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terça-feira, 31 de outubro de 2017

"Dismorfia corporal: quando a autoimagem distorcida é confundida com excesso de vaidade"

Por onde quer que você olhe, a todo momento, tem sempre alguém tirando uma selfie. A palavra inglesa, que significa autorretrato, já se popularizou tanto pelo mundo que nem precisa mais de tradução. E a maioria das pessoas faz várias fotos até encontrar uma que considere boa – ou menos pior. No entanto, para alguns, olhar-se em fotos (ou no espelho) é quase uma tortura, bem como clicá-las é quase obsessão, o que pode indicar algo mais grave. Mais do que estarem insatisfeitas com a própria imagem, essas pessoas se percebem de forma equivocada e tendem a não gostar da própria figura. Trata-se do transtorno dismórfico corporal (TDC), também conhecido como dismorfia corporal, que consiste em uma condição psicológica caracterizada pela preocupação exagerada com a aparência ou defeitos pequenos, na maioria das vezes imperceptíveis, mas que assumem dimensões muito grandes para a pessoa. Dados apontam que o TDC acomete cerca de 2% da população global e alcança cerca de quatro milhões de pessoas no Brasil. Homens e mulheres são vítimas do transtorno em igual proporção – com ênfase para a faixa etária dos 15 aos 20 anos. Conforme alerta o membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), o cirurgião plástico Jubert Sanches, essa doença – apesar de não ser incomum – ainda é pouco conhecida e compreendida. Pelas próprias características que a definem, ela acaba sendo indevidamente confundida com excesso de vaidade. “Querer mudar é normal. Mas, pessoas com dismorfia corporal enxergam defeitos mínimos como defeitos graves. Não conseguem enxergar a realidade. Isto passa por aspectos que envolvem desde peso, pacientes com anorexia até obesidade mórbida, bem como com outras partes do corpo”, ressalta. IDENTIFICAÇÃO E DIAGNÓSTICO – Estudos mais consolidados indicam uma origem neurológica para o transtorno. Eles apontam que o cérebro dos pacientes com TDC sofre de um descompasso de substâncias como noradrenalina, dopamina e serotonina, sobretudo nas regiões relacionadas à visão e ao gerenciamento de emoções. Tais compostos estão associados, por exemplo, aos mecanismos de recompensa, ansiedade, motivação e humor. Jubert explica que, em grau avançado, as pessoas que sofrem com o transtorno acabam procurando soluções em cirurgias plásticas e tratamentos estéticos para mudar o que as incomoda. Por outro lado, a identificação e diagnóstico do TDC pode ser bastante difícil por cirurgiões plásticos, o que acaba resultando em procedimentos desnecessários. Estima-se que um terço desses indivíduos tenham recorrido a mais de uma cirurgia plástica para “corrigir” sucessivas vezes um mesmo problema. “No consultório, geralmente, é possível identificar esse paciente por meio de sua abordagem. Mas, não há características que garantam 100% de certeza. Existem alguns pacientes que apresentam o que chamamos de ‘borderline’ – ou seja, traços –, mas não é um paciente que demonstra claramente. Ele acaba indo para a cirurgia e depois se volta contra o procedimento – que, na visão dele, não atingiu sua expectativa. É preciso estar bem atento”, destaca. Em estágios considerados leves e moderados, a cirurgia plástica pode até servir como parte do tratamento para estes pacientes. Contudo, quando o caso é grave é preciso recorrer de psicoterapia à psiquiatria. Em geral, a doença é associada a outras doenças como, por exemplo, a depressão e ansiedade social. “Quando o profissional identifica um paciente com dismorfia corporal, o ideal é que ele encaminhe esse indivíduo para um tratamento psicológico e/ou psiquiátrico antes de realizar o procedimento. Inclusive, este é um dos motivos pelos quais se recomenda que toda avaliação seja feita pessoalmente e não pode outras vias – como a internet. O profissional precisa conversar com esse paciente e orientá-lo com clareza acerca do procedimento que é adequado para ele”, reforça.
ZF PRESS

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