Da rivalidade entre EUA e China à corrida por minerais críticos, o pleito presidencial coloca o país no centro de debates internacionais sobre clima, segurança, comércio e diplomacia. Quarta maior democracia do mundo, décima maior economia. A eleição presidencial coloca o Brasil em uma situação particular no tabuleiro global. Por um lado, tem peso pelo tamanho de suas reservas de terras raras, é peça-chave na política climática e energética e é destaque entre exportações globais de commodities. Por outro, é símbolo de uma democracia sob teste de estresse: as urnas são abertas quatro anos após uma tentativa de golpe de Estado e em meio a pressões externas sobre o processo eleitoral.
O resultado do primeiro turno, em 4 de outubro, confirmou a esperada polarização entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), que apontam para diferentes caminhos diante da rivalidade global entre Estados Unidos e China, da crise do multilateralismo e da disputa por minerais críticos. O cenário amplia a importância estratégica de países que, como o Brasil, mantêm relações com diferentes polos de poder. Ao mesmo tempo, evidencia a perda de influência do país na região e em fóruns internacionais cada vez mais fragmentados.
Na América Latina, o cabo de guerra entre dois lados políticos fica mais evidente. No começo dos anos 2000, a eleição de Lula fez parte de uma onda de governos de esquerda na América Latina. Em 2018, a vitória de Jair Bolsonaro integrou a guinada à direita que hoje domina boa parte da região.
Uma mudança de orientação em Brasília pode alterar a coordenação entre governos em temas como integração regional, segurança e clima. Enquanto a direita e a centro-direita governam mais da metade dos países da região, Brasil e México acumulam mais de 340 milhões de habitantes sob governos à esquerda. O presidente da Argentina, Javier Milei, entrou diretamente na campanha de Flávio. A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, defendeu a permanência de Lula no poder.
"Há uma certa tendência a dizer que toda eleição é uma eleição muito decisiva. Mas, de fato, há possibilidades muito distintas a depender de quem vença", afirma Samuel Siewers, pesquisador do German Institute for Global and Area Studies (GIGA), em Hamburgo. "E talvez, diferentemente das eleições de quatro anos atrás ou de oito anos atrás, a conjuntura internacional esteja muito mais frágil. Então as consequências podem ser mais severas."
A eleição também será acompanhada por governos que tentam avaliar se o avanço da direita na América Latina reflete uma tendência regional ou resulta de respostas a desafios domésticos. Para o professor Vinicius Mariano de Carvalho, do Departamento de Estudos de Guerra do King's College London, porém, o impacto da disputa é principalmente regional.
"Do ponto de vista regional, sim, ela tem um impacto grande, especialmente na América Latina. [...] Se o Brasil eleger Flávio Bolsonaro, haverá um alinhamento maior com o que está acontecendo no restante da América Latina. Se Lula for reeleito, o Brasil continua sendo, digamos, uma exceção nesses vieses políticos da região", diz.
Disputa entre EUA e China
O interesse americano pela região é o mais evidente. O presidente Donald Trump repetiu estar acompanhando "de perto" a eleição, após impor uma série de tarifas contra produtos e sancionar autoridades brasileiras. Parlamentares americanos enviaram mais de um comunicado a Washington criticando uma possível interferência eleitoral. O tema chamou a atenção da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que, em relatório enviado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), cita diretamente o avanço americano sobre a América Latina em oposição à influência da China como ponto de atenção nas pressões eleitorais.
A economia brasileira está conectada a Pequim, que absorveu quase 30% das exportações brasileiras entre janeiro e setembro de 2026, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Os Estados Unidos, segundo maior destino entre os países, responderam por cerca de 10%.
Uma eventual mudança de orientação diplomática do Itamaraty não elimina a interdependência econômica, afirmam especialistas. O que muda são os termos dessas relações, que determinam a política econômica, regulatória e o alinhamento brasileiro com os principais blocos globais.
"O Brasil não é um campo de batalha para essa competição entre as grandes potências. Não é o país mais importante do mundo para a China nem para os Estados Unidos. Mas, ao mesmo tempo, tem importância suficiente para manter relações, para conseguir evitar uma pressão ou algum tipo de medida mais danosa à nossa economia", afirma Silvio Cascione, chefe da Eurasia Group no Brasil.
Segundo ele, o país se tornou uma peça valiosa num mundo em transição. "O mundo inteiro olha para o Brasil como uma espécie de retaguarda estratégica ou um parceiro confiável, que vai ser útil para desenvolver essa economia do futuro ou para se proteger dos riscos de um mundo em conflito."
Mas o peso de Washington nesta campanha vai além da questão comercial e passa também pela pressão para o enfrentamento do crime organizado. Aqui, o resultado das urnas ajuda a definir a política de segurança de toda a região. Trump tem defendido uma abordagem mais agressiva contra organizações criminosas latino-americanas, ampliando a cooperação com governos aliados por meio do Escudo das Américas. No Brasil, Lula rejeita a proposta americana de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas estrangeiras, enquanto Flávio Bolsonaro defende uma aproximação maior com Washington.
