A pouco mais de cinco décadas, o meu mundo era outro: fazenda, fogão à lenha, lamparinas, pés descalços, boiadas feitas de mangas verdes, leite tomado no curral, vaga-lumes presos em garrafas (iluminando meus medos) e São Jorge morava na lua e em noites da cheia era possível vê-lo, montado a cavalo, matando o dragão.
Hoje, o mundo é outro: se menos mágico e menos mítico; ainda assim indecifrável, com sua Teoria das Cordas, com seu universo infinito e em expansão, com seus robôs (agora com Inteligência Artificial) que terminarão nos dominando. Há mais assombrações atualmente que naqueles sertões de eu menino.
É estarrecedora a evolução tecnológica da humanidade. Se analisarmos somente os últimos cem anos, é quase impossível acreditarmos no que vemos cotidianamente. Interessante notar que a ficção influenciou a ciência e, também, posteriormente, inspirou-se nela.
Em 1920, o checo Karel Capek escreve a peça R.U.R., na qual, pela primeira vez, usa-se o termo “robot” ( espécie de humanoides que terminariam por controlar o homem. Em 1938 é inventado, por Konrad Zuse, o primeiro computador programável. Alguns anos depois, novamente a ficção provoca o estranhamento na realidade quando o fabuloso Isaac Azimov, no conto “Liar”, propõe as três leis da robótica.
Correndo atrás da literatura, em 1950, o matemático Alan Turing elabora um teste para aferir se uma máquina poderia pensar por si. Em 1964, o IBM 360 (primeiro computador em série). Um ano após, a Lei de Moore afirmava que, a cada dois anos, os computadores dobrariam sua capacidade de processamento.
O surreal “2001: uma odisseia no espaço” (de Clarke e Kubrick, 1968) instiga nossa imaginação a respeito de um computador assassino. Já em 1997, o melhor enxadrista do mundo, Kasparov, é derrotado por uma máquina, o Deep Blue. Apesar da polêmica criada em torno da derrota do mestre, o supercomputador da IBM havia vencido um ser humano.
Desde 2005 os computadores já conseguem se reproduzir sozinhos (autorreplicação). Agora, o físico Stephen Hawking declarou: “A Inteligência artificial passará a voar por seus próprios meios, se reprojetando num ritmo cada vez maior.”
Mesmo que o parágrafo anterior seja considerado por você, meu dileto leitor, apenas mais uma teoria da conspiração, eu pediria que passasse a observar a nossa crescente dependência dessas pequeninas e, cada vez mais, potentes máquinas que estão entranhadas nosso dia a dia.
Observe o tempo que os nossos filhos ficam diante do computador, o tempo que gastamos no celular e nos seus infindos aplicativos, na tecnologia dos carros modernos, das TVs e outros aparelhos que nos cativaram faz tão pouco tempo. Então verá que não é paranoia ou delírio surreal; aos poucos, estamos mais dependentes dessa tecnologia que, em breve, ela será independente, no sentido amplo do termo.
Talvez a solução para garantirmos que nossos descendentes continuem a reinar por sobre a terra seja um tanto simples: ensinarmos nossos filhos e netos a gostar de pandorga, bolita, rolemã, pião, carrinho de pau, taco, finca-finca, amarelinha, sete-marias, queimada e tantas outras brincadeiras infantis que estão desaparecendo, enquanto sinistramente um computador emite um som muito semelhante aos nossos sorrisos.
Sérgio Cintra é professor e presidente estadual do PTdoB.

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