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domingo, 20 de maio de 2018

"E se fosse com alguém que você ama?

Resultado de imagem para Marivaldo Pereira"Acreditamos que qualquer religião tem como essência a compaixão e a solidariedade. A religião deve se identificar com o amor ao próximo e com a igualdade, sendo um contraponto à intolerância, à violência, ao tráfico de pessoas, ao trabalho escravo, às disputas geopolíticas e suas guerras que destroem vidas". Com essa frase a representante da Rede Um Grito pela Vida iniciou sua palavra na celebração de abertura da Semana de Oração pela Unidade Cristã, que acontece de 13 a 20 de maio (para maiores informações, acesse o link). E se fosse com alguém que você ama? Com essa frase ela passou a relatar a triste realidade das vítimas do tráfico de pessoas e nos contou como iniciou sua militância no enfrentamento a este problema. O que a moveu foi pensar que uma daquelas vítimas poderia ser sua sobrinha, uma de suas amigas ou qualquer pessoa que amava. Assim, passou a combater o tráfico de pessoas e a se dedicar ao acolhimento das vítimas dessa grave violência. Sua fala emocionou do começo ao fim.
Fomos à celebração a convite da Pastora Romi Márcia Bencke, do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil. O tema “A mão de Deus nos une e liberta” reforçou nossa própria experiência com as religiões.
Acreditamos que qualquer religião tem como essência a compaixão e a solidariedade. A religião deve se identificar com o amor ao próximo e com a igualdade, sendo um contraponto à intolerância, à violência, ao tráfico de pessoas, ao trabalho escravo, às disputas geopolíticas e suas guerras que destroem vidas, que perpetuam abusos, que forçam tantas pessoas a se tornarem refugiadas — a religião deve, inclusive, ser um contraponto ao ódio religioso que persegue outras religiões.
Sempre tivemos claro que é preciso pregar amor, solidariedade, compaixão e estimular o perdão para que as pessoas possam viver em paz e harmonia. Infelizmente, temos entre nós muitos exemplos de lideranças que utilizam a fé para fomentar e direcionar o ódio contra a própria diversidade social e, assim, passam a perseguir, de forma violenta, a população LGBT, as religiões de matriz africana e até mesmo aqueles que deles divergem no campo ideológico.
São as mesmas lideranças que no Congresso Nacional votam pelo encarceramento em massa e a favor de medidas que aprofundam ainda mais o abismo social existente em nosso país, como a reforma trabalhista e o congelamento dos gastos públicos em saúde e educação, medidas que o atual governo patrocinou para prejudicar os trabalhadores e a população mais pobre.
A celebração do dia 13 reforçou nossa crença de que a religião pode inspirar as pessoas a fazerem o bem, a unirem forças para persistir contra as injustiças, lutar contra as desigualdades sociais e contra todas as formas de discriminação, seja racial, de gênero, de classe e também por credo religioso. A solidariedade e a liberdade são mais do que valores ou princípios, são o próprio caminho a ser trilhado — e não só no âmbito espiritual, mas também no campo da política. Fizemos orações para os sírios, que sofrem com a guerra. Conseguimos ajuda para os refugiados venezuelanos, que fogem para o Brasil e para outros países vizinhos. Celebramos o amor ao próximo com ações, orações e música. Milton Nascimento esteve presente com “Coração civil”:
“Quero a utopia, quero tudo e mais
Quero a felicidade nos olhos de um pai
Quero a alegria muita gente feliz
Quero que a justiça reine em meu país”.
O Pai Nosso foi proclamado em aramaico. A trilha sonora de encerramento foi um samba de Niltinho Tristeza, interpretado por Dudu Nobre: “Liberdade, liberdade! Abra as asas sobre nós; e que a voz da igualdade seja sempre a nossa voz”.
Em pouco mais de duas horas, vivenciamos a união (concretizada na presença de várias igrejas, cada uma agregando sua diversidade), a solidariedade (compartilhamos a dor de mulheres vítimas de tráfico humano), a coragem (para enfrentar situações tão degradantes), a dignidade (para retomar a vida), a felicidade e a justiça (na música de Milton Nascimento), a igualdade e a liberdade (na música de Niltinho Tristeza). Foi um grande resumo do que acreditamos ser o sentido da busca espiritual — e da ação política.
Saímos emocionados do encontro e empolgados por ver lideranças religiosas pregarem o amor, a solidariedade e questionar o sistema que promove as desigualdades sociais e condena os mais pobres à exclusão social.
Dando asas às nossas imaginações, ficamos sonhando com a possibilidade de que as palavras que ouvimos pudessem ser disseminadas por toda a sociedade, dentro do Congresso Nacional ou mesmo para cada trabalhador ou trabalhadora que sofre com o desemprego, com a fome, com o trabalho escravo ou que é vítima do tráfico de pessoas.
Só temos a agradecer à pastora Romi pelo convite e recomendar a todos que acreditam numa sociedade mais justa e que ainda não foram ao evento que prestigiem a Semana de Oração pela Unidade Cristã. Não temos dúvidas de que sairão de lá com a certeza de que não estamos sozinhos e de que a fé em Deus, independente da forma como ela se manifesta, é incompatível com o ódio.
Marivaldo Pereira começou a trabalhar aos nove anos, em feira livre. Também foi auxiliar de pedreiro e office boy. Sempre trabalhando e estudando em escola pública, chegou à faculdade de Direito da USP, onde se graduou e concluiu o mestrado. Auditor federal de finanças e controle, exerceu durante os governos Lula e Dilma diversos cargos no Ministério da Justiça, no qual chefiou as Secretarias de Assuntos Legislativos e de Reforma do Judiciário e depois se tornou secretário executivo. Assessora o deputado federal Ivan Valente (Psol-SP) e atua como professor voluntário de alunos de baixa renda em Brasília. Perfil no Facebook

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