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sexta-feira, 18 de maio de 2018

''É preciso biodiversidade também nas finanças.'' Entrevista com Alessandra Smerilli"

18-05-2018-moedas-sustentabilidade-casa-meio-ambiente_pixabay.jpgEconomia sustentável? “Eu a chamaria de ‘economia de futuro’, porque diz respeito ao futuro do planeta e aos nossos filhos.” Aliás, “as finanças, assim como todos os instrumentos, podem ser utilizadas para fins diversos. Quem dá poder às finanças somos nós. Também é possível ter lucro colocando a pessoa no centro do desenvolvimento”. Para isso, é tão importante fazer com que cresçam os “fundos éticos”, isto é, aquelas formas de investimento que levam em conta determinados parâmetros sociais e ambientais, excluindo, por exemplo, setores como os jogos de azar, a exploração mineral ou os títulos petrolíferos, e escolhendo, ao contrário, os “fundos descarbonizados”.
E, se a biodiversidade faz bem para o ambiente, o mesmo vale para as finanças, nas quais se deve afirmar uma pluralidade de sujeitos econômicos e de investimentos capazes de limitar os interesses especulativos hoje dominantes. Um conceito também retomado pelo documento centrado na ética e nas finanças divulgado nessa quinta-feira, 16, pelo Vaticano. Em todos esses temas, aliás, a Doutrina Social da Igreja pode desempenhar um papel importante.
É o que explica a Ir. Alessandra Smerilli, das Filhas de Maria Auxiliadora, que leciona Economia Política na Pontifícia Faculdade de Ciências da Educação “Auxilium” de Roma, além de fazer parte de inúmeros órgãos envolvidos na promoção das finanças éticas.
Recentemente ela publicou o livro Pillole di economia civile e del ben vivere [Pílulas de economia civil e do bem-viver], editado por Laura Badaracchi e com o prefácio de Stefano Zamagni, publicado pela Ecra. Proteção do ambiente, respeito pelos direitos humanos e sociais “nas empresas e nos Estados” em que se realizam os investimentos, uma governança que evite as concentrações de poder nas mãos de poucos e favoreça a presença feminina nas cúpulas: estes são alguns dos principais pontos de referência para tal abordagem.
E as coisas estão mudando mesmo que essas opções reduzam a quantidade de títulos sobre os quais é possível investir, porque “hoje está se tornando um pouco de moda ser selecionado por qualquer um desses fundos éticos. Isso se torna um fator de promoção da empresa”.
Eis a entrevista.
Professora Smerilli, não há também uma corrida de grupos financeiros, dos grandes bancos, para se apossarem dos recursos naturais que serão indispensáveis no futuro próximo, como a água?
Existem grandes empresas multinacionais que trabalham no campo dos recursos hídricos e fazem isso em uma ótica de sustentabilidade ambiental, uma atitude que é premiada pelos investidores. Então, mesmo que essas escolhas sejam feitas talvez por conveniência, estamos nos dirigindo para seguir esse caminho.
Atenção ao modelo de governança, direitos, ambiente: existe, portanto, a possibilidade de uma economia sustentável? Como você a definiria?
Eu falaria de uma economia de futuro. Se quisermos um futuro para o nosso planeta, devemos nos dar conta de que é preciso passar por esse tipo de escolhas. Tudo isso é possível porque os investidores e as empresas financeiras começaram a entender. Por isso, além daqueles que se ocupam da gestão de ativos e fazem das finanças éticas o núcleo da própria missão, agora muitas empresas estão abrindo setores éticos, pois, de fato, consumidores e poupadores se tornam mais exigentes. Na Itália, porém, vamos um pouco em câmera lenta, porque a educação financeira sobre essas questões ainda não é muito difundida. Em suma, se deveria aumentar a consciência de que deve comprar esses produtos, sem ficar mais olhando para o “zero vírgula por cento” de rendimento a mais, mas também para todo o resto, isto é, para o que significa também para si mesmos fazer investimentos de um certo tipo, talvez até para os próprios filhos.
Recentemente, no âmbito da apresentação da Fundação Quadragesimo Anno, foi lançada a proposta de uma “certificação em conformidade com a Doutrina Social da Igreja”, uma espécie de classificação católica. Como você a avalia?
Pode ser uma ideia para se trabalhar e me parece uma ideia importante, no sentido de que a Doutrina Social da Igreja nada mais é do que um conjunto de ensinamentos que põem a pessoa e o bem comum no centro e, portanto, o desenvolvimento é visto em uma ótica do bem comum. A Laudato si’ é muito apreciada não só em um âmbito católico, mas também por estudiosos de todo o mundo que reconhecem a importância das temáticas abordadas nessa encíclica. Então, o ponto é – e sempre se trata do mais difícil – passar dos princípios para a operacionalidade. Essas certificações deveriam partir dos princípios e ir encontrar os indicadores que correspondem a esses princípios dentro das empresas, dentro dos Estados. É uma operação complexa, mas não impossível. Até porque temos exemplos de algumas empresas que já trabalham nesse sentido, por exemplo, aquela com a qual eu colaboro, Etica Sgr, que utiliza 65 indicadores para construir suas próprias pontuações. Há uma equipe de pessoas que trabalha monitorando as empresas a cada seis meses para avaliar o respeito desses princípios. Então, não é impossível. Isso pode ser feito e seria algo útil.
