A preocupante situação da sociedade brasileira revela,
cruamente, a validade do famoso teorema de Thomas: se os homens definem uma
situação como real, ela será real em suas consequências. Ele inspirou a ideia
da “profecia autor realizável” e, talvez, a da “profecia autodestrutiva” que
estamos vivendo.
Hoje todos estamos inseguros. Os trabalhadores “temem” pela
continuidade do seu emprego; os empresários “temem” a falta de demanda e se
recusam a investir; o sistema financeiro “teme” a inadimplência dos dois e
restringe o crédito, que, praticamente, desapareceu. Esse “temor” generalizado
interrompeu o circuito econômico.
Caíram o crescimento do PIB e a receita pública, uma das
causas eficientes da rápida deterioração fiscal (a outra é a rigidez
institucional das despesas públicas).Comprometeu ainda mais a capacidade de o
governo reconquistar a “confiança” dos setores sociais e econômicos, que vêm os
seus “temores” reforçados…
É tão simples assim: perdeu-se a confiança no discernimento
e na capacidade de ação do Executivo. Essa é a “situação” (não importa se
imaginada ou real) que determina a reação de cada cidadão que tira dela a
consequência real: um comportamento defensivo cauteloso e infeliz, que torna
real a tragédia profetizada.
A presidente Dilma é a mesma pessoa física que no final de
2011 tinha 92% de aprovação (59% de ótimo/ boa mais 33% de regular), ano que,
aliás, terminou bastante bem: o PIB cresceu 3,9%; a taxa de inflação foi de
6,5%; o superavit primário foi de 2,5% do PIB e a relação dívida bruta/PIB
diminuiu ligeiramente para 51,3%. Para entender as consequências do teorema de
Thomas,
lembremos que, no primeiro trimestre de 2013, Dilma atingiu os
píncaros: os mesmos 92% de aprovação, mas com 65% de ótimo/ bom e 27% de
regular. Ela e os cidadãos definiam a mesma situação geral e esta parecia
recomendar a política de mais do mesmo…
Isso revela os perigos que decorreram do teorema de Thomas.
Para Dilma, havia um visível auto engano. Para a sociedade, havia a aceitação
passiva de medidas bem intencionadas que ignoravam que as consequências viriam
depois.
Entretanto, era evidente para qualquer observador
relativamente bem informado que o novo ativismo voluntarista iniciado em 2012
iria terminar muito mal, principalmente depois da alquimia de dezembro, que
transformou “dívida pública” em “superavit primário”…
Dilma foi reeleita.
Não lhe resta (nem a nós!), outra alternativa que não a de
tentar, seriamente, recuperar o seu protagonismo e abandonar o amadorismo
político que tem revelado.
Delfim Netto ex-ministro da Fazenda e escreve às
quartas-feiras na Folha de S.Paulo – Opinião

Nenhum comentário:
Postar um comentário