonarismo, Centrão e STF, por um lado, e nas facções criminosas, como o PCC, por outro.
“É por isso, Presidente, que a gente precisa urgentemente dessa CPMI, porque olha como está a Polícia Federal hoje, um grupo aparelhado”, emendou, voltando ao velho mantra de ataques a Lula.
“Vocês da imprensa, abram o olho. Olha o que o atual Presidente da República acabou de fazer: um decreto da censura de Lula, que é, mais uma vez, mais uma ofensiva contra a liberdade de expressão. É mais uma ameaça ao trabalho da imprensa. É uma ameaça à liberdade de imprensa, que é sagrada. Vocês podem não gostar de Bolsonaro, mas amem a profissão de vocês, pelo menos, para que vocês possam continuar tendo a liberdade de fazer as matérias que vocês precisam fazer”, emendou o senador, acenando à mídia liberal para tirar o caso das manchetes.
Jogo de cena
O jogo de cena foi transferido, então, para Davi Alcolumbre, que ainda não havia sido tragado totalmente pelo escândalo financeiro, que teria rendido cerca de 30 milhões de dólares em repasses de Daniel Vorcaro no exterior, conforme revelou a revista Veja na edição desta sexta-feira (12).
Para cumprir o grande acordo com Flávio Bolsonaro, Alcolumbre chamou para si a responsabilidade e disse que não iria fazer a leitura dos pedidos de instalação da CPMI que, segundo ele, seria uma prerrogativa da Presidência da casa Legislativa.
“Em resposta à questão de ordem levantada por vários Parlamentares na sessão do Congresso de hoje, que requereram a leitura do requerimento de criação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, a Presidência esclarece que, conforme disposto no §2º do art. 156 do Regimento Interno do Senado Federal, primeiro subsidiário do Regimento Comum, as matérias do expediente serão objeto da leitura a juízo do Presidente. Além disso, o inciso I do parágrafo único do art. 214 do mesmo Regimento do Senado dispõe que requerimentos de leituras de matérias devem ser objeto de despacho da Presidência. Portanto, o momento da leitura é um ato discricionário da Presidência da Mesa do Congresso Nacional”, afirmou, lendo um comunicado escrito por assessores.
Como desculpa, Alcolumbre afirmou que a sessão trataria exclusivamente para deliberar sobre “desafios orçamentários e fiscais” das prefeituras do país.
“Eu sempre entendi que, quando nós fizéssemos a convocação de uma sessão do Congresso Nacional, a Presidência seria questionada, naturalmente, pela questão da leitura dos requerimentos apresentados de criação de Comissões Parlamentares Mistas de Inquérito, mas esse assunto não pode ser o prioritário deste momento da sessão de hoje”, emendou.
No entanto, depois da sessão do dia 21 de maio, Alcolumbre e Flávio Bolsonaro não mais tocaram no tema dentro do Senado, enterrando a leitura do pedido da CPMI do Master.
Assessoria/Plinio Teodoro/Revista Forum/Caminho Político
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