Ex-presidente da Libéria destaca que cada mais vez mais transições pacíficas de poder estão a ocorrer no continente. Vencedora do Prêmio Mo Ibrahim fala à DW sobre as conquistas e falhas de governação no país. A governação no continente africano está em mudança, diz a ex-presidente da Libéria Ellen Johnson Sirleaf. "Olhe em volta e veja quantas transições pacíficas aconteceram", disse em entrevista à DW. Sirleaf sublinha que cada vez mais líderes africanos têm aberto o caminho a seus sucessores depois de completar dois mandatos no poder.
Ellen Johnson Sirleaf é a primeira mulher a ter recebido o prestigiado prêmio Mo Ibrahim para a Excelência na Liderança Africana em reconhecimento por práticas de boa governação. Sirleaf assumiu a presidência da Libéria em 2006 depois de 14 anos de guerra civil e ainda viu o progresso do país ser devastado pela epidemia do ebola, entre 2014 e 2015.
Depois de cumprir dois mandatos no poder, uma das poucas mulheres chefes de Estado em África transferiu a liderança do país ao seu sucessor, George Weah, em janeiro de 2018.
Apesar de ser criticada por não ter combatido problemas de infraestrutura e de corrupção de forma eficiente, a Fundação Mo Ibrahim, organizadora do prêmio, alega que a Libéria foi o único país africano a apresentar avanços em todos as categorias do índice de boa governação no continente desde 2006.
Entre os seis vencedores do prêmio, lançado em 2006, estão o ex-presidente sul-africano Nelson Mandela, o ex-chefe de Estado de Moçambique Joaquim Chissano, e Pedro Pires, de Cabo Verde.
Antes da cerimónia de premiação esta sexta-feira (27.04) em Kigali, Ruanda, Sirleaf deu uma entrevista exclusiva à DW.
DW: Na sua opinião, quais foram os maiores avanços conquistados na Libéria?
Ellen Johnson Sirleaf (EJS): A conquista mais significativa foi a paz estável. Como sabem, a Libéria viveu duas décadas de conflito que destruíram a nossa economia, nossas instituições e que feriram e deslocaram muitas pessoas. Em poucos meses, poderemos dizer com orgulho que alcançamos 15 anos consecutivos de paz. Nós também demos continuidade à proteção e à promoção de liberdades da sociedade civil e do povo da Libéria. De uma só vez, a imprensa teve completo acesso e liberdade para participar da sociedade, criticar e comentar, às vezes até sendo irresponsável. Tendo sido devastados por tanto tempo, eu penso que fomos capazes de alcançar grandes conquistas, como o crescimento econômico, o restabelecimento das instituições e a reconstrução da infraestrutura, que nos dão a esperança de que o futuro estará seguro.
DW: Você diria que está absolutamente feliz com tudo o que conseguiu conquistar?
EJS: Eu estou muito feliz com as nossas conquistas dado o ambiente complexo e difícil em que tivemos que trabalhar. Nós ainda não alcançamos o nosso potencial e deveríamos ser capazes de fazer mais. No entanto, é necessário colocar tudo num contexto. Com as pessoas a viverem na pobreza e sob conflitos por tanto tempo, é difícil conseguir o nível de participação, comprometimento e patriotismo necessário para obter os resultados finais esperados.
DW: Depois da guerra, a senhora optou não estabelecer uma corte especial de Justiça. Por que esta decisão foi tomada?
EJS: Nós tivemos muitas pessoas que lideraram a guerra e que não eram parte da sociedade, mas foram eleitas pela população para assumir diferentes cargos. Se considerarmos as milhares de pessoas que se envolveram em atrocidades, teríamos que gastar todos os recursos, tempo e tecnologia nas cortes. Isso não significa que não acreditamos na Justiça. Mas se olharmos para a história das nações, é preciso considerar a sequência e o tempo da Justiça no contexto de cada sociedade.
DW: A senhora se refere a pessoas como (o ex-líder de guerra e político) Prince Johnson, que tem muito apoio?