"O Brasil seria um integrante de muito peso nessa coalizão do Escudo das Américas. Geraria um quadro talvez de difícil reversão, dado o grau de alinhamento entre vários países na região e as políticas implementadas nos Estados Unidos", diz Siewers.
Terras raras e transição energética
É nos minerais críticos que essas apostas devem ser mais testadas. O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, mas a China ocupa uma posição dominante, sobretudo no processamento e no refino. Esses minerais estão em baterias, semicondutores, robôs e na indústria de defesa. Para Estados Unidos e União Europeia, diversificar fornecedores se tornou uma questão de segurança nacional.
"Um dos problemas do mundo hoje é que, para muitos desses elementos, existe um monopólio da China. E isso gera uma ansiedade não só nos Estados Unidos, mas também no mundo todo, na Europa, no Japão, na Índia, em países com forte base industrial, preocupados com o controle que a China exerce sobre esses recursos", afirma Cascione.
A eleição deve definir como o Brasil usará essa vantagem competitiva. "O governo atual aprovou uma lei que estabelece algumas políticas para o desenvolvimento desses minerais, mas que tem uma participação do Estado um pouco mais forte. [...] A vitória do Flávio traria um governo mais alinhado aos Estados Unidos e com uma postura menos intervencionista", aponta.
Para a Europa, o tema tem peso próprio. Segundo Siewers, os minerais críticos são "um grande fator para a aproximação entre União Europeia e Brasil". Apesar de aparecer pouco no debate eleitoral brasileiro, a política energética e climática também estão no centro da agenda europeia.
Mesmo com dificuldade em pautar suas políticas de financiamento climático, a importância brasileira vai além do peso da Amazônia. O país reúne uma matriz elétrica com forte participação de fontes renováveis e, por outro lado, possui reservas de petróleo e projetos de exploração em áreas ambientalmente sensíveis. "Obviamente, a pressão sobre o Brasil é muito grande em termos de conservação ambiental, e é preciso que haja, e que continue a haver, pressão. Mas é preciso também lembrar que ele é o país que tem o maior capital ambiental, talvez do mundo hoje", diz Carvalho.
A questão interessa à Europa porque a transição energética exige matérias-primas, energia de baixo carbono e diversificação de fornecedores.
Democracia e multilateralismo sob estresse
A eleição ainda tem um peso simbólico. Após a condenação de um ex-presidente por tentativa de golpe de Estado e a pressão americana sobre a eleição, o Brasil virou um indicador internacional de como grandes democracias lidam com polarização e ataques à confiança nas eleições.
O ponto de atenção é se as instituições conseguem garantir a alternância de poder e manter a confiança no processo eleitoral. "A maneira como o governo Lula se portou diante das tentativas do governo Trump de se inserir na política nacional serviu como exemplo para outros países do mundo e, inclusive, contrastou com a atitude da própria União Europeia, que se mostrou mais inclinada a atender essas demandas vindas dos Estados Unidos", afirma Siewers.
Para Carvalho, a pressão americana entra na disputa, mas o desfecho não depende só de quem vencer em Brasília. "Nós estamos vivendo uma relação com os Estados Unidos, globalmente falando, de muita incerteza sobre posturas que serão tomadas. Não há uma continuidade muito grande nessas tomadas de decisões. [...] Não é possível ter uma confiança explícita em quais serão as respostas americanas, sabendo que um ou outro será eleito", afirma.
A eleição ainda ocorre em meio a uma crise do multilateralismo que também provoca reação brasileira. Há décadas, o Itamaraty evita o alinhamento automático com grandes potências. O país é membro ativo do Brics e, em seu programa de governo, Lula defende o fortalecimento de mecanismos financeiros do bloco, uma medida vista com hostilidade pelos EUA de Trump. Já Flávio indicou que, se eleito, vai reavaliar a permanência brasileira no bloco, que chama de ideológico.
Na última Assembleia Geral da ONU, Lula voltou a criticar "tentações hegemônicas", ao mesmo tempo em que ouviu de Trump que os EUA não hesitarão em usar seu "poderio militar incomparável", se necessário, para garantir os interesses vitais do país.
Para países de porte intermediário, o enfraquecimento de regras internacionais pode significar menor capacidade de negociar coletivamente e maior exposição às grandes hegemonias.
"A chamada crise do multilateralismo que nós estamos vivenciando não afetará apenas o Brasil, não será apenas afetada pelo Brasil e não será simplesmente o Brasil que conseguirá reverter isso", argumenta Carvalho.
"A vontade diplomática brasileira de que o multilateralismo seja reforçado é muito bem-vinda, e ela só seguirá e terá algum efeito se o país for capaz de não achar que será o líder sozinho disso tudo, mas de construir uma boa estrutura de apoio e convencer outros atores com peso global a levar isso adiante", pontua.
Assessoria/Gustavo Queiroz/Caminho Político
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