Durante todo o mês de maio, acontece o ritual da Furação de Orelha. Há milênios, os indígenas Xavante — A’uwē Uptabi (“gente de verdade”) — praticam diversos rituais desde o nascimento: o wetebremire, seguido da fase de adolescente (wapté), da fase de jovem (ai’repture, ai’repudu) até chegar à fase adulta (aibö). O ritual da Furação de Orelha é uma dessas passagens importantes e, de forma muito organizada, inclui também a permanência na casa de reclusão. Se antigamente esse período chegava a durar até 20 anos, hoje não ultrapassa 5 anos. Na língua xavante, chamado de Datsi’waté, o ritual é realizado por adolescentes entre 14 e 16 anos de idade. Eles permanecem batendo na água — atividade conhecida como Waté’wa — durante 30 dias, com início às 3h da manhã e término às 22h. Segundo o cacique Paulo Domingos Tsererãwē Dumhiwē, esse tempo é necessário para que a região da orelha amoleça e o jovem não sinta dor a ponto de chorar.
Esse ritual faz parte do período de transição para a vida adulta. Ao longo do tempo, são necessárias uma série de cerimônias para completar todas as etapas dessa passagem. O Waté’wa — “bater nas águas” — tem um significado profundo: representa a marca e os ensinamentos transmitidos pelos mais velhos da tribo aos adolescentes, como parte fundamental do processo de amadurecimento. Porém, isso não é suficiente: outros rituais se seguem.
Durante o período de reclusão (Heroi’wa), ocorre a Corrida com Toras de Buriti. Ela é disputada por grupos opostos, e os padrinhos dos jovens — chamados de herói’wa e aihő’ubuni — atuam como guias nessas provas, ao lado de irmãos e primos, para incentivá-los e apoiá-los em sua longa jornada rumo à plenitude e à autonomia.
Em seguida, vem o ritual Tsa’uri, uma espécie de maratona de cerca de 20 km, na qual os adolescentes participam como se estivessem em uma competição. Essa atividade acontece dentro do período de reclusão, nos 30 dias seguintes, enquanto as orelhas passam pelo processo de cicatrização.
Abel Natureza Brasil - Jornalista/Ecologista/Mestre em Geografia - pós graduado em Gestão Ambiental/Geografia-UFMT.
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