O que você entende por economia civil?
A economia civil é uma tradição de pensamento econômico que tem as suas origens no iluminismo e no humanismo renascentista. O objetivo é o de colocar a pessoa no centro e afirmar que, na economia, também podem ser importantes a confiança, a gratuidade e a reciprocidade. Entendendo o gratuito não como “grátis”, mas como espírito que nos move a fazer as coisas. Outro aspecto fundamental na perspectiva da economia civil é dizer que não existe apenas a dialética Estado-mercado, mas há também uma sociedade civil que pode ser importante também do ponto de vista econômico.
Na Itália, aquilo que chamamos de “terceiro setor”, na realidade, é um primeiro setor até pela quantidade de trabalho e necessidades a que responde. Então, não se pode pensar o mundo simplesmente dizendo: o mercado cria os “bolos”, e o Estado redistribui. Existe uma sociedade civil que, como está acontecendo nas finanças éticas, contribui para que os “bolos” sejam criados de um certo modo, isto é, prestando atenção a como a riqueza é criada, não apenas à sua quantidade. Uma economia que, a partir de dentro, pode criar um sistema sustentável.
Mas como se faz para levar as forças das finanças internacionais por esse caminho?
Atenção: o fato de as finanças éticas estarem funcionando é demonstrado pelo fato de que um dos maiores fundos de investimento do mundo, o Black Rock, está começando a se interessar por temáticas de sustentabilidade, o que explica muito bem que eles também estão entendendo, mesmo que não por razões intrínsecas, que é preciso tomar esse caminho.
Mas então também é preciso uma mobilização da opinião pública...
Exatamente. Precisamos nos dar conta da situação e premiar certos investimentos em detrimento de outros, porque isso leva as empresas a irem em certas direções.
Mas vivemos os anos em que as finanças governam o mundo. Parece uma força primordial que se move de acordo com interesses próprios...
Esse tema está muito ligado à questão das desigualdades e da concentração da riqueza em nível mundial. Dos últimos relatórios da Oxfam, sabemos que existem oito pessoas no mundo que possuem a riqueza da metade mais pobre da população mundial, 3,6 bilhões de pessoas. É claro que essas situações são insustentáveis, devem ser denunciadas. E aqui também, porém, há coisas para fazer. Por exemplo, na Itália, temos uma tradição que é a dos cofres rurais, do crédito cooperativo que, por estatuto, no artigo 2, fazem referência aos princípios da Doutrina Social da Igreja. Trata-se de bancos que buscam investir no desenvolvimento do território, e não em outro lugar. Então, a legislação também deveria compreender um pouco mais isso, porque, nesse sentido, o que é preciso é a biodiversidade também bancária.
Nos Estados Unidos, existem quatro formas, quatro tipologias de bancos; na Europa, há uma legislação que tenderia a reagrupar tudo na forma da Spa [sociedade por ações]. Perguntemo-nos se isso realmente favorece o desenvolvimento ou não. Sabemos que, na natureza, quando se perde a biodiversidade, os sistemas implodem. Talvez valeria a pena fazer uma reflexão sobre a biodiversidade também no âmbito financeiro e, assim, proteger aquelas formas de organização que não podem ser assediadas por demandas e por normas que se aplicam apenas a grupos muito grandes. É necessário que existam sistemas, de acordo com a tipologia de empresa bancária, que possam sobreviver no mercado.
Talvez essa seja uma das razões da crise na Europa, essa espécie de “monocultura” no âmbito financeiro?
Existe esse risco e, na minha opinião, existe a necessidade de um movimento de opinião pública e de estudos sérios que mostrem como as coisas são. Tomemos um clássico modo de dizer, “too big to fail”, grande demais para falir. De acordo com esse princípio, é preciso necessariamente ser grande para poder resistir neste mundo. Mas isso nem sempre é verdade, e então é preciso que haja quem estude seriamente quais são as alternativas, e deve ser cultivada uma diferença de pensamento nesse âmbito, porque seria não apenas enriquecedor, mas também a favor do desenvolvimento.
A esse respeito, o papa, falando ao Parlamento de Estrasburgo, fez referência aos chefes desconhecidos dos impérios financeiros...
Pois bem, gostaríamos que eles fossem conhecidos e que também fossem diferentes entre si, que houvesse um direito de cidadania para todas as formas.
A reportagem é de Francesco Peloso, publicada em Vatican Insider e Caminho Político. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

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