EJS: Eu me refiro a todos os que se consideram líderes de guerra, criminosos ou participantes. É difícil classificar as pessoas. Houve pessoas-chave, mas também outras milhares de pessoas. Estávamos a sair desses anos de conflito. O que queríamos fazer era promover a paz e comprometer as pessoas com um futuro, promover a reconciliação e a justiça. Nós não tínhamos condições de fazer isto (processos judiciais) nos anos iniciais. Nós decidimos não optar por coisas que poderiam nos fazer regressar ao estado de guerra. O passado era claro. Países em situação de pós-conflito que não administram bem essa situação voltam à guerra.
DW: Houve algo que a senhora gostaria de ter feito antes do fim do seu mandato e que não foi possível?
EJS: Eu esperava que iríamos construir uma estrada que conectaria todos as nossas subdivisões políticas, o que permitiria uma livre movimentação de bens e serviços e de pessoas através das fronteiras. Fizemos algumas, mas não concluímos. Gostaríamos também de trazer mais eletricidade e, assim, conferir mais valor às nossas mercadorias. Trouxemos a eletricidade de volta, mas não no ritmo e extensão que nossos planos exigiam. Nós tínhamos todos os planos, tínhamos uma agenda, mas essas coisas não acontecem de uma só vez.
DW: A senhora foi premiada com o prémio Mo Ibrahim, que também reconhece ações contra a corrupção. No entanto, esse problema persiste na Libéria.
EJS: A corrupção foi bem combatida na Libéria, considerando o fato que a corrupção está no seio da sociedade e se tornou uma forma de vida. As pessoas só sabiam viver por meio da extorsão e da desonestidade. O que fizemos, em primeiro lugar, foi trazer o tema para discussão. Foi assim que a mídia e a sociedade passaram a lidar com o assunto. Todas as formas de prevenção foram colocadas como meios de combater a corrupção. Isso significa devolver a dignidade às instituições, criar leis adequadas, informar as pessoas e demitir aquelas que usam os recursos públicos de forma inadequada. Nós ficamos aquém do esperado no que diz respeito à punição. Isso demandaria mais apoio e participação das instituições de Governo, como por exemplo, as cortes de Justiça. No entanto, nós acreditamos que as medidas que nós tomamos serão perenes.
DW: A senhora é criticada por favoritismo devido ao fato de seus filhos estarem no Governo. O que tens a dizer sobre este assunto?
EJS: Eu não peço desculpas. Eu fiz o que tinha que fazer dada às circunstâncias, e eu não sou a única em África ou no mundo. Nós precisávamos de habilidades, nós tínhamos essas habilidades e as usamos. Isso não invalida todas as outras coisas que fizemos, desde inclusão completa das pessoas em todos os níveis da sociedade, e de todos os partidos políticos.
DW: A senhora escolheu deixar o poder depois de dois mandatos. Qual é a sua opinião sobre os líderes africanos que decidem permanecer por mais tempo?
EJS: Eu acho que estás a interpretar mal África. Olhe em volta e veja quantas transições pacíficas aconteceram. Consegues ver como a democracia está a se espalhar num ritmo que não queres realmente reconhecer? Há alguns que estão atrasados, não há dúvida, mas (as transições) estão acontecendo no continente. Então, sim, alguns líderes ficam no poder, talvez porque a população os ama ou porque não sabem o que irá acontecer depois de deixarem o poder. Mas isto é parte do passado. Isto está mudando.
DW: Agora que terminastes o teu mandato, o que irás fazer na sequência?
EJS: O meu trabalho não terminou. O meu trabalho é continuar a promover as mulheres. Eu aceito este prêmio em nome das milhares de mulheres da Libéria, de África e do mundo que ficaram ao meu lado e me apoiaram. Elas ainda não atingiram o nível de igualdade que nós queremos ver. Elas provavelmente não irão alcançar isto enquanto eu estiver viva. Mas eu continuarei a trabalhar no tempo de vida que me resta.
Abu-Bakarr Jalloh, Eric Topona/DWafrica/Caminho Político
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