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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Prefeita do PL nomeia secretário que ela própria denunciou por sobrepreço

A prefeita de Várzea Grande (MT), Flávia Moretti (PL), nomeou Silvio Fidelis para a secretaria de Governo do município dois meses depois de denunciá-lo por suspeitas de sobrepreço de R$ 6,2 milhões em contrato assinado quando era secretário de Educação na gestão anterior, do ex-prefeito Khalil Baracat (MDB).
O que aconteceu
Moretti entrou com uma representação contra Fidelis no Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE-MT) e no Ministério Público de Mato Grosso (MP-MT). A administração suspeitava de irregularidades no contrato de transporte escolar firmado em 2022 no dia 24 de outubro de 2025.
A prefeita nomeou Fidelis como Secretário de Governo menos de dois meses depois da denúncia. No dia 19 de dezembro de 2025, ela o designou para a nova pasta sob a alegação de que ele seria necessário para realizar "articulações" com a Câmara de Várzea Grande.
Fidelis foi afastado do cargo na última sexta-feira (14). O juiz Francisco Ney Gaíva da 2ª Vara Especializada da Fazenda Pública atendeu a um pedido de uma ação popular promovida pelo advogado Juliano Banegas Brustolin que apontou a permanência do secretário no cargo como um entrave às investigações sobre o caso de corrupção.
O risco decorre da posição de articulação política que o cargo de secretário de Governo confere ao réu, permitindo-lhe influenciar o comportamento de servidores que participaram da execução do contrato e que serão chamados a depor ou a fornecer documentos nesta ação popular.
Francisco Ney Gaíva, juiz da 2ª Vara Especializada da Fazenda Pública
Fidelis assumiria a Secretaria de Saúde de Várzea Grande, tornando-se "supersecretário". No mesmo dia em que foi afastado, ele assumiria a segunda secretaria e assim, acumularia as duas pastas na administração.
Afastamento aconteceu somente após nove meses de Fidelis no cargo. Mesmo no período em que estava sob investigação do Ministério Público e do Tribunal de Contas, ele permanecia à frente da Secretaria de Governo. Antes disso, em maio deste ano, a Promotoria de Defesa da Probidade Administrativa e do Patrimônio Público recomendou formalmente que a prefeitura o afastasse do cargo.
Prefeita respondeu que manteria o secretário de Governo no cargo. Flávia Moretti respondeu à notificação dois meses depois, em julho, informando que manteria Fidelis na pasta. Ela argumentou que os contratos sob investigação foram cancelados e que, como secretário de Governo, ele não teria atribuições na Secretaria de Educação, onde o contrato foi assinado.
O Ministério Público apontou indícios de conluio entre as empresas de viagem. Segundo o MP, há sinais de combinação entre a Allegratur Agência de Viagens e Turismo Ltda, Eva Tur Transportes Ltda., e Doannytur Agência de Viagens & Turismo Ltda. na licitação que resultou no contrato 095/2022. As empresas teriam oferecido propostas próximas ou idênticas para fraudar a disputa.
A auditoria da própria prefeitura, ordenada por Moretti, também apontou irregularidades. Segundo a investigação da administração, a empresa vencedora da licitação, a Allegratur, superfaturava a quilometragem do transporte escolar inserindo trajetos maiores do que o realizado. A Controladoria-Geral do Município constatou que a quilometragem cobrada superou a distância real em mais de 101%.
Após a decisão de afastamento do secretário, a prefeita de Várzea Grande, que o denunciou em outubro de 2025, ingressou com nova ação na Justiça. Moretti tenta revogar a decisão anterior. Na peça, a Procuradoria-Geral do Município alega que Fidelis é importante para articulações com o legislativo diante do atual cenário de calamidade financeira em Várzea Grande.
A decisão afastou o titular da pasta responsável pela interlocução com o Legislativo no exato momento em que o Executivo dela depende para a aprovação das medidas de reequilíbrio.
Prefeitura de Várzea Grande, em pedido
Várzea Grande está sob calamidade financeira. O município enfrenta essa situação desde o dia 16 de julho por falta de recursos necessários para pagamento de R$ 19 milhões mensais em precatórios.
Outro lado
A Prefeitura de Várzea Grande não se manifestou sobre o caso. A reportagem entrou em contato com a administração para ter um posicionamento sobre a situação do secretário afastado. O espaço segue aberto.
Silvio Fidelis não respondeu aos questionamentos da reportagem. O UOL também procurou o secretário para saber seu posicionamento.
O ex-secretário declarou que outras duas pessoas deveriam ser investigadas. Na ação popular, Fidelis apontou dois agentes que detinham a responsabilidade direta pela condução da licitação e que foram omitidos da investigação, o que indicaria um direcionamento e seletividade na acusação. O ex-secretário afirmou que sua função no processo licitatório e durante o contrato foi meramente formal, não sendo responsável por medições do serviço prestado.
Uma das empresas nega veementemente o sobrepreço. O advogado da Allegratur, Francisco Faiad, informou que o contrato passou por avaliação do TCE e que todas as contas, de 2022 a 2024, foram aprovadas pela Câmara Municipal e pelo próprio TCE.
A reportagem não conseguiu contato com a EvaTur e a Doannytur. Na ação popular, a defesa da EvaTur afirmou que prestou serviços para o município até 2022 e que não teve mais relação com Várzea Grande após perder a licitação. A Doannytur negou, no processo, qualquer indício de fraude à licitação.
Assessoria/Lázaro Thor/Colaboração para o UOL em Cuiabá (MT)/Caminho Político